Peniche


Forte de Peniche, Portugal

Forte de Peniche, Portugal

 

Esta notícia do Observador dá conta de uma série de edifícios históricos que são ou vão ser concessionados a privados. Muita coisa se podia dizer em relação a este assunto. Podia dizer-se que se por um lado há formas de rentabilizar edifícios históricos que não incluem a transformação em hotéis ou restaurantes, por outro, na actual situação económica e até cultural do país, é inevitável que isso aconteça. E na realidade esta é uma forma fácil e rentável de aproveitar edifícios com excelente potencial e que estariam condenados ao abandonado e à degradação. Eu compreendo. Eu até concordo.

Em Oeiras por exemplo, o Palácio dos Arcos esteve abandonado durante anos e anos e agora é um hotel. O hotel não mudou a traça exterior do Palácio. De qualquer forma, o Palácio não é muito relevante historicamente – o máximo a que se pode arrogar é de que teria sido do Palácio que Dom Manuel teria visto as naus a partirem para a Índia. Bonito mas uma lenda. O caso do Palácio dos Arcos e a sua transformação em hotel é uma decisão acertada. O hotel veio dinamizar a região. Reformou e manteve um edifício pelo qual a autarquia nunca tinha mostrado interesse. E de facto, com todo o respeito pela memória histórica do Palácio dos Arcos, não se pode dizer que seja um marco importante da história de Portugal. Poderá sê-lo em termos de história local mas Oeiras tem outros grandes marcos como o próprio solar do Marquês.

A lista oferecida pelo Observador é muito discutível. A começar pela sua disparidade. É óbvio que um Mosteiro do século XII como o de Travanca tem um significado histórico superior ao Forte da Meia Praia no Algarve. O mesmo em relação ao Mosteiro de Santa-Clara-A-Nova e o Forte do Guincho.

Contudo, o que salta à vista é a inclusão do Forte de Peniche. Aparentemente, a secretária do Turismo achou que esta decisão não ia levantar polémica. Ora só por ingenuidade ou uma extraordinária dose de optimismo é que se podia achar que transformar o Forte de Peniche num hotel não ia criar celeuma. Para já porque a ideia é quase obscena. Transformar um local onde tão recentemente foram presas e torturadas pessoas num sítio de férias e de descontração é ridículo na melhor das hipóteses e de uma insensibilidade tremenda na pior. Estamos a falar de um local que tem não só um significado histórico muito importante mas também de uma realidade que está muito próxima de nós. Pessoas que foram lá presas ainda estão vivas. Não estamos a falar de uma prisão do século XIV. Estamos a falar de uma realidade que afectou pessoas que nos são muito próximas.

O problema da inclusão do Forte de Peniche não é só este. É possível argumentar que este tipo de decisão vai em linha com uma tentativa de branqueamento do regime fascista. Ou uma tentativa de branquear os indivíduos que lutaram contra o regime. Pode ser. Sabe Deus que tentativas tais existiram e existem. Ainda assim, penso que isto não é uma tentativa deliberada de branquear uma realidade mas sim a noção mais generalizada de que o que aconteceu em Peniche pertence a uma parte da História que simplesmente já não é relevante. Que já é tão distante como as Descobertas ou o que os monges faziam no século XIII. Esta noção é tão ou mais perigosa, precisamente por estar cheia de boas intenções. Eu tenho a certeza de que as pessoas que incluíram o forte de Peniche naquela lista não tinham por objectivo propagar a ideia de que o Estado Novo não foi assim tão mau e só se levava mesmo uns safanões. Tenho a certeza de que não há uma tentativa consciente de diminuir o sofrimento e a coragem daqueles que lá estiveram. O problema é a noção de que o Forte de Peniche pode deixar de ser o que é para passar a ser um local recreativo. Ou seja, a ideia por detrás desta inclusão é de que nós já estamos suficientemente afastados dessa realidade. A ideia do que o que aconteceu no Forte já é suficientemente irrelevante para o que somos hoje em dia e para o que fazemos como Nação e como cidadãos portugueses. Tanto que nos podemos dar ao luxo de dar o Forte, de o transformar num sítio menos pesado, menos carregado, mais normal, mais banal.

