China, estratégias locais e globais


O Primeiro-Ministro, António Costa, encontra-se neste momento de visita oficial à República Popular da China. No encontro que este sábado, 8 de Outubro de 2016, manteve com o líder chinês Xi Jinping, António Costa agradeceu o “apoio decisivo” dado pela República Popular da China à candidatura de António Guterres ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas.
Segundo noticia a Rádio Renascença, este agradecimento do Primeiro-Ministro português foi o primeiro ponto do programa da visita oficial à China, durante o encontro com o Presidente da Assembleia Nacional Popular, Zhang Deijiang, e posteriormente reiterado ao Presidente chinês, Xi Jinping.

António Costa recebido pelo líder chinês, Xi Jinping

António Costa recebido pelo líder chinês, Xi Jinping

Em diplomacia e nas relações internacionais não há coincidências. Não é por isso um acaso que a República Popular da China seja o primeiro país que o Primeiro-Ministro de Portugal visita após ter a garantia de que António Guterres ocupará, como merece, o lugar de Secretário-Geral das Nações Unidas. Quem tenha estado atento ao processo de eleição, terá reparado que o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do governo chinês, reagindo a notícias falsas que davam conta do apoio da República Popular da China à búlgara Irina Bokova, emitiu uma declaração a 21 de Setembro de 2016, onde afirmou que “A ONU está a analisar as candidaturas e a China vai trabalhar com os outros países para assegurar que é o mais capaz a assumir o cargo”. Nesta altura já António Guterres tinha dissipado todas as dúvidas sobre quem era de facto “o mais capaz” e a declaração do governo chinês é uma nota discreta, como se impõe, mas muito clara sobre a escolha que a China já tinha feito.

António Guterres, o novo Secretário-Geral da ONU

António Guterres, o novo Secretário-Geral da ONU

As relações de Portugal com a República Popular da China têm cerca de quinhentos anos. Fomos dos primeiros europeus a estabelecer contacto directo com a mais poderosa civilização do oriente e temos, por isso, uma vasta experiência diplomática e um conhecimento muito profundo sobre as múltiplas realidades que fazem a China de hoje e, talvez mais importante, sobre as que foram fazendo a China milenar, cuja história é certamente das mais fascinantes e influentes de todo o percurso da civilização humana.
Foi esse sólido conhecimento mútuo, sustentado em cinco séculos de trocas e contactos aos mais diferentes níveis da Administração, da cultura, da economia, da informação, da religião e de muitos outros planos nos quais se estabelece a dinâmica das relações bilaterais, que levou o então Primeiro-Ministro chinês, Wen Jiabao, a declarar, em Dezembro de 2005, que a República Popular da China atribuía a Portugal o estatuto de “Parceiro Estratégico Global”, primazia até então apenas concedida, na Europa, ao Reino Unido, França, Alemanha e Espanha.

No passado dia 1 de Outubro de 2016 cumpriu-se o 67º Aniversário da República Popular da China, implantada no ano de 1949. Civilização milenar, a China é hoje uma potência global, mas a sua cultura e o seu modo de estar permanece um mistério para a maioria dos ocidentais. A gramática cultural e civilizacional chinesa não é fácil de compreender por quem não tenha tido a experiência directa e a vivência do território, da cultura e das gentes, uma vez que ela opera a partir de um paradigma filosófico totalmente estranho aos modelos ocidentais de pensamento e contempla noções de Forma, Tempo e Espaço que nos são totalmente estranhas.

O paciente e longo esforço de aprofundamento das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China faz-se a vários níveis da Administração e da sociedade, sendo fundamental que além dos necessários contactos estabelecidos ao mais alto nível, entre chefes de Estado e de Governo, se trabalhe também em patamares institucionais mais discretos, a uma escala mais próxima das populações e dos agentes locais, culturais ou económicos. É  de todo o interesse para o nosso país que, além das relações já solidificadas Estado a Estado, se procure criar laços ao nível do poder local, abrindo o diálogo necessário e mutuamente benéfico entre autarquias de ambos os países, criando confiança e conhecimento mútuo ao nível da administração local, trocando experiências e conhecimentos, gerando oportunidades de cooperação em diferentes planos das relações bilaterais, abrindo espaço a oportunidades concretas de realização à tal Parceria Estratégica anunciada em 2005 pelos altos responsáveis de ambos os países.

Foi com base nestes pressupostos que procurei, com a humildade das minhas capacidades e a exiguidade dos meios de que dispunha, contribuir para que Vila Nova de Gaia pudesse ter um lugar de destaque no cenário desta aliança centenária entre Portugal e a República Popular da China. Enquanto exerci funções na Câmara Municipal de Gaia, procurei realizar um trabalho diplomático discreto mas intenso junto dos representantes do Estado chinês, principalmente através da Embaixada em Portugal da República Popular da China, procurando criar laços de amizade que pudessem vir a resultar em benefício da população de Gaia, projectando a cidade e a autarquia para um patamar de relações internacionais próprio de um território com mais de trezentos mil habitantes e com um património cultural e económico digno de ser promovido nos palcos do mundo.

