Taxi Driver


Das redes sociais às televisões, passando pelas conversas de rua e de café, parece existir hoje um consenso muito amplo acerca da personalidade de Donald Trump, o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.

Talvez sentindo o perigo de uma eventual eleição de Trump, e querendo evitá-la, o mítico actor Robert De Niro gravou um vídeo onde profere um conjunto violento de insultos ao candidato, chamando-lhe, entre outras coisas, “cão”, “porco” e “vadio”. De Niro parece ter momentaneamente encarnado um dos seus muitos personagens sub-mundanos, que de forma tão sublime interpretou várias vezes ao longo de décadas, para fazer uma intervenção de natureza política, na pele de um cidadão como os outros.

FILM TITLE: Taxi Driver. STUDIO: Columbia Pictures. PLOT: Disrguntled war vet and cabbie Travis Bickle is a lonely man obsessed with pornography and violence. He longs to connect with a blonde goddess office worker, and to rescue/liberate a 12-year old prostitute named Iris from her predatory pimp. Both resist his efforts, and soon his frustration and alienation gives way to violence. PICTURED: MARTIN SCORSESE, ROBERT DE NIRO. (Credit Image: © Entertainment Pictures/Entertainment Pictures/ZUMAPRESS.com)

Credit Image: © Entertainment Pictures/Entertainment Pictures/ZUMAPRESS.com

Acontece que Robert De Niro não é um cidadão como os outros. É um actor extraordinário com notoriedade universal que, inevitavelmente, é admirado e tomado como exemplo por milhões de pessoas em todo o mundo. Independentemente das razões que tenha para atacar politicamente Donald Trump, e há muitas, De Niro tinha obrigação estrita e redobrada de o fazer de modo civilizado, de acordo com os padrões de urbanidade e respeito democrático que são a base dos próprios valores que parece defender a Constituição dos Estados Unidos da América. Estranhamente, ou talvez não, os seus insultos foram replicados pelas redes sociais como sinal e manifestação de assentimento e concordância com este modo inaceitável de defender a democracia e a liberdade de expressão. Isso diz tudo sobre o grau de degenerescência que atingiu a nossa ideia de cidadania e intervenção política.

Por outro lado, cá pelo nosso país, foram também reproduzidas abundantemente declarações de um taxista que, no contexto do protesto que o move contra a Uber, terá proferido para as câmeras de televisão palavras de natureza igualmente ignóbil, usando imagens e comparações degradantes, que nem o Taxi Driver de Scorcese, magistralmente interpretado pelo mesmo De Niro, seria capaz de usar. Acontece que este taxista português foi imediatamente, e bem, criticado por quase toda a gente e justamente condenado unanimemente pelo seu comportamento inqualificável.

Mas há aqui dois pesos e duas medidas na avaliação de ambas as situações. E só pode haver um peso e uma medida. Ambos os comportamentos são errados e estão ambos em desacordo com aquilo que deve ser o padrão do combate político sério e civilizado e ambos representam um risco sério de um regresso irreversível à barbárie e ao insanável confronto social.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O mundo chegou a um patamar de agressividade e de clivagem entre grupos sociais, que a breve trecho trará novos conflitos ideológicos. Eles nunca acabaram de facto, mas a sua fase mais aguda esbateu-se com a queda do império soviético. Trump não é um epifenomeno, mas o corolário de muitas frustrações das classes mais desfavorecidas e das classes mais abastadas da América. A classe média ainda é a que se mantém mais estável no plano racional e emocional. OS defensores do Brexit, a Sra Le Pen, o Viktor Örbain, e, muitos outros candidatos a ditadores são feitos da mesma massa do Sr. Trump.
    A globalização, que se presumia ser uma forma de diminuir o fosso entre fome e abastança, ricos e pobres, ignorantes e eruditos foi um fracasso.
    A globalização não assentou a sua génese na valorização da pessoa humana, mas sim na ganância de majorar o lucro.
    Imaginemos que nos chamados BRICS havia uma democracia real tal como ela existiu na Europa.
    Imaginemos que nesses países os movimentos sociais exigiam das entidades públicas e privadas o mesmo tratamento que os povos europeus têm dos seus governos, com eleições livres, referendos, partidos políticos, associações e sindicatos autônomos, não dependentes das estruturas governamentais.
    Será que curso da globalização tinha sido o mesmo?

    • Bruno Santos says:

      Caro Rui Naldinho, não sei se teria sido o mesmo, mas sempre houve modelos civilizacionais distintos. Essas distinções, do meu ponto de vista, resultam de factores diversos e demasiado complexos para poderem aqui ser analisados de forma esclarecida e esclarecedora. Mas a globalização não começou no século XX, mas há mais de 500 anos. Já nessa altura havia globalizadores que englobavam, ou seja, que viam o Outro como uma possibilidade de crescimento e expansão de si próprios. Mas havia também já os globalizadores que globalizavam, ou seja, que viam no Outro um mero instrumento da sua vocação dominadora. Repare que Portugal estabeleceu uma relação com esse Outro totalmente diferente da que estabeleceram outras potências marítimas, precisamente porque havia em “nós” uma missão “armilar”, de partilha e universalismo, não no sentido estritamente imperialista, mas de assimilação, de incorporação da diferença e da sua riqueza material e espiritual. É esse projecto que engloba e não globaliza que está a perder. Daí a importância de António Guterres na ONU.

      • Rui Naldinho says:

        Concordo inteiramente com o seu texto. Mas também nos é atribuído muito do nosso insucesso como país, e até como potência colonial dominadora, o facto de nao termos tido uma fúria globalizadora no passado como outros tiveram, cujo resultado está na força do império anglo saxónico ou hispânico comparativamente ao nosso. O que é a CPLP comparativamente a uma British Commonwealth of Nations?

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