O estranho caso da remodelação da “meia vida” dos comboios da Fertagus

António Alves
Fertagus_train_Lisbon_estacao_Corroios_Portugal

Fertagus, Estação de Corroios (origem: Wikipedia)

Ontem surgiu a notícia que os comboios da Fertagus iriam ser sujeitos à revisão da “meia vida”. Essa revisão será efectuada pela EMEF e custará 1,2 milhões de euros. Pagará o Estado, já que é este o proprietário do material circulante. A questão deste subsídio encapotado do estado a uma empresa privada já foi por mim abordada em texto anterior. Hoje a questão é outra.

Ora, 1,2 milhões de euros pareceu-me muito pouco dinheiro para fazer a revisão de “meia vida” a 18 comboios. Fiz as contas e deu-me 66 666 euros por comboio. Quem se move nesta indústria sabe que isso não chega nem para pintar um comboio quanto mais para uma revisão de “meia vida”. Procurei mais informação e o máximo de substancial que consegui foi um artigo do Carlos Cipriano para o Público [1].

Nesse artigo o jornalista informa-nos que “o contrato, no valor de 1,2 milhões de euros, contempla a revisão de compressores, blocos e distribuidores de freio, bogies (rodados), baterias, num total de 880 componentes, ao longo de dois anos”. Ahhh!… assim já me parece mais compatível com os valores anunciados. Trata-se afinal de uma simples revisão ao sistema de frenagem e pouco mais. Chamar a isto uma “revisão de meia vida” é um exercício de grande imaginação jornalística ou marketing para enganar os papalvos (vulgo contribuintes).

Só para que os meus amigos possam fazer algumas analogias, posso informar-vos que o mesmo tipo de comboios (UQE 3500) [2], propriedade da CP – Comboios de Portugal, exatamente iguais e comprados no mesmo lote que os da Fertagus, já passou pela revisão da “meia vida” e esta ficou por – imaginem! – 1 milhão de euros por unidade. Isto é, a renovação de um comboio da CP – repito, exatamente igual ao da Fertagus! – custou praticamente tanto quanto custará a renovação da “meia vida” dos dezoito (18) comboios da Fertagus. A título de curiosidade podem também ficar a saber que a renovação da “meia vida” das UQE 2300/2400 [3] ficou por 750 mil euros por unidade e todos vós com certeza já leram notícias sobre a renovação da frota dos comboios pendulares que custará 18 milhões de euros, i.e., 1,8 milhões por comboio [4].

Na verdade não vai acontecer qualquer remodelação de “meia vida” e muito menos vão “rever todos os seus equipamentos e “reconstrui-las” de forma a poderem durar mais 20 anos”. O fim da concessão será em 31 de dezembro de 2019 e, obviamente, na incerteza sobre quem ficará com a concessão no futuro (a Fertagus dá cada vez mais sinais que sem indemnizações compensatórias, e outros truques, não estará interessada), o estado, a quem esta aventura já custou mais de 100 milhões de euros, apenas está interessado em gastar o dinheiro estritamente necessário para que os comboios funcionem com a segurança exigida até essa data. Aliás, alguns destes comboios estão em mau estado de conservação, existindo mesmo unidades com sistemas canibalizados, com cabinas de condução inoperacionais, que só funcionam acopladas a outras obrigando à sua circulação permanente em unidades múltiplas.

O que está a acontecer no “Comboio da Ponte” é o mesmo que aconteceu na Linha de Cascais na década de 70. Com o aproximar do fim da concessão, o concessionário deixa de investir na manutenção corrente do material circulante e depois o Estado retoma tudo altamente degradado e arca com os custos da sua renovação total. Isto é, comerá os ossos depois do privado ter comido a carne.

[1] EMEF vai reparar comboios da Fertagus

[2] Série 3500 da CP

[3] Série 2300 da CP

[4] CP investe 18 milhões para renovar comboios Alfa Pendular

 

 

Comments

  1. Nightwish says:

    Viva o empreendedorismo!

  2. @QUANTO PUDERES says:

    Temos de perguntar ao Califa de Massamá se é isto a iniciativa e o investimento privado.
    E é verdade quanto ao final da concessão da linha do Estoril.
    Quando terminou a concessão, a CP teve de refazer tudo de raiz.

    Porque carga de água, é que os contratos desta gente não são feitos como as habitações?

    Termina a concessão mas deixa tudo como encontrou! Assim é que devia ser e a não a mama que é deixar tudo na sucata.

    Mas os nossos políticos são parvos ou comem da gamela? Ai a PORCA DA POLITICA .

    • Agostinho Miguel says:

      Gostei da comparação feita com as habitações. Uma inquilina, em Carnide, deixou a casa, depois de desenganada que ninguém lhe dava um tostão para se ir embora. Resultado: após sete anos sem lá morar, mas a visitar periodicamente o imóvel, entregou a chave. Na primeira vez que entrei em casa, enterrei o pé soalho abaixo, por estar todo podre, sanitários impróprios para utilização, estores inoperacionais, paredes cheias de humidade, etc., etc..
      ” O tudo como encontrou ” custou a módica quantia de 50 mil €€. Cecuperar este valor? Ir para tribunal…


    • Para o só @QUANTO PUDERES

      Umas perguntas (segundo a noticia) quem vai pagar a revisão é a Cp que é a dona do comboio…
      a fertagus apenas paga o aluguer a CP…

      Logo é a CP que decide que revisão faz.

      O contracto de concessão da Fertagus foi assinado em 22 de Junho de 1999 quando o governo era socialista e o PM era o Guterres…

      Que quando fez o contrato deve ter especificado quem é responsável pela manutenção, não estou a perceber onde entra o Califa de massamá.


  3. Afinal, estamos em Portugal. Uma boa parte dos empreendedores (há quem lhes chame chulos) gostam de viver sempre bem “encostadinhos” ao Estado.

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