No ano de 2014 cumpriu-se o 35º Aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China. Foi por essa ocasião que levei a cabo a realização da Semana Cultural da China em Vila Nova de Gaia, um acontecimento marcante na história das relações culturais entre os dois países, que possibilitou à autarquia e aos cidadãos de Gaia um contacto raro com uma realidade cultural por muitos desconhecida e cujo potencial é enorme nos diferentes níveis da intervenção política autárquica.

Recepção a Liu Yunshan no aeroporto Francisco Sá Carneiro

Recebendo Liu Yunshan no aeroporto Francisco Sá Carneiro

A Semana Cultural da China em Vila Nova de Gaia mereceu uma grande atenção e apoio por parte do Governo Chinês, que fez deslocar à nossa cidade um dos seus sete mais importantes responsáveis políticos, membro do Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista Chinês, o Sr. Liu Yunshan (na imagem), principal responsável governamental pelas políticas culturais da República Popular da China e também presidente da Comissão Central para a construção da Civilização Espiritual do governo chinês.

O trabalho político e diplomático levado a cabo em Vila Nova de Gaia tinha como objectivo principal o fortalecimento das relações de amizade entre os dois países a um nível administrativo mais próximo dos cidadãos, o nível autárquico, servindo a Cultura como elemento catalizador dessa amizade, no pressuposto de que é através do conhecimento e do respeito recíproco que se firmam as alianças duradouras e se potencia o benefício mútuo que delas pode resultar.

Foram várias as actividades organizadas em Vila Nova de Gaia sob o patrocínio do Governo Chinês e da Embaixada da República Popular da China em Portugal, desde exposições a ciclos de cinema (Zhang Yimou, um dos maiores realizadores chineses da actualidade foi homenageado com um ciclo de cinco filmes da sua autoria, num acontecimento memorável levado ao público de Gaia em colaboração com a Escola Secundária Almeida Garrett), passando por concertos musicais e espectáculos de conceituadas companhias teatrais, designadamente os Acrobatas Hunan, uma especialidade pela qual os artistas chineses são conhecidos e que levou gratuitamente ao Pavilhão Municipal de Gaia cerca de quatro mil pessoas, entre crianças e respectivos pais, a quem foi proporcionada a oportunidade única de assistir a um momento artístico inesquecível.

Teve também lugar num dos espaços culturais mais importantes da cidade de Gaia, o Museu Teixeira Lopes, um dos momentos mais importantes deste conjunto de iniciativas, no qual estiveram presentes altos responsáveis do governo chinês e figuras institucionais representativas do Município de Gaia, bem como de instituições nacionais e internacionais às quais cabem responsabilidades acrescidas na promoção da amizade e no aprofundamento das relações diplomáticas entre os dois países. Na ocasião, coube ao representante do Município de Gaia ler o discurso de boas-vindas, palavras cujo sentido pretendeu declarar um compromisso público de cooperação em diferentes áreas de interesse público, como a Cultura, a Educação e a Saúde:

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O dirigente chinês, Liu Yunshan, com a então Presidente do Partido Socialista, Dra. Maria de Belém, e o Vereador com o Pelouro da Cultura da Câmara de Gaia, o Dr. Delfim Sousa, na Casa-Museu Teixeira Lopes

“É a Cultura, no seu mais profundo significado, que aqui nos reúne em celebração. Por isso organizámos em conjunto a Semana Cultural da China em Gaia. Queremos conhecer melhor esta civilização magnífica e milenar, que tanto deu à Humanidade. De Confúcio, o grande filósofo, a Zhen He, o grande navegante dos mares. Queremos conhecer a Língua, a Música e as outras Artes. Queremos saber mais da sua História e das suas Tradições. Queremos saber dos anseios do seu Povo e da sua Visão do mundo. Por isso, desde já proponho que se dê início ao trabalho de elaboração de um Protocolo de Colaboração entre a autarquia de Gaia e as autoridades da República Popular da China, nas áreas da Cultura, da Educação e da Economia, aberto a outros planos de cooperação e benefício mútuo, que venha, designadamente, a permitir às crianças das escolas de Gaia a aprendizagem da língua chinesa e da sua cultura, que promova as trocas culturais e comerciais, que estimule o intercâmbio dos nossos recursos, das nossas gentes, que reforce a presença da Medicina Tradicional Chinesa, nomeadamente a Acupunctura, nos nossos serviços de saúde.

Queremos também dar-nos a conhecer. Queremos dar a conhecer a nossa Língua e a nossa Música. O nosso Rio e o nosso Mar. A nossa Cidade e o nosso Campo. A nossa Gastronomia, as Tradições, as potencialidades turísticas e económicas, as oportunidades de investimento e negócio. O conhecimento mútuo trará a Amizade e a Amizade levará à Cooperação, ao esforço conjunto em torno de objectivos comuns, à partilha de experiências, saberes e realizações.

Estou certo que a Semana Cultural da China em Gaia será um grande sucesso e que muitos outros se seguirão, pois a relação entre os nossos dois países vem de muito longe e vai para muito longe.” 

