A Origem da Propriedade


"A infância de Caim", pormenor. Gesso de António Teixeira Lopes (Vila Nova de Gaia, 27 de Outubro de 1866 - São Mamede de Ribatua, Alijó, 21 de Junho de 1942)

“A infância de Caim”, pormenor. Gesso de António Teixeira Lopes (Vila Nova de Gaia, 27 de Outubro de 1866 – São Mamede de Ribatua, Alijó, 21 de Junho de 1942)

 

Há uma lenda sobre a origem da Propriedade muito elucidativa sobre o papel que a violência tem tido ao longo da História na opressão dos povos e no domínio das nações. Essa lenda torna também clara a definição de Estado sugerida por Max Weber, segundo a qual ele é uma estrutura política e administrativa que detém o monopólio da violência legítima.

Buckminster Fuller recupera essa lenda no Manual de Instruções para a Nave espacial Terra e descreve-a com elegante simplicidade. Havia um Rei Pastor, a quem a História dos Símbolos poderia chamar Abel, que viveu na era dos gigantes e guardava em paz o seu povo e o seu rebanho. Um dia apareceu, montado num cavalo, um homem rude e pequeno com uma moca pendurada pela cintura. Chegou-se junto ao Rei Pastor e, do cimo do cavalo, disse-lhe “Muito bem, Senhor Pastor! Mas que ovelhas tão lindas você tem! Não sei se sabe que é muito perigoso ter ovelhas tão bonitas numa terra tão selvagem. Sabe que esta terra é muito perigosa”. O Rei Pastor respondeu-lhe, “Vivemos aqui há muitos anos, há muitas gerações, e nunca tivemos visão desse perigo nem problemas que dessem prova que ele existe”.

A partir desse dia as ovelhas começaram a desaparecer todas as noites. Algumas apareciam mortas, penduradas nas árvores. E todos os dias o cavaleiro voltava e dizia, “Que pena! Tão lindas eram as ovelhas! Mas eu avisei-o de que estas terras eram selvagens e perigosas. Aqui, as ovelhas tendem a desaparecer e até a enforcar-se nas árvores”.

Cansado dos problemas sucessivos, o Rei Pastor decide finalmente pagar em ovelhas a “protecção” do cavaleiro, além do que passa a usar apenas as terras que ele reivindica como suas. Ninguém ousará contestar esta reivindicação do cavaleiro, de moca à cinta, que afirmará doravante que o Rei Pastor ocupava ilegalmente terras que lhe pertenciam. A moca é o símbolo da legitimidade da nova estrutura de poder e o cavaleiro poderá galopar, a qualquer momento, com toda a velocidade, e acertar na cabeça do Rei Pastor, caso este infrinja a nova lei.

Conta Fuller que foi assim que, há muitos milénios, começou a “protecção” dos chantagistas e a “propriedade” das terras, tendo os homens pequenos aprendido a usar a moca para tornar-se estruturas de poder e passar a viver do trabalho dos outros.

Comments

  1. Martinhopm says:

    Prefiro socorrer-me de «A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado» de Friedrich Engels.

  2. Anónimo says:

    Quem detém a propriedade do mundo?

    via conversaavinagrada
    «A BBC enfrenta críticas após “acidentalmente” usar uma foto tirada no Iraque em 2003 para ilustrar o “insensível massacre de crianças” na Síria.
    O autor desta fotografia, Marco di Lauro, disse que quase “caiu da cadeira” quando viu a imagem. Relatou que estava “espantado” com o fracasso da BBC ao verificar as fontes.
    A foto, que realmente foi tirada em 27 de março de 2003, mostra uma criança iraquiana saltando sobre dezenas de sacos brancos com esqueletos encontrados no sul do deserto de Bagdá.
    No entanto, foi publicada esta segunda-feira no site de noticias da BBC com o titulo “Massacre Sírio em Houla é condenado enquanto a indignação cresce.” A legenda afirma que a fotografia foi fornecida por um ativista e não pode ser verificada de forma independente, mas diz que “acredita que mostra os corpos de crianças em Houla à espera de serem enterradas”.»

    Pois é, o Estaline é que alterava as fotos.

    Antes de ontem, a Alemanha anunciava o serviço militar obrigatório.
    Ontem, reuniam-se os primeiros ministros da Alemanha, França e Itália, para alegadamente “dar impulso ao projecto europeu”.
    Hoje, com a presença do secretário de estado dos EUA, os tanques da Turquia invadiram a Síria, com o pretexto de combater os terroristas, os quais são apoiados pela NATO, pela Arábia Saudita, e por Israel.
    Com a invasão da Síria pela Turquia, abençoada pelos EUA e UE, assistimos à escalada da guerra da NATO contra o legítimo governo da Síria.
    Os donos do mundo podem mentir, podem atacar, podem roubar, podem bombardear populações civis, podem cometer crimes contra a humanidade, simplesmente porque pensam que são donos do mundo.
    A razão dos donos do mundo está no poder das suas armas.
    Tudo o que fizerem será legítimo, porque eles vão alterando as fotografias e as leis, à medida da sua brutalidade e desumanidade.
    À pergunta, “porque pode a França ignorar as regras europeias, mas os pequenos países são castigados?”, respondia o gatuno luxemburguês, presidente da CE, “porque é a França”.

    Com estes proprietários, o mundo tornou-se num local muito inseguro para se viver.

    • JgMenos says:

      Não fora o ‘Estaline’ (tão injuriado!) e ‘o governo legítimo da Síria’ (tão carinhoso com o seu povo!) e até acreditava ser um cidadão exaltado com a injustiça no Mundo!

    • JgMenos says:

      Serviço militar obrigatário na Alemanha?
      Boa notícia. Talvez haja um futuro para a Europa.

  3. Sou seguidora assídua do Aventar, aprecio e dou a conhecer a excelente qualidade de muitos dos artigos de colaboradores deste blog aqui apresentados .
    Nunca vos deixei comentário, porém hoje senti que o devia fazer felicitando Bruno Santos pela inteligência e sensibilidade deste texto, encimado pela imagem sublime da “Infância de Caim” com todo o contexto envolvente a esse símbolo dos primórdios da humanidade na luta pela propriedade.!
    Saudações cordiais.

  4. O Bruno Santos conhece “A Ilha dos Pinguins”, de Anatole France? Lá se encontra uma narrativa sobre a origem da propriedade privada que tem semelhanças com esta.

  5. JgMenos says:

    Antes de se chamar propriedade chamou-se território.
    O território apareceu quando, em vez de colher e andar se defendeu do acesso aos passantes.
    Tendo assentado arraial, houve tempo de observar, experimentar, pastorear, cultivar…sempre a ter mais que defender… sempre a atrair mais adversários.

  6. Rui Silva says:

    Mais modernamente a desculpa da extorsão é a redistribuição aos “pobrezinhos” naturalmente…

    Rui Silva

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