Physis


 

imagem©Bruno Santos

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O conceito que temos de Natureza não foi sempre o mesmo. Ele tem variado ao longo dos tempos e dos lugares, espelhando essa variação não só a diversidade de culturas e de civilizações que foram progredindo sobre o nosso planeta, mas também as transformações que se foram operando sobre o próprio Pensamento humano, no processo evolutivo da sua experiência no mundo.

Há vários momentos da História da humanidade que marcam linhas de charneira na passagem entre diferentes conceitos de Natureza, a começar pela descoberta e posterior domínio do Fogo, que veio a transformar radicalmente a nossa relação com a matéria, prosseguindo no aparecimento da agricultura, no consequente declínio dos povos nómadas e na afirmação do sedentarismo enquanto manifestação primeira do impulso civilizador do Homem e do exercício de um poder, ou, pelo menos, da ilusão dele, sobre os restantes reinos da Natureza.

Nos primeiros séculos da civilização grega, por exemplo, a realidade imediata e tangível do mundo exterior era uma fonte inesgotável de estímulos, cuja experiência e percepção esgotavam, por assim dizer, a capacidade de absorção dos sentidos humanos. O conceito de Physis , dominante até Sócrates, traduzia uma plenitude sensorial resultante da vivência fundada na continuidade ontológica entre o Homem e o seu meio ambiente, não permitindo que se criassem as distinções entre mente e matéria que mais tarde viriam a dominar por completo o pensamento científico. No momento da História em que à Physis grega sucedeu a Natura romana, um património filosófico inestimável perdeu-se com a verdade etimológica e simbólica, e um outro mundo, completamente novo, começou a nascer. Platão é já um dos fundadores desse novo Cosmos, uma nova Ordem que veicula a cisão primordial entre mente e matéria que viria, mais tarde, a constituir a base de toda a Ciência Positiva.

A visão do mundo e o sistema de valores nos quais assenta hoje a chamada civilização ocidental, tem a sua origem mais próxima nos séculos XVI e XVII. O grande desenvolvimento das Ciências da Natureza que por essa altura se deu foi precedido e acompanhado pela transformação de ideias e conceitos filosóficos intimamente ligados às bases da Ciência. O cogito cartesiano passou a privilegiar a mente em relação à matéria e, mais do que isso, estabeleceu definitivamente a separação entre ambas. Descartes baseou o seu conceito de Natureza na divisão fundamental entre dois domínio distintos, separados e independentes: o domínio da mente, conhecido por res cogintans, e o da matéria, a res extensa. Enquanto a filosofia grega procurou a Ordem na infinita variedade dos fenómenos através de princípios unificadores fundamentais, Descartes tentou estabelecer essa Ordem através de uma divisão triangular da Unidade, cujos vértices eram Deus, o Mundo e o Homem, perdendo cada uma dessas entidades a sua essência significante quando considerada per si, separada das outras. Descartes não conferiu, na verdade, uma nova direcção ao pensamento humano, tendo-se limitado a sistematizar num método filosófico próprio, uma tendência que já se verificava desde a Renascença e da Reforma Protestante. Influenciando a estrutura conceptual da Ciência do século XVII, esta noção cartesiana de Natureza é a de uma máquina perfeita, dirigida por leis matemáticas exactas e imutáveis. Seria, contudo, Newton, nascido em 1642, quem viria a conferir realidade ao sonho do filósofo francês, completando a revolução científica que instituiria um modelo mecanicista e matemático da Natureza, sintetizando de forma completa as obras de Copérnico, Kepler, Bacon, Galileu e do próprio Descartes.

Hoje vivemos o apogeu do modelo cartesiano do mundo. Longe da gramática discreta da Physis grega, que nos ensinava a unidade primordial de tudo e nos integrava de modo harmonioso no conjunto infindo de fenómenos e movimentos vitais que toma o nome de Natureza.

Comments

  1. Esteves says:

    E mais nāo disse por se lhe ter acabado a tinta.

  2. Quem sabe SABE !!!

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