Liu Yunshan, Dr. Albino Almeida, Presidente da Assembleia Municipal de Gaia, e a Dra. Maria de Belém

Liu Yunshan, Dr. Albino Almeida, Presidente da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, e a Dra. Maria de Belém, Presidente do Partido Socialista

Deste esforço diplomático, feito à escala local com meios humanos e materiais muito escassos, nasceu um conjunto muito significativo de contactos bilaterais entre instituições governamentais da República Popular da China e o Município de Gaia, envolvendo não só entidades ligadas à cultura e à educação, como a outros campos de igual importância estratégica, como é o caso da economia. Especial destaque merece, tendo em conta a tradição fortíssima existente em Gaia na área da Cerâmica e da Porcelana, o processo de Geminação iniciado com a cidade chinesa de Jingdezhen, talvez a mais importante do mundo na Arte da Porcelana, com a qual o Município de Vila Nova de Gaia assinou uma “Carta de Intenção” na qual se comprometeu a trabalhar no sentido de desenvolver as relações bilaterais ao nível da Cultura, da Educação e da Economia.

O trabalho que tive a honra de levar a cabo no Município de Vila Nova de Gaia em prol do fortalecimento das relações bilaterais com a República Popular da China teve o reconhecimento da própria comunidade chinesa em Portugal, representada na Liga dos Chineses, que distinguiu o presidente da Câmara de Gaia com um especial galardão pelo trabalho realizado pelo Município em prol das relações bilaterais, especialmente no âmbito da cultura. A cerimónia de entrega do prémio, realizada no Casino da Póvoa por ocasião do Ano Novo chinês, viria a ficar conhecida pela famosa frase de António Costa, actual Primeiro-Ministro, segundo o qual Portugal estaria numa situação ”bastante diferente daquela que estava há anos”, frase que viria a suscitar grande polémica na comunicação social e que foi aproveitada politicamente pelo governo de então.

Entrega do galardão ao presidente da Câmara de Gaia. Em baixo, à direita, o actual Primeiro-Ministro, António Costa, também presente na cerimónia

Entrega do galardão ao presidente da Câmara de Gaia. Em baixo, à direita, o actual Primeiro-Ministro, António Costa, também presente na cerimónia

As comemorações do 35º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China, organizadas pelo Município de Gaia, encerraram com chave de ouro, com uma conferência sobre o tema oferecida pelo Professor Adriano Moreira, que com a generosidade que o caracteriza acedeu ao convite que lhe enderecei para vir a Gaia partilhar a sua infinita experiência e a sua lúcida visão sobre um tema pelo qual tem especial predilecção.

Muitos contactos bilaterais foram sendo estabelecidos e muitos projectos de cooperação iniciados, envolvendo instituições públicas do Estado chinês e organizações privadas que trabalham igualmente no sentido de manter viva e forte esta relação de cinco séculos, como são exemplo o Governo da Província de Jiang Xi, a Associação para a Divulgação da Cultura e Medicina Tradicional Chinesa, o Congresso Popular de Anhui, o Comité de Negócios Estrangeiros da mesma Província, o Congresso Popular de Huoshan, a Associação de Jovens Empresários Portugal/China, a Federação para o Desenvolvimento Exterior da Juventude da China, o Banco da China, o Instituto Confúcio da Universidade do Aveiro, o Instituto Confúcio da Universidade do Minho, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, e a já mencionada Liga dos Chineses em Portugal.

O Professor Adriano Moreira proferindo a sua Conferência no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Vila Nova de Gaia

O Professor Adriano Moreira proferindo a sua Conferência no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Vila Nova de Gaia

Gaia e os seus cidadãos teriam todo o interesse na continuidade do esforço de aproximação realizado até aqui, embora, infelizmente, não seja de prever que tal venha a suceder, até porque ele exige uma ampla visão estratégica do papel das autarquias nas dinâmicas de cooperação internacional do nosso país e uma escala de acção política a que a maioria dos agentes do poder local não estão habituados.

Comments

  1. Esteves says:

    Jå agora, acrescente lá que ė uma ditadura de merda ou isso não interessa nada ?

  2. Afonso Valverde says:

    É verdade que é uma ditadura. Mas não conviria ponderar que isso é em primeiro lugar um problema dos chineses!?
    Depois, estabelecemos apenas relações diplomáticas com os regimes democráticos e deixamos de fora, segregamos todos os outros?
    A América é uma democracia e frequentemente mantém relações “estreitas” com regimes obscurantistas e ditatoriais, a saber, por exemplo, a Arábia Saudita.
    Eu não sou muito “apaixonado” pelos chineses, porque de facto têm um lógica imperialista, mas é um facto que as relações entre Portugal e a China são milenares e por vezes são opostas no que toca a interesses.
    A China combateu-nos em Angola, Moçambique, sobretudo.
    A China agora é nossa parceira económica. Se isso for bom para as duas economias, é positivo.
    Temos de ser mais pragmáticos.
    Claro estou curioso com as transformações que o crescimento está a produzir na sociedade chinesa, nomeadamente entre os trabalhadores. A ver vamos. A história é dinâmica e ainda não acabou.

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