Monita


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“Acredito que o branco que eu vejo é preto, se a hierarquia da Igreja assim o tiver determinado”.
Inácio de Loyola

 

Inácio de Loyola (1491-1556) fundou a Companhia de Jesus, juntamente com outros seis companheiros, em Montmartre, a 15 de Outubro de 1534. Desse grupo fundador fez parte um português, de nome Simão Rodrigues de Azevedo, que veio a ser, em 1546, o primeiro Provincial da Província portuguesa da Companhia de Jesus.

Os jesuítas são uma associação religiosa que se estabeleceu, desde a sua fundação, não sobre um modelo estritamente monástico mas, pelo contrário, sobre um modelo de cariz político, científico e militar. O Superior dos Jesuítas, também chamado Papa Negro, toma ainda a designação de General.

Foram expulsos várias vezes dos países onde a sua influência foi mais notada (Portugal em 1759, França em 1762, e posteriormente em 1880), suprimidos definitivamente em 1773 por Clemente XIV,  o Rigoroso (1705-1774), restabelecidos por Pio VII (1742-1823) em 1814. A Companhia de Jesus conseguiu sempre sobreviver e emergir das perseguições, constituindo ainda hoje uma verdadeira potência política e intelectual, tendo chegado, apesar de todas as dificuldades, a eleger o actual Papa Francisco.

Foi importantíssimo o papel que a Companhia de Jesus desempenhou nos Descobrimentos, tendo sido sempre os seus elementos dos primeiros a chegar aos locais mais distantes e inacessíveis, dando deles notícia e lá estabelecendo contacto com populações e autoridades, levando a cabo um poderoso trabalho em áreas tão diversas como a diplomacia, a evangelização ou a ciência. Tibete, China, Etiópia, Japão, Índia, são apenas alguns exemplos da extraordinária diáspora evangelizadora dos Jesuítas, espalhada  por todo o planeta, cujo contributo para a construção da civilização ocidental e para o conhecimento humano em geral é inestimável e  insubstituível.

Em certa medida, foi o poder intelectual e científico dos Jesuítas que construíu a sua vocação para o Ensino, sendo por todos reconhecida a qualidade dos seus Colégios e o papel fundamental que vêm desempenhando nos sistemas de Educação de vários países, com natural destaque, obviamente, para Portugal.

Este rico património histórico, intelectual, político e científico dos Jesuítas, torna mais incompreensível este curioso artigo do Padre Vasco Pinto de Magalhães, publicado no jornal Observador no passado dia 14, no qual o Padre Jesuíta, sabe-se se lá se preparando a grande ofensiva amarela dos Colégios Privados reunidos este Domingo em Coimbra, num Colégio da própria Companhia de Jesus, classifica “uma certa” Esquerda portuguesa como “terrorista”, comparando-a directamente ao o Estado Islâmico. No argumentário do senhor Padre jesuíta, entrar de metralhadora no Bataclan, disparando indiscriminadamente sobre seres humanos, rebentar à bomba uma pastelaria no meio de Paris, ou fazer-se explodir num terminal de aeroporto cheio de gente, é a mesma coisa que tentar “descristianizar” a cultura, retirar crucifixos das salas de aula, legalizar a eutanásia ou as barrigas de aluguer, propósitos que o senhor padre atribui à Esquerda que adjectiva de terrorista.

Houve quem tivesse estudado, e publicado, regulamentos e códigos de instruções pouco conhecidos da Sociedade de Jesus, fazendo graves acusações sobre as suas estratégias de actuação, os seus verdadeiros e pouco católicos objectivos, criando da Companhia uma imagem mais consentânea com o maquiavelismo radical, do que propriamente com o catolicismo místico emergente dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Mas isso são, certamente, mentiras e as Monitas que para aí pululam não passam de especulações sem fundamento, com origem em algum fertilizante da imaginação consumido em violação da posologia recomendada.

Ainda assim, o artigo do senhor padre é um ataque irracional, violento e totalmente despropositado a forças políticas democráticas, cujos programas foram sufragados nos termos constitucionais, tendo por isso, à partida, uma legitimidade de representação que notoriamente falta ao senhor Padre Vasco Pinto de Magalhães.

Comments

  1. José Gonçalves says:

    Meu caro, ninguém ganha com transformar esta questão num debate Igreja-resto do mundo (ou esquerda-direita, já agora), até porque, do outro lado da barricada, há muita gente interessada nisso mesmo, em fazer da política de educação do Governo um ataque anti-clerical. E não vale dizer que “eles é que começaram”. Há argumentos mais do que suficientes a favor das medidas do Ministério da Educação, sem termos de ir por aí.

  2. Afonso Valverde says:

    É isso. Há mais argumentos para além daqueles que espreitam na rasteira montada. Ignorar o campo de argumentos no qual querem que se coloque a questão é mais sábio.
    Sempre se perde desta forma. A Igreja, alguma igreja sempre se sustenta nas armadilhas do misticismo que diz combater.
    Passemos para o lado dos argumentos a favor das medidas já tomadas pelo Minstério da Educação…
    Sou católico, esforçando-me por ser crente…No Além. No Aquém vivo-o da melhor forma…

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