Mas nada do que aconteceu naquele forte é banal, normal ou afastado da nossa realidade. Muito pelo contrário. Portugal é uma democracia há 40 anos e 40 anos, historicamente, não é nada. Essa é só uma das muitas razões pelas quais manter o Forte como ele é hoje é infinitamente mais importante do que construir um hotel. Aliás, a necessidade de se manter o Forte advém precisamente de decisões deste género.  Precisamente como disse João Taborda da Gama no DN:

“É preciso poder ir ao forte, estar por lá, deambular nas celas, no recreio, sem bares de gin tónico nem massagens ayurvédicas, ouvir o vento, ouvir o mar, como ao menos ouviam os que lá estavam, e perceber, por fim, a irredutibilidade da liberdade. O que queremos do Estado é pouco, mas é muito, é que se limite a manter o colosso branco na sua mão, as portas abertas, as celas vazias.”

Comments

  1. Joe Baptista says:

    Absurda tal decisão. Ignorante e desrespeitosa ação se vier a concretizar. Combatam como combateram aqueles que ficaram lá detidos, para que hotel não venha acontecer.

    • Nascimento says:

      Se ” combaterem” como o ( não) fizeram na sede da PIDE em Lisboa atao adeus(museu?) Forte de Peniche😁.
      Aliás é muito bem feito.Passaram os anos em guerrinhas de merda a ver quem era mais “antifascista”! Do que é que se queixam?Ainda hoje é assim.A Pimentel(airosa) de um lado,o Rosas e o Loft do outro,o Ramos charlatão etc.Ao contrário de Espanha onde se Afirma com pujança a Memória Histórica! (vão ao Site deles e aprendam)
      aqui ?Nem pensar!Culpados?Muitos!A começar pelos professores (ignorantes) que lecionam a disciplina de História 😁!Nem levantam o cu da secretária 😈.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Pessoalmente não sou – nem quero ser – ingénuo ao ponto de pensar que a escolha do Forte de Peniche não tem a intenção de lixiviar a nossa história mais recente.
    Se assim não for, serei forçado a concluir que quem se pronunciou sobre a escolha para a utilização referida, é inculto e ignorante ao ponto de desconhecer do que se fala.
    Sou pelo aproveitamento e reconversão de estruturas que terminaram as suas funções. Mas sou de uma cidade onde se passaram factos fundamentais da História de Portugal e que não aparecem registados em estruturas visíveis. Procurem no Porto a História do Cerco e digam-me onde estão as evidências? E contudo o Cerco do Porto, é o momento que marca a entrada do Portugal moderno.
    Há museus a criar e o Forte de Peniche deveria ser, antes de mais, um hino e um Museu dedicado à Liberdade.
    Pelas figuras de políticos que por aí andam e que “mudaram de casaca” (da direita para a esquerda e vice-versa), hoje travestidos de democratas, não me custa nada acreditar que a escolha é mesmo uma lixiviação, como a verificada ainda há muito pouco tempo, quando ditos “democratas” quiseram lixiviar datas como o 1º de Dezembro e o 25 de Abril.

  3. Konigvs says:

    “Historicamente 40 anos não é nada”.
    Isso não é de todo verdade e os políticos sabem-no bem. O Cavaco por exemplo, que saiu do governo pela porta pequena com os buzinões do aumento das portagens na ponte e das manifestações das gravuras que não sabiam nadar. Concorreu de imediato às presidenciais e levou nas trompas dum presidente de câmara. Mas deixou-se estar caladinho durante dez anos, para depois já ser aclamado nas presidenciais, tendo sido o primeiro presidente da república eleito pela direita. A memória coletiva tem o quê? 5 anos? 3 anos? 1 ano? Meio ano? Não sei, mas certamente que não tem 40 anos, e certamente tem cada vez menos, dado o elevado consumo que as pessoas fazem de informação-lixo e o cérebro tem de fazer muitas vezes shif+delete para reter outra informação desnecessária qualquer.

    O que é que é o 25 de abril hoje para alguém que tenha 20 anos? Uma coisa qualquer com uns tipos com uns tanques da 2a guerra mundial, que fizeram um teatro qualquer e o Salazar caiu da cadeira – sim, na volta nem sabem que o homem já tinha morrido uns anos antes. E quem é Salazar para os jovens de hoje em dia? Vá perguntar numa qualquer porta da universidade. Aposto que lhe respondem que foi um político muito bom pois Portugal tinha as contas em dia. E não sei, parece que andaram para aí a fazer umas séries ou filmes, na volta dizem que foi um galã das novelas. A minha colega de trabalho anda a ler um livro do Orelhas-dos-Santos e diz que ele está sempre a elogiar o Salazar. Sabe quantos milhões o Orelhas já fez em venda de livros? Pois é.

    Quanto ao forte eu percebo a indignação, mas eu dou um exemplo que conheço de perto, e que também deve estar aí nessa lista dessa coisa desse órgão de propaganda social.
    Palácio do Freixo no Porto. Lembro-me bem de o ver decrépito, a cair aos pedaços, sendo albergue de sem abrigo ou drogados. Hoje é a Pousada de Portugal mais cara do país. Mas eu posso entrar lá dentro sempre que me apetecer, de máquina fotográfica para fotografar o que me apetecer. Estava melhor no monte de escombros que estava antes? Não estava.

    Isto é como a discussão se as nossas cidades estão a perder identidade com a explosão do turismo. Se eu gosto? Não, não gosto de ver todo aquele mar de gente no Porto, com os privados a comprar ruas inteiras, e depois sair nas notícias – como um de vocês aqui partilhou – que há uma imensa pobreza no Porto, pobreza essa que está escondida. Mas por outro lado, estaria melhor a cidade, a cair sobre si mesma, completamente deserta como estava antes, com ruas a cheirar a mijo, e onde só se viam putas e travestis?

    Isto quase nem pareço eu a falar, que por norma sou muito contundente, e pouco simpático com o grande capital, mas acho que também temos também algum equilíbrio. É preciso preservar a memória do que foi o fascismo e devemos preservar estes edifícios históricos? Claro que sim. Se fazer de um edifício onde pessoas foram torturadas um local de recreio é a melhor opção? Também me parece um pouco discutível, mas é tudo uma questão de avaliar bem as coisas. Quantas prisões de alta segurança ou menor segurança é que a PIDE teve? São todas para conservar? A discussão está-se a fazer neste momento isso é o mais importante, e extremar logo as posições também pode não ser bom.

  4. Carlos Ramos says:

    Vendam a alma ao diabo… que é para o que servem.

  5. fleitao says:

    Não estou de acordo com a autora do post. Acho inaceitável um hotel num lugar que devia ser um museu, um lugar onde os jovens pudessem ver o que nunca mais se quer ver repetido. Um povo que tem respeito por si mesmo guarda os valores e transmite-os. Não ajuda a limpar uma ditadura que brutalizou um povo durante 48 anos.

  6. JgMenos says:

    E se deixassem lá um cantinhobem aconchegado para as memórias heroicas dos agentes soviéticos e dos reviralhistas se perpetuarem na mediocridade decadente que o forte tem há muitas dezenas de anos e aproveitassem o resto para tirar a terra do marasmo piscatório?

  7. margaret says:

    Acho que nao e esconder ou branquear a historia mas sim fazer uso dela ao mesmo tempo que se melhora uma terra da se emprego, promove se a cultura chama se outros povos e mostra se o que se spfreu mas tambem o que temos para dar embelezar a regiao … nao e ter um edificio cheio de historia a cair aos bocados que se vai marcar a diferença mas algo em que o museu nao deixe de existir, a historia do local nao seja esquecida assim sim, estamos a priveligiar a nossa historia boa ou ma recente ou mais antiga

  8. Nascimento says:

    Quantas pessoas “trabalham” em Dachau?E em Neuengamme? E Bergen Belsen? E Ravensbruck?e e e e e e ….dá-me uma tesão tremenda de cada vez que abro a janela da suite e aprecio as grades de uma prisão!
    Há pessoas que de tão alarves mentais que são nem percebem que valia mais estarem caladas.QUANDO COMEÇAM A EQUIPARAR O IMPOSSIVEL DE COMPARAR!
    ó MArgaret vai-te catar!!! com que então “promove-se “a KOLTURA”!!!UI, que linda…a “koltura”!!foda-se….

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