O Cavalo de Tróia da Economia Social


Quem estivesse atento aos protestos dos colégios privados, teria reparado numa certa desproporção entre a intensidade e a amplitude desses protestos e o efeito real das medidas tomadas pelo Ministro da Educação que, na verdade, afectam apenas uma pequena parte do conjunto de instituições privadas de ensino com contrato de associação.

O motivo dessa inusitada agressividade reside no facto de ela ter como verdadeiro fim actuar por antecipação e tentar condicionar as opções políticas deste governo, e da maioria que o apoia, numa matéria com implicações políticas e constitucionais semelhantes e de importância decisiva para o nosso futuro colectivo: a Segurança Social.

Tal como está bem e oportunamente expresso nas páginas dos jornais de hoje, um dia depois de uma “manifestação espontânea” e meticulosamente organizada ter atentado contra a liberdade de reunião do Partido Socialista, procurando perturbar o seu Congresso, o verdadeiro problema da direita reside nas eventuais e necessárias medidas que este governo venha a tomar no sentido de evitar a captura do sistema público de Segurança Social por interesses privados ilegítimos.

É, de facto, chegada a hora de avaliar com rigor e republicano sentido de justiça os verdadeiros propósitos da chamada Economia Social e perceber se ela, afinal, não vem a ser pouco mais que um Cavalo de Tróia da direita neoliberal, cujo inconfessável objectivo é o assalto aos recursos que a todos pertencem, necessariamente canalizados através da geometria redistributiva do Estado e do sistema público de Segurança Social.

O negócio da miséria prosperou, como é sabido, nos últimos anos, sob a protecção do governo de direita e graças à transferência gigantesca de recursos e prerrogativas do Estado para entidades de direito e gestão privados que, sob a pomposa e dúbia designação de Economia Social, transformaram a Sopa dos Pobres num instrumento de poder institucionalizado e fizeram regressar a sociedade portuguesa a um modelo caritativo e assistencialista de raiz feudal, tão ao gosto de certas organizações das quais o Estado Novo e a Ditadura foram preciosos aliados. São, aliás, essas as mesmas organizações que assistiram com cumplicidade silenciosa, que por vezes se confundiu com um secreto regozijo, ao massacre social que Portugal sofreu nos últimos quatro anos e meio e que atirou para as mãos da caridade e para a humilhação do cabaz e da economia jonet centenas de milhar de portugueses.

A solidariedade social não é uma esmola, é um Direito e um Dever de cidadania.

É por isso uma prerrogativa inalienável e intransmissível do Estado, da República Portuguesa, não capturável pelo empreendedorismo caritativo do terceiro sector, cujos principais activos são a injustiça, a desigualdade e a fragilidade social que ambas acarretam.

Comments

  1. Isabel Atalaia says:

    Na mouche!

  2. Não diria melhor.
    A questão dos colégios podia apenas ter poupado 1,5€ ao erário público e ainda assim assistiríamos a toda esta mal disposição da direita.
    Porque o que está aqui em causa é uma questão de princípios e, mais importante, uma questão de precedências.
    Este foi, espero, o primeiro de muitos ataques às famigeradas PPPs, essa bosta fumegante entregue a todos nós com um lacinho cor-de-rosa, pelos anos do Cavaquismo, que cada vez mais se parecem à Idade das Trevas que outra coisa.
    A Segurança Social é o boi maior sem dúvida, mas ainda à muito trabalho pela frente. Há muito contrato envenenado e sangria desnecessária à máquina do Estado.
    Quase que me atrevo a fantasiar com o dia em que os bancos se responsabilizem pelas próprias asneiras…

  3. joão lopes says:

    sem duvida,a SS é o alvo.Para isso,basta lêr o mirone.

  4. isabel benz says:

    Porque não acabar com as Fundações? Acabar com os pareceres de escritórios de advogados, quando existe no Estado Juristas? Porque não reduzir o numero de deputados, quando 70 % das leis que regulam a vida dos portugueses? Porque não acabar com os Sindicatos (que recebem milhões do OE) e pouco ou nada fazem pelo ensino???? Porque não fiscalizar a qualidade de ensino, como se faz no estrangeiro…inspectores assistem sem aviso previo a aulas???? Alguns colégios estão em zonas, onde não existe escolas publicas…onde não existe tranporte público com regularidade…tanto dinheiro mal gasto e só querem fechar os colégios?????

  5. Onde não existe escola pública, não será fechado um único colégio privado. Porra!!!
    Porventura, ainda não deve ser hora da novela e, enquanto esperam, dizem disparates.
    As perguntas que alguns fazem deviam ter sido dirigidas aos amigos pulhas do governo anterior.
    ah, vi agora na imprensa online que o Portas já tem mais um tacho, vai liderar o conselho internacional da Mota-Engil.
    Ora aí está uma das respostas que alguns pretendem saber.
    agora pergunto eu: para onde irá o que tentou fugir às contribuições e impostos?
    De certeza que não vai engraxar os sapatos ao cavaco, porque sabe que ele não tem credibilidade a não ser na sua varanda de casa.

  6. Mónica says:

    Ainda bem que se fala disto, pois uma das caras do movimento que tem aparecido nas manifestações e nas TVs é precisamente director de um colégio com CA de uma localidade onde só há isso porque não há escola publica. Esse e os outros colégios vão manter as turmas mas não têm deixado de se manifestar. Inclusivé manterão os alunos que recebem de outras localidades onde há escola pública. Quanto a fiscalização onde ela não costuma existir é nos colégios com contrato. Ainda hoje na escola pública onde trabalho entrou a inspectora na sala para ver o decorrer das provas de aferição e o ano passado os inspectores também entraram em salas de aula para ver as aulas, precisamente!

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