A infância é uma doença


“Recentemente, um professor disse-me que quando olha para adolescentes que estão a ser medicados há anos com ritalina se lembra do que os electrochoques faziam aos internados no filme de Milos Forman, Voando sobre um Ninho de Cucos. É abusiva esta visão?”

Esta é uma das perguntas que a jornalista do Público, Clara Viana, faz ao bastonário da Ordem dos Psicólogos, numa entrevista de leitura obrigatória publicada hoje.

A Ritalina é uma das marcas comerciais do Metilfenidato, princípio activo da maioria dos medicamentos usados para “tratar” crianças com diagnóstico de Hiperactividade e Défice de Atenção. Foi precisamente a Ritalina que nos idos anos de 1969 e 1973 retirou o título de vencedor da Volta a Portugal em bicicleta a Joaquim Agostinho, pois era uma substância proibida em Portugal e foi detectada num controlo antidoping feito ao ciclista.

O Município de Vila Nova de Gaia terá sido a primeira instituição pública a chamar a atenção para o problema, tendo realizado já em Abril de 2015 um Colóquio que contou com a presença de um grande especialista nacional na matéria, o Doutor Jaime Milheiro, Psiquiatra, Psicanalista e ex-director do Departamento de Psiquiatria do Hospital Santos Silva. Esteve também presente um representante do Infarmed, autoridade pública a quem cabe a vigilância sobre os medicamentos em uso no nosso país. O meu colega “aventador” João Paulo Silva deu uma preciosa ajuda no envolvimento da população escolar, desde pais a professores, contributo muito útil e pelo qual lhe estou muito grato. Chegámos, aliás, a ter longas conversas sobre o tema e a procurar a melhor estratégia a adoptar para fazer chegar ao interior das escolas a discussão e, principalmente, o esclarecimento. Infelizmente sabemos que é um processo muito difícil, que envolve “questões políticas complexas” e, mais do que isso, pode responsabilizar fortemente várias entidades, públicas e privadas, envolvidas num negócio que movimenta largas somas de dinheiro. Porque, afinal, como dizia alguém, o mais difícil é sentá-los.

A verdade é que o tema já chegou à Assembleia da República, pois houve notícia de que o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda se interessou pelo assunto e solicitou informação ao governo. Surge agora esta entrevista no Público que contribuirá, certamente, para que pais, professores, médicos e responsáveis políticos se decidam a olhar para esta realidade com a seriedade e a determinação que exige a verdadeira catástrofe social em curso.

Comments

  1. Konigvs says:

    Ainda não sei como é que os veterinários não se lembraram de começarem a dizer aos donos de animais para diagnosticar hiperatividade nos animais de estimação. Sempre que vejo os cãozinhos dos vizinhos, a correr feitos desalmados rua acima e rua abaixo, ou como ainda vi à bocado um gato que deve ter dois meses, a trepar às videiras dos meus pais, penso logo que são hiperativos! Todos os animais de tenra idade (tal como as crianças claro) são todos hiperativos! Como é possível que a Natureza não tenha pensado nisso? Estou até em crer que as plantas jovens também são hiperativas!
    E estão a ser muito parvos, prescrever Ritalina nos animais de estimação era uma mina de ouro!
    “O seu cãozinho não pára quieto”? “O seu gato não pára de lhe dar cabo dos cortinados”? “O seu canário está cada vez mais amarelo”? São maus animais, têm hiperatividade! E ninguém gosta de ter animais de estimação irrequietos já viu? O que vão pensar as suas visitas? Dê-lhes um comprimidinho que eles ficam logo bem-comportadinhos como zombies.

    Inventar doenças é quase tão divertido como inventar impostos novos para os otários pagarem.

  2. Konigvs says:

    O que eu fui dizer… Se isto chega aos ouvidos do gaijo do PAN, no dia seguinte está na Assembleia da República a reivindicar que os animais também têm direito a tomar Ritalina!!!

  3. Luís Lavoura says:

    Isto é uma luta pela clientela entre os médicos psiquiatras e os psicólogos.
    Os psiquiatras prescrevem fármacos. Os psicólogos não os podem prescrever e querem ser eles a tratar as crianças (supostamente) hiperativas.
    Temos aqui o bastonário da Ordem dos Psicólogos, ou seja, o líder sindical dos psicólogos, a defender que o Estado ponha os psiquiatras a rédea curta, para que eles não possam prescrever tanto e para que os psicólogos tenham mais clientela…

  4. Afonso Valverde says:

    Esta questão da hiperatividade, do meu ponto de vista é uma não questão. Passo a explicar:
    – Os pais chegam a casa cansados e não têm paciência para as perguntas dos filhos e para a sua dinâmica física;
    – Os professores querem-nas sossegadinhas nas cadeiras e atentos às prelações;
    – Para “controlar as crianças “mais irrequietas” e por isso, inconvenientes, há a ritalina.
    Os Psicólogos percebem tanto disto (ensino-aprendizagem,)como eu de lagares de azeite.
    Os Psiquiatras têm autorização “assassinar” a irrequietude de crianças que usam apenas as suas capacidades de seres na fase adequada da vida.
    No fim há a oportunidade de negócio a contento dos pais e dos professores e do sistema que não tem tempo para “merdas” próprias das crianças.
    Poderem bem e olhem para as crianças como seres muito próprios e na certeza de que este mundo não lhes é favorável porque o estuporamos todo.
    Usem o bom-senso.
    Declaração de interesses: Tenho formação e competências em Educação (Infância), Ensino-Aprendizagem, Neurociências e Epidemiologia.

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