O problema das Crianças Hiperactivas


O debate ocorrido hoje na Assembleia da República demonstrou uma vez mais a solidez da maioria parlamentar que apoia este governo e a coerência das políticas implementadas em contexto nacional e internacional de grande imprevisibilidade.

O governo do Partido Socialista mantém-se fiel aos compromissos assumidos com o eleitorado e com as forças políticas com as quais firmou posições conjuntas visando a inauguração de um novo ciclo na nossa vida colectiva.

A última intervenção do debate de hoje coube ao deputado André Silva, do Partido PAN, que dirigiu ao Primeiro-Ministro duas questões relevantes, a última das quais relativa ao consumo preocupante e crescente de Metilfenidato (Ritalina), por crianças portuguesas em idade escolar.

Este tema, acerca do qual se deverá liminarmente recusar qualquer tentativa de aproveitamento político ou demagogia perversa, reputa-se de importância decisiva, merecendo, sem dúvida, o destaque que o deputado André Silva decidiu dar-lhe, ao trazê-lo para o debate na Assembleia da República.

Em Abril de 2015 tomei a iniciativa de organizar em Vila Nova de Gaia um colóquio sobre “O problema das crianças hiperactivas”, para o qual convidei o Dr. Jaime Milheiro, médico Psiquiatra e Psicanalista, ex-Director do Departamento de Psiquiatria do Hospital Santos Silva e fundador do Centro de Saúde Mental de Vila Nova de Gaia.

O Dr. Jaime Milheiro (n. 1935) é autor de dezenas de artigos científicos e centenas de artigos de opinião publicados em revistas, livros colectivos e jornais. Publicou igualmente vários livros, entre os quais destacaria:

  • Loucos são os Outros. Ed. Fim de Século – Lisboa – 2ª Edição (1999)
  • Orofobias… Marias e outros Mistérios. Ed. Almedina – Coimbra (2000)
  • Sexualidade e Psicossomática. Ed. Almedina – Coimbra (2001)
  • Adão e Eva no Deserto. Ed. Climepsi – Lisboa (2005)
  • O Livro de Jonas. Ed. Fim de Século – Lisboa (2005)
  • A Invenção da Alma. Ed. Fim de Século – Lisboa (2012)

Foi agraciado com a Medalha de Ouro do Ministério da Saúde, a 7 de Abril de 2006 e com a medalha de Ouro do Município de Vila Nova de Gaia, a 28 de Junho de 2006, ambas inteiramente merecidas.

Por a achar de grande utilidade no esclarecimento das muitas dúvidas que hoje suscita a massiva prescrição de Metilfenidato a crianças em idade escolar, bem como o conceito de Escola a Tempo Inteiro (ETI), que hoje se encontra em implantação um pouco por todo o país, transcrevo a seguir, com a devida autorização, o texto da intervenção do Dr. Jaime Milheiro, proferida no colóquio de Vila Nova de Gaia, em Abril de 2015.

Os destaques a negrito são da minha responsabilidade.

 

 

UMA CRIANÇA A CRESCER
HIPERACTIVIDADE
por Jaime Milheiro, Médico Psiquiatra/Psicanalista

 

Sintomas

Hiperactivos são crianças irrequietas de forma compulsiva, com défices de atenção e dificuldades de concentração, embora esses défices possam existir sem hiperactividade, com excitação e agitação à vista.

Fala-se nesta altura duma prevalência de 6 a 8% em Portugal, com 60% de rapazes.

  • 60% têm problemas de leitura e de escrita
  • 40% têm condutas de oposição e desafio
  • 10% têm tiques e envolvem-se facilmente em acidentes, com urgências hospitalares repetidas.

Todas sofrem e provocam sofrimento pela impaciência, desadaptação e intolerância que accionam e pelas dificuldades de relacionamento que propiciam.

Todas apresentam ansiedade à flor da pele, curiosidade, inteligência e criatividade, muitas vezes acima da média, numa constante procura de novidade e aventura.

O seu número tem aumentado de forma manifesta, sobretudo em crianças nascidas por cesariana, segundo estudos americanos que falam de prejuízos na construção do sistema imunitário. Cerca de um terço transita para a idade adulta.

Compreender uma criança hiperactiva será ajudá-la a organizar-se por dentro e por fora, sobretudo através de palavras, afectos e orientações. Será tentar pensar causas e soluções, na interacção com elas.

Gritar, exaltar, bater, apenas momentaneamente encobre.

Lembraria que os fármacos que nas situações mais graves também se usam, não são sedativos: são estimulantes do sistema nervoso central.

 

Analisando

Logo numa primeira observação se percebe que défice de atenção e hiperactividade não são situações originárias. São consequências. Algo funciona mal naquela criança, expresso daquela forma na relação com os outros. A história natural do seu desenvolvimento encontra-se perturbada, sem vacinas nem brinquedos de suficiente recuperação.

(Lembraria que as árvores crescem sem que ninguém as puxe… não é preciso… e que crescem para cima, contra a força da gravidade, apenas necessitando que lhes respeitem as raízes e que não lhes envolvam o crescimento em ervas daninhas.

Lembraria também que não há ciência nenhuma no crescimento, seja conhecimento físico, psicológico, neurológico, emocional ou outro… há apenas a natureza a funcionar, num registo de satisfação/insatisfação e numa capacitação de resiliência/vulnerabilidade, inserido num clima ambiental… onde muita ciência até pode prejudicar).

O ser humano transporta no ADN as condições essenciais de crescimento, tal como as outras espécies. Modela essas condições e confere-lhe identidade na relação com os outros. Cada pessoa organiza o seu próprio aparelho de sentir, pensar e emocionar desde o primeiro dia,  desenrolando bem ou mal as fundamentações evolutivas que transporta nas situações em que vive.

Nos hiperactivos, há parcelas desse processo de organização e crescimento que parecem desfocadas.

A capacidade de representar mentalmente um objecto externo, a capacidade de simbolizar objectos e sons, a capacidade de adiar o desejo, parecem insuficientemente desenvolvidas, ajustadas e coordenadas. Eles mexem, remexem e repetem, parecendo atrofiados por bloqueios. Parecem incapazes de representar de novo, de simbolizar adequadamente, de adiar pacificamente, como quem não aprendeu o tempo necessário, ou  ainda não compreendeu as palavras necessárias para o fazer. Fragilizados em tais funcionalidades, resta-lhes agir a própria impossibilidade, movendo-se para não pensar ou por não poder pensar e falar o próprio pensamento. Transmitem-nos a ideia de se encontrarem avassalados por ruídos internos permanentes. Como se não fosse possível prestar atenção aos demais, incapacitados de silenciar ou interromper tais ruídos, será nessa área da formação interna do tempo e das palavras que terão de ser restabelecidos, por quem com eles possa falar e temporizar.

Donde virão esses ruídos… como se instalaram dentro de si?

Pode ter havido estimulações excessivas ou passividades demasiadas, com indefinições de papéis e repercussões expressivas.

Pode ter havido heroísmos projectivos dos pais e accionamentos desmedidos em vez de afectos e palavras, num prejuízo que lhes afecta as potencialidades elaborativas e lhes fomenta fugas para o movimento.

Pode ter havido regressos deliberados ao grunhido anterior às palavras e à satisfação imediata do desejo, sobretudo em pais de aluguer, à maneira de transmissões pessoais apenas tecnológicas.

Pode ter havido influências, ou até causas como muitos hoje pretendem, de problemáticas relativas ao cérebro e às neurociências, ou a situações inflamatórias crónicas dos intestinos provindas de alimentações desapropriadas (glúten). Cientistas de Harvard afincadamente defendem estas últimas.

A mim parece-me haver, sobretudo, problemas de relação não resolvidos, sendo as crianças hiperactivas um produto da forma como as pessoas se relacionam. Nesse registo terão de analisar-se e tratar-se. Serão, provavelmente, um preço daquilo a que chamamos civilização, embora os factores psicossociais não possam totalmente desconsiderar outras razões, genéticas incluídas.

 

Escala das necessidades humanas (A. Maslon)

  • Necessidades fisiológicas: comer, beber, respirar
  • Necessidades de segurança: corpo, saúde, bens, propriedade
  • Necessidade de afecto e identidade: amor, amizade, família, grupo
  • Necessidade de estima: dos outros e de si mesmo, confiança pessoal