Truman Show


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O cerco que Portugal vive é, em grande medida, não subestimando, necessariamente, os problemas concretos que afectam a Economia e as Finanças, um cerco discursivo.
Tão longo e bem urdido foi o labirinto do discurso no qual o país se viu perdido, que a clausura atingiu a própria cognição, a mera capacidade de pensar e conhecer, tal como se espera, aliás, da acção de qualquer mantra convenientemente ritualizado.

O esforço que é necessário empreender para que o pensamento se expresse para lá dos limites do discurso imposto já não está ao nosso alcance, sendo ciclópica a tarefa, antes aparentemente simples, de reflectir colectivamente sobre aquilo que constitui uma comunidade a que se chama país, e que desígnios deve ele eleger para que possa prosseguir em coerência o caminho da sua evolução histórica e o cumprimento da sua missão no mundo.

A asfixia discursiva, esta tenaz sensorial e cognitiva que impede qualquer gesto do conhecimento fora do repertório linguístico da Estatística, fora da magia hipnótica de números duplamente abstractos e do poder encantatório de palavras vazias, tiradas a ferros do léxico niilista da burocracia, é como uma muralha invisível, uma espécie de escuridão que nos impede de atingir o mundo, de pensá-lo sem filtro, de admiti-lo como lugar passível de acolher o nosso propósito colectivo de povo, o nosso devir, o movimento histórico e natural da nossa identidade comum.

Sendo este cerco discursivo um exercício político-militar baseado nos princípios operativos da Semiótica, ele tem como característica particular uma grande agressividade simbólica, reduzindo à mais elementar simplicidade a geometria dos significantes, quase todos radicados na Estatística, e produzindo significados de matriz invariavelmente intimidatória, marcial, onde a presença constante do medo, da iminência da catástrofe, da ameaça, da coacção e da violência, assegura a imobilidade psico-social necessária ao transe colectivo.

A produção dos estados alterados de consciência não se obtém exclusivamente pelo uso de substâncias psicoactivas, embora em Portugal elas estejam a ser usadas de modo descontrolado, mas também pela estimulação do próprio sistema endócrino, induzindo uma nova química do organismo social, a química do pânico, susceptível de modificar não apenas a percepção que temos da realidade, mas também a nossa relação com o universo exterior e a própria leitura que continuamente efectuamos do meio interno.

É assim que números e palavras dos quais todo o significado está ausente adquirem, por acção do medo e da culpa induzidos por um discurso meticulosamente ordenado, apoiado numa estrutura comunicacional poderosa, a força encantatória que cerca os sentidos e impede, ou castiga dolorosamente, a mais discreta manifestação do pensamento crítico e alternativo.

Não é possível combater isto sem um poderoso mantra de sentido contrário, sem um discurso que veicule não o medo, mas a confiança. Mas para tal é necessário não só que se elabore esse discurso, de modo coerente e credível, mas que se coloque à sua disposição uma estrutura comunicacional capaz de o fazer chegar ao corpo social e de nele induzir as modificações endócrinas capazes de afastar a cortina atrás da qual mora a realidade real: a de um país que não se conforma com a sua própria escravidão.

Comments

  1. Cynthia says:

    Já li. Gostei. No entanto… Já leu Dalila Pereira da Costa? É que assim dito parece que primava pelo medo… As coisas não são bem assim segundo a minha experiência pessoal. Creio haver uma corrente ultrapositivista que nega qualquer manifestação divina remetendo tais acontecimentos para o pânico e para o medo. Intuí isso nalguns autores. Alguns Estados alterados de consciência podem vir de substâncias, outro do medo, outros não sabemos. Existe a ideia que só Cristo é admissível se for visto. Ou seja, tudo o que não é cristão e aceite pela igreja católica deixa de ter qualquer valor factual para se tornar numa manifestação de uma alma “perturbada”. Estou um pouco cansada deste “racismo” espiritual… O verdadeiro perigo não está nas “manifestações” se a pessoa, em caso disso, souber defender-se. O verdadeiro perigo está naquilo que faz com elas: a tentação de se ser guru, a tentação de criar seitas e por aí fora. Esse é o perigo. Agora se existe um método “místico” de aprendizagem, não tenho nada contra ele. É muito fácil ler um escrito de Fernando Pessoa no qual afirma que a dicotomia entre o espírito racional e o espírito místico dizendo ele que prefere o primeiro. Mas Fernando Pessoa não conheceu Dalila (e se conhecesse de nada lhe serviria, provavelmente, porque era absolutamente misógino) e a Dalila consegue o primor de juntar o racional ao místico.
    Tocou num ponto que talvez estejas na origem desta confusão toda.
    Eu nunca falaria com um padre para lhe pedir ajuda porque tinha intuições ou visões a mais. Aceitaria o facto. Analisava o facto. Não perdia os pés da terra. Aprendia com o facto. Mas cada um é como cada qual, como se costuma dizer.
    De resto penso que um discurso de confiança não faz mal a ninguém. Nesse ponto tem razão.
    Continue a escrever porque é Bom.🙂

  2. Belo texto, Bruno Santos. Suponho que o “cerco discursivo” tem acompanhado o Homo sapiens na sua caminhada terrena (adjectivo supérfluo, pois não há outra) e a religião (qualquer uma) constitui seguramente uma das suas principais fontes, a par da formatação das consciências pelo pensamento único – religião alternativa, de aparência profana. Não sei se Dalila e Cynthia pensavam nisto, ao “juntar o racional ao místico”. Certo (para mim) é que este infantilismo da nossa espécie deve ter algo de genético, de tal modo parece incurável, e, se o “mantra de sentido contrário” ainda pode ser “elaborado”, já a “estrutura comunicacional capaz de o fazer chegar ao corpo social…” nunca verá a luz do dia enquanto o poder que promove o “cerco discursivo” e dele beneficia não for derrubado. À bon entendeur… Parabéns pelo texto.

