Viva Cristiano Ronaldo! Abaixo Cristiano Ronaldo!


Real Madrid's Cristiano Ronaldo celebrates after scoring a goal during a Spanish La Liga soccer match between Real Madrid and Real Sociedad at the Santiago Bernabeu stadium in Madrid, Spain, Wednesday, Dec. 30, 2015. (AP Photo/Daniel Ochoa de Olza)

(AP Photo/Daniel Ochoa de Olza)

Há muitos anos, um amigo meu soube que um dos seus escritores preferidos iria estar em casa de um outro amigo e pediu-lhe que os pusesse em contacto, porque quem gosta de livros tem, quase sempre, o estranho desejo de apertar a mão que os escreve. Esse pedido foi-lhe terminantemente recusado, com o argumento de que o referido escritor era uma pessoa tão desagradável que estar na sua presença iria destruir a imagem de um dos heróis desse meu amigo.

Nos últimos dias, tem havido uma espécie de debate sobre as virtudes e os defeitos de Cristiano Ronaldo. Pode parecer um assunto fútil e também é, e ainda bem, porque não há coisa mais saudável que uma futilidadezinha controlada. De qualquer modo, o futebol,  com os territórios contíguos, goste-se ou não, é um fenómeno social importantíssimo.

Vamos por partes, em busca de uma relação entre os dois primeiros parágrafos.

Já vou à bola há alguns anos. A primeira grande competição internacional que acompanhei do princípio ao fim foi o Campeonato do Mundo de 1978, na Argentina. Desde então, vi milhares de jogos e ainda mais milhares de jogadores. Como tudo isto era no tempo em que os animais falavam, não existia aquilo a que se chama “pressão mediática”: para além de não haver horas intermináveis de antevisões e de comentários aos jogos, os jogadores eram mais conhecidos por aquilo que faziam com os pés do que com outras partes do corpo, boca incluída.

Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores que vi. Tendo começado como extremo habilidoso, transformou-se numa máquina, pondo os seus muitos recursos técnicos, usando de uma parcimónia assassina, ao serviço da marcação de golos. O primeiro golo que marcou à Hungria é de uma dificuldade ainda superior ao do golo marcado por Madjer contra o Bayern, em 1987, porque é preciso ter em conta a distância a que é feito o cruzamento, a velocidade da bola e o facto de haver um defesa que está, como deve estar, encostado a Ronaldo e entre este e a baliza.

Entretanto, por muito que custe, a selecção ainda não fez um jogo convincente e consistente e não basta falar de azar ou da pequenez da mentalidade dos adversários. Um dos problemas da selecção está no excesso de importância que o seleccionador e os outros jogadores atribuem a Cristiano Ronaldo. Assim, é demasiado usual ver jogadores com técnica e experiência a enviar bolas longas para um craque que, na melhor das hipóteses, recebe de costas para a baliza e rodeado de adversários. Reveja-se, a propósito, o primeiro golo de Ronaldo: resulta de uma jogada colectiva, com Nani a entregar a bola a João Mário, que, com tempo para pensar na direita, põe a bola na área, onde Cristiano já só tem um adversário entre ele e a baliza. O futebol, especialmente quando há jogadores tecnicistas, não é o mesmo que o lançamento do peso a pontapé.

O meu amigo pôde furtar-se ao conhecimento presencial de um escritor que, pelos, vistos, era uma pessoa desagradável. É certo que ver alguém na televisão não é o mesmo que ter uma conversa a dois com as figuras públicas que aí passam, mas, infelizmente, é possível sabermos mais do que seria desejável. Por isso, não pude ter o privilégio do meu amigo e assisto, há cerca de 12 anos a algumas deselegâncias de Cristiano Ronaldo, um dos jogadores que admiro.

Ronaldo é, no mínimo, um desastre de relações públicas e age, frequentemente, com a impunidade de que se julga merecedora qualquer criança mimada. As críticas azedas que dirigiu aos islandeses foram mais um exemplo; o arremesso do microfone da CMTV foi outro.

muitíssimas razões para dizer da CMTV coisas que fariam Maomé adorar toucinho e admito que muitas figuras públicas tenham pensamentos homicidas quando se vêem atingidas por essa subespécie do jornalismo, mas um homem que é admirado por milhões de jovens e que está em representação de um país não pode fazer aquilo que Ronaldo fez ao pobre microfone. A moda, pelos vistos, já pegou e não deve faltar muito para que alguém atire uma carrinha de exteriores ao mar.

No mundo maniqueísta do adepto, no entanto, nunca se pode dizer mal dos nossos jogadores. No caso de Ronaldo, e não só, as críticas resultam de inveja e os comportamentos censuráveis devem ser compreendidos à luz da educação que não recebeu e das dificuldades por que passou, o que lhe garante, portanto, uma vida de impunidade. Assim, é fácil.

Comments

  1. Bravo!

  2. Konigvs says:

    Sinceramente acho que deveriam escrever mais sobre o Cristiano, a avaliar pelos comentários dos últimos dias deve dar mais visualizações que colocar vídeos de gatinhos! E depois é hilariante ler alguns comentários, porque quando não há argumentos, por norma o que acontece é entrar-se em ataques pessoais. Não se tenta desmontar os argumentos, e não se tenta porque não há defesa possível para a má criação, para a parolice e para a vaidade. Mas esse é o problema. Então, quem não gosta de gente mal educada, arrogante e vaidosa só podem ser todos uma cambada de invejosos é o que é!

    Por falar em livros, por estes dias encontrei-me com uma desconhecida para trocarmos três livros. Conversa vai e conversa vem, ela fala-me que anda a ler um do Rodrigues dos Santos. De imediato lhe disse, que seria incapaz de ler um livro dele, porque o abomino como pessoa. Ele até pode escrever livros maravilhosos, nem ponho isso em questão, mas o mal é eu à partida já saber o tipo de pessoa que ele é, só pelo trabalho público que desenvolve. Provavelmente eu já li livros de pessoas com um caráter ainda pior que o dele, mas não sabia. Tal como o corno que é sempre extremamente feliz enquanto não sabe, mas quando descobre é que é o problema! (também há quem goste de o ser e alguns até pagam para o ser, mas isso já são outras questões!)

    Mas no fundo eu sou é um grande invejoso. Não gosto do Rodrigues dos Santos porque queria era apresentar o Telejornal e ter uns abanadores como os dele. Haja paciência.

    • Helder says:

      Epá! Simplesmente genial! 5*! Apoio este comentário a 100%.

      Sim, tb abomino o “abanadores” e nunca li um livro dele por isso mesmo.

      Obrigado por me ter deixado começar bem o dia e com um sorriso na cara.

  3. Ricardo Ferreira Pinto says:

    Sois todos uns invejosos.

  4. Não me parece muito bem que o capitão da selecção nacional se refira aos seus colegas de profissão islandeses como tendo “uma mentalidade pequena” e nem me parece muito exemplar o gesto de tirar da mão um microfone de um repórter e atirá-lo à água.
    Também não me parece grande coisa ficar no chão a gesticular enquanto os companheiros lutam para recuperar as bolas que ele perde, (o capitão deve dar o exemplo de “garra” . acho eu), e pôr-se a “mandar vir” com os companheiros quando estes não lhe poisam a bola mesmo aí ao pé.
    Nestes aspectos, como noutros, (a forma com tratou Carlos Queiroz), este homenzinho dá muitos maus exemplos de comportamento, incompatíveis, no meu entender, com o cargo de capitão, para o qual foi indigitado por um tal Mendes que deve ter um cargo altamente influente na FPF, se bem que eu não saiba qual é.
    Como jogador acho que está bem, até porque não há melhor – marca golos que outros no seu lugar também marcariam, marca, de vez em quando, alguns golos que outros no seu lugar não marcariam (o de calcanhar contra a Hungria) e faz o que pode depois de uma época comprida e dura.
    Resumindo: como jogador está bem, como capitão acho que deve haver melhor.

    • Renato says:

      “Como jogador acho que está bem”? “está bem”?? LOL E marca golos que outros no seu lugar marcariam e de vez em quando marca alguns que outros não marcariam? Luís, essa é das coisas mais engraçadas que li nos últimos tempos. Parece a análise de um talento do Águias da Musgueira🙂

      • Amigo Renato, de facto eu acho que o homenzinho nem está mal de todo!
        Fartou-se de dar pontapés na atmosfera nos jogos da Islândia e da Áustria, falhou um penaltizinho, (mas quem é que não falha um penalti hoje em dia) e cansou-se de exibir, para as TV,s, o seu ar aborrecido como a dizer “o que é que eu posso fazer com estes 10 marretas a jogar na minha selecção?”).
        Já agora, e sem ironia, diga-me cá uma coisa, amigo Renato:
        Quais foram os jogos da selecção em que o CR esteve ao nível do génio e que mostrou que ele, por si só, fez toda a diferença?
        (Não vale falar do jogo da Suécia pois considero que este foi a excepção e não a regra.)

        • Renato says:

          Ora bem, o CR é o segundo melhor marcador de europeus de sempre, apenas atrás do Platini e julgo que já tem 60 golos pela seleção. Na campanha para o europeu deste ano, marcou cinco golos, e marcou agora dois, um de calcanhar, contra a Hungria, pelo que talvez, sei lá, se possa aventar a hipótese de ter sido determinante. Mas você é um tipo muito exigente, Luís, por isso não sei que lhe diga mais.

    • Anti-pafioso says:

      Parabéns pela sua educação cívica primorosa ,parabéns pelo seu comportamento exemplar . Já agora é sócio do Benfica não é ?

  5. Renato says:

    Fonix, claro que se pode falar mal do Ronaldo! Aliás, o que mais se tem feito é desancar no Ronaldo, por todo o lado. É editoriais, opiniões, análises, tudo a malhar no Ronaldo, chamando-lhe de tudo. Quem disse que não pode? O António acha que é o primeiro? Ontem vi um texto no El Pais que qualificava o Ronaldo quase como um pobre diabo atrasado mental com jeito para marcar golos.
    Eu apenas acho que isto atingiu proporções tão trágicas que se tornaram cómicas.
    Fogo à peça. Mas, já agora, lembrem-se que o Ronaldo não é, nem tem de ser, um modelo de cavalheirismo e educação. O futebol já não é aquele desporto jogado pelos rapazes de boas famílias em Oxford. O que a gente mais quer é que o rapaz marque muitos golos e de qualquer forma, o gajo nunca bateu em ninguém, nem cometeu crimes, e até paga os impostos sobre a batelada de dinheiro que ganha, ao contrário do Messi, o menino do coro.

    • António Fernando Nabais says:

      O quê?! Não fui eu o primeiro a criticar o Ronaldo?! Uma pessoa apanha cada desilusão.
      No que respeita ao seu último parágrafo, nada tenho a acrescentar relativamente ao meu último parágrafo.

      • Renato says:

        Não fique desiludido. É como lhe digo, já muita gente séria e grave, muito professor doutor e analista desancou no Ronaldo. Os adeptos que gostam dele são burgessos da bola.
        Raio de sina a nossa. Os jogadores mais amados de sempre em Inglaterra são o George Best e o Cantona, uns bad boys que deixavam a muitas léguas o CR7, seja em vaidade, seja em comportamento.

  6. Anti-pafioso says:

    Parabéns grande Campeão .És o melhor jogador mundial de todos os tempos . o resto é dor de corno .Saudações Leoninas .

  7. Vejam as fotos sucessivas de CR publicadas no CM.
    As pessoas decentes e com algum poder deste país vão continuar a fingir que não percebem o que este pasquim está a fazer a este homem?

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