Aventar

“Contate hoje mesmo!”


Ontem, numa hora, para mim, matinal, saí de casa, a fim de tomar o primeiro café do dia. A minha única preocupação era saber que teria de disputar o jornal “da casa” com os quatro ou cinco reformados que passam por cada página com uma calma enervante, incluindo a necrologia e os anúncios das meninas que prometem dar vida a mortos. Ao passar pela caixa de correio, verifiquei que já lá estava o habitual prospecto de uma imobiliária. Na frente e no verso, podia ler-se “Contate [sic] hoje mesmo!”, como poderão confirmar na imagem que simpaticamente compartilho. A urgência do primeiro café tornou-se ainda mais urgente. É nestes momentos que admiro a fleuma do Francisco Miguel Valada, que consegue manter a elegância mesmo quando recolhe amostras de fatos e de contatos.

Como é que o verbo contatar  e o nome contato entraram pelos prospectos do nosso país? Façamos, à imitação de outros muito mais sabedores, um resumo da história do chamado acordo ortográfico (AO90). O AO90 foi criado porque, na opinião (ou nas declarações) dos seus autores, era preciso, necessário, fundamental, imprescindível criar uma ortografia única no universo dos países lusófonos. Resultado: muitos desses países ainda não adoptaram o AO90 e entre os países que o adoptaram continua a não haver uma ortografia única ou deixou mesmo de haver ortografia.

Essa uniformização falhada baseou-se, entre outros aspectos, no chamado “critério fonético”, origem de mutações como a “dupla grafia” e fonte de dúvidas acerca da manutenção de consoantes. Ainda assim, e do mal o menos, esta ideia peregrina ainda não chegou às vogais.

As dúvidas ortográficas sempre existiram e obrigavam os falantes mais inseguros a perguntarem-se “Como é que isto se escreve?”, que deveria ser, na realidade, a única pergunta a fazer em sede ortográfica. Com o AO90, esses mesmos falantes já não sabem que pergunta hão-de fazer, porque o como se escreve depende do como se pronuncia e depende, muitas vezes, daquilo que vão vendo escrito e de fenómenos como a analogia (que isto da ortografia é muito visual). Ora, se tanta gente escreve contato (cerca de 2 150 000 resultados em sites portugueses), contatar (cerca de 151 000 resultados) ou contate (cerca de 320 000 resultados), é natural que muita outra gente acabe a copiar, mesmo nos Açores.

O prospecto da amável imobiliária que encontrei na minha caixa de correio terá sido visto por dezenas ou centenas de pessoas, o que pode incluir jovens em idade escolar ou pais de jovens em idade escolar que, instintivamente, irão corrigir os filhos que escrevam “contacto” ou “contactar”.

Os defensores do AO90 preferem, evidentemente, não contactar com a realidade e a realidade é que há erros que não existiam antes da imposição deste falso acordo que não pode ser ortográfico, porque ortográfico é perguntar “Como é que se escreve?”