  3. anónimo says:

    Uma das fugas à realidade é pensar que a realidade é um show teatral, e portanto basta esperar que o espectáculo chegue ao fim, para tudo voltar à normalidade.
    Mas isto não é um show.
    A realidade é que, os corruptos governantes de Portugal abriram as portas ao invasor, receberam-nos de braços abertos, “porreiro pá”, sem qualquer medida de defesa dos portugueses; meteram os gatunos dentro de casa e deram-lhes as chaves; e agora, estamos a ser roubados sem dó nem piedade, pelos mesmos de sempre, pelos que já causaram as maiores carnificinas europeias e mundiais.
    Há trinta anos que assistimos à arrogância, aos abusos, à prepotência, à desumanidade, à ganância dos selvagens. Continuam a ser tal como sempre foram, ao longo dos últimos 300 anos.
    Não basta ficar à espera que o show acabe. É vital buscar abrigo.
    Porque, quando este show acabar, provavelmente o nosso mundo vai estar irrevogavelmente destruído.

  4. Cynthia says:

    Esqueci-me de dizer que o que apontou relativamente à linguagem estar dependente de um reportório nascido da Estatística também me causa arrepios. Essa linguagem devia acabar porque da mesma forma que a paisagem nos molda os comportamentos também a linguagem nos molda os pensamentos e sentimentos. Os Artistas são óptimos agentes para “rebentarem” de vez com esse tipo de linguagem.

  5. Edgar Carneiro says:

    Segundo consta, as bolhas que por aí andam representarão, “grosso modo”, cerca de 16 vezes a economia real. E a dificuldade, a que chamam crise, tem sido transferir para os povos os encargos com a sua regularização, antes que rebentem e façam implodir o sistema.
    Assistimos à transformação das dívidas privadas em dívidas públicas – de que o caso BES/GES é exemplo elucidativo – e, agora, alguém terá de pagar o que tem sido noticiado sobre o Bundesbank e outros bancos semelhantes.
    São verdadeiras agressões que se preparam – como a que nós e a Grécia sofremos – e não me espanta a denúncia feita por Yanis Varoufakis de que Schaubel quer ver a troika em Paris.
    Os propagandistas e as 5ªs colunas vão lançando a fumarada que esconde o ataque.

    • anónimo says:

      Ezra Pound CANTO XLV
      WITH USURA

      With usura hath no man a house of good stone
      each block cut smooth and well fitting
      that delight might cover their face,

      with usura

      hath no man a painted paradise on his church wall
      harpes et luthes
      or where virgin receiveth message
      and halo projects from incision,

      with usura

      seeth no man Gonzaga his heirs and his concubines
      no picture is made to endure nor to live with
      but it is made to sell and sell quickly

      with usura, sin against nature,
      is thy bread ever more of stale rags
      is thy bread dry as paper,
      with no mountain wheat, no strong flour

      with usura the line grows thick

      with usura is no clear demarcation
      and no man can find site for his dwelling
      Stone cutter is kept from his stone
      weaver is kept from his loom

      WITH USURA

      wool comes not to market
      sheep bringeth no grain with usura
      Usura is a murrain, usura
      blunteth the needle in the the maid’s hand
      and stoppeth the spinner’s cunning. Pietro Lombardo
      came not by usura
      Duccio came not by usura
      nor Pier della Francesca; Zuan Bellin’ not by usura
      nor was “La Callunia” painted.
      Came not by usura Angelico; came not Ambrogio Praedis,
      Came no church of cut stone signed: Adamo me fecit.

      Not by usura St. Trophime

      Not by usura St. Hilaire,

      Usura rusteth the chisel
      It rusteth the craft and the craftsman
      It gnaweth the thread in the loom
      None learneth to weave gold in her pattern;
      Azure hath a canker by usura; cramoisi is unbroidered
      Emerald findeth no Memling

      Usura slayeth the child in the womb
      It stayeth the young man’s courting
      It hath brought palsey to bed, lyeth
      between the young bride and her bridegroom

      CONTRA NATURAM

      They have brought whores for Eleusis
      Corpses are set to banquet

      at behest of usura.

  6. Rui Silva says:

    Duas palavras: lero-lero.
    A máquina só pode ser entendida pelas mentes mais brilhantes. Eu, confesso, não chego lá!

    Cps

    Rui Silva

  7. De certo modo o discurso da confiança já existe. É sólido, está infelizmente um bocado disseminado. A questão de facto fulcral é como conseguir uma „estrutura comunicacional“, liberta de mantras, gurus e outras charlatanices próprias do discurso terrorista neoliberal de fachada democrática. É preciso ter em conta que o nosso substracto psíquico foi formado e formatado numa religião onde o medo foi a principal ferramenta e desmontar papões tem muito que se lhe diga.

  8. Democracia says:

    o rui silva só percebe é as mentiras da luisinha.

    • anónimo says:

      Quanto à Luizinha é uma das que veio ganhar a vida para Eleusis, de pernas abertas para a usura.
      Quanto aos cegos, não há pior cego do que o cego que não quer ver.

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