Notas sobre o Brexit


 

 

  • Algumas almas pretendem apresentar o referendo como uma vitória dos eurocépticos contra a União Europeia. É verdade. Mas não é toda a verdade.

 

  • Esta campanha foi baseada na discussão sobre a imigração. Tornou-se um voto contra a entrada supostamente desenfreada de imigrantes vindos da União Europeia (o caso mais notório, polacos e búlgaros). Provas? Quem está à frente da campanha foi Nigel Farage e Boris Jonhson. A palavra chave da campanha foi Imigração.

 

  • Isto não quer dizer que todas as pessoas que votaram Leave são racistas ou xenófobas. Isso é uma visão redutora e simplista. Muitas votaram porque têm de facto preocupações legítimas sobre o futuro da União Europeia. E os votos, todos eles, seja porque razão forem, têm legitimidade e devem ser aceites. É a democracia.

 

  • Contudo, é inegável que muitas outras pessoas votaram em nome daquilo em que em Inglaterra se chama “the little Englander mentality”.  Mais do que isso, a campanha foi conduzida de acordo com essa mentalidade. Isto quer dizer o quê exactamente?

  • A Inglaterra tem um problema de discurso ideológico e de memória histórica. Há um desfasamento em relação àquilo que era a posição da Grã-Bretanha há 70 anos e aquilo que é agora. Isto tem muito a ver com a questão da idealização do Império Britânico e da forma como ele é visto em Inglaterra. Não há um discurso de condenação explícita do Império e por isso as pessoas podem ser convencidas de que o Império foi uma coisa positiva e que o poder que a GB tinha no princípio do século XX era legítimo. O problema é que as pessoas que idealizaram o Brexit, pessoas como Boris Jonhson (basta ver o livro que ele escreveu sobre o Churchill), Andrew Roberts e Nigel Farage embarcam todos neste discurso da grandiosidade do Império, da excepcionalidade britânica, da ideia que Churchill espelhou no famoso discurso sobre os United States of Europe. Para Churchill os United States of Europe não contariam com a presença da Grã-Bretanha porque a GB teria os Estados Unidos e o Império. Claro que Churchill foi toda a vida um imperialista vitoriano – o que é legítimo porque ele nasceu no fim do século XIX no seio de uma família nobre. Mas não é legítimo que este discurso se continue a impor.
  • Ou seja, o Brexit revela a total inabilidade das elites intelectuais e políticas britânicas de lidarem com a sua própria História. São culpados de terem alimentado mitos e idealizações relativamente à sua própria identidade e memória histórica, e por não terem conseguido travar este discurso.
  • Isto torna-se evidente quando percebemos que foi a população mais velha que votou no Brexit enquanto os jovens que votaram apoiaram o Remain. Outra das evidências foi o sentido de voto na Escócia e na Irlanda do Norte – pois esta idealização da identidade é um fenómeno essencialmente inglês.
  • No fundo, o que está inerente a tudo isto é esta ideia de “make Britain Great again” – um bocado na senda do Trump. A ideia de “Greatness” está ligado ao discurso de excepcionalismo e glórias passadas.
  • A diferença é que os Europeus – ingleses incluídos – adoram dizer que o racismo nos Estados Unidos é uma coisa horrível e que os americanos são muito racistas. Contudo, apesar dos enormes problemas que existem nos Estados Unidos, a sociedade americana discute estes assuntos. Discute a escravatura, discute a segregação, as pessoas vão aos óscares, ao John Stewart e ao Orange is the New Black e falam claramente sobre a situação. Os Europeus não o fazem. E estamos a pagar o preço de não o fazer.
  • Agora é tempo de reformar a União Europeia. Ou melhor, de a salvar. Sem reforma, sem mudanças, mais vale sairmos todos já.
  • Eu também acho que as elites europeias têm culpa. Mas não podem ter toda a culpa. Eu não aceito – nem posso aceitar – que se desresponsabilize as pessoas que votaram a favor da saída da Grã-Bretanha porque não querem mais polacos em Inglaterra ou porque os taxistas já não falam com um sotaque cockney.

Comments

  1. Muito bom senso nas notas que deixa. Mas complexos imperiais à parte…. não é o dever qualquer elite digna desse nome promover o seu país? Torná-lo “grande de novo” se preferir. Nós seguimos o caminho oposto e acabámos por não ser nada, apenas um ponto no mapa dominado por uma burocracia interna e externa que pisa a história, cultura e dignidade de todos.

    • Danielle Dinis Foucaut says:

      Não seja tão derrotista em relação a Portugal. Este pais desde 74 tem dado um salto qualitativo imenso se você se lembrar de como era o pais na altura da vossa linda revolução. Demasiada gente já esqueceu. E Portugal tem muita gente capaz. Claro não é um pais rico nem dos primeiros da Europa mas pode muito bem conseguir ser uma nação entre as outras com capacidade de se livrar das dívidas e do atraso se o resto da Europa não o esmagar com desafios impossíveis. A tendência PPE que domina por enquanto a UE impede as nações do sul de competir em termos de lealdade com o norte. Muitas coisas podem mudar, se este Brexit for o electrochoc necessário para repensar a UE em termos sociais e humanistas, isto é trabalhar para as sociedades e não para a City de Londres, os negocios e o mundo da Finança que só vê números a frente. Alias o planeta inteiro precisa que se repensa o consumo e a redistribuição, de modo ecológico, senão morremos todos e depressa.

      • Não sou de todo derrotista! Eu, ao contrário de muitos, acredito piamente na capacidade e qualidade dos portugueses. Mas sei ver que estamos a ser manietados por um sistema que nos está a levar à não existência enquanto nação e cultura. Portugal pode ser o que quiser, desde que as pessoas saiam do torpor narcótico a que foram induzidas. Não aceito de todo a visão de nos colocarmos à mercê do destino (a boa vontade dos outros países “caridosamente” nos deixarem crescer e voltar a existir). O dizer não às elites (locais e exteriores) e a todos os seus jogos de poder (viciados a seu favor) é o primeiro passo de qualquer libertação e renascimento.

  2. Edgar Carneiro says:

    As pessoas votam segundo os seus interesses.
    É de perguntar: esta UE responde aos seus interesses?

    • Nightwish says:

      As pessoas votam de acordo com aquilo que acham que são os seus interesses, mas às vezes sai-lhes um Passos Coelho ou um Hitler. Votam, desta vez como das outras, por uma variedade de razões éticas e outras menos éticas. O mais importante é educá-las de forma a que o façam de forma informada e formá-las de forma a que o façam da maneira mais humana.

  3. Estamos a pagar quem ? pelo que presumo nem há nada de grave nos anglosaxoes seguirem o rumo que livremente escolheram, bem como acho bom para o futuro da UE expurgar os hipocritas, aclarando as regras de comercio com eles.
    Se a Alemnaha deicidisse sair ficaria preocupado, agora os ingleses espero que seja melhor para a UE.

  4. Zoelae says:

    Quando não se gosta de um resultado lá vem a velha dalaínha de apelidar os vencedores, ou seja, a maioria de gente ignorante, burra e xenófoba.

    • Danielle Dinis Foucaut says:

      Sim, tem razão. É preciso ler o que o “inteligentíssimo” Miguel Esteves Cardoso disse a propósito de quem voto “remain” e de quem votou “leave”! Espantoso de stupidez. Claro que quem votou para a saída do RU, não queria mais ver triunfar os ricos da Cidade e ver rejeitado o resto do pais na miséria, e no desemprego crónico. Socialmente a Inglaterra sofre muito, todos os apoios sociais , a escola, os hospitais, tudo funciona sem dinheiro, o estado se retirou de tudo e deixou os privados tomar conta de forma bem liberal da saúde e da educação dos Britânicos. os Ingleses responderam culpando a Europa desta situação (provavelmente erradamente!).
      O que não deixa de ser cómico é que o referendo aconteceu porque dois galos disputavam o mesmo poleiro : David Cameron que queria sair triunfante dum desafio e mostrar que “ele” soubera fazer votar uma aceitação da Europa pelo seu povo, contra o Boris Johnson que não queria realmente o brexit mas que queria fazer cair Cameron para tomar o seu lugar!

  5. saudades do antigamente says:

    Há que registar, que o f9 é um fascista militante!

  6. Eu já estou velho para esta guerra mas ainda fazia uma “perninha” para ver este neoliberalismo bem longe desta Europa ; Foi tão bom viver estes 82 anos neste país e erstar a ver o que estes “burrocratas”de Bruxelas estão a fazer aestes povos é de ficar de cabelos em pé !!! Querem levarnos para o estado e estilo de vida da india ou da china do antigamente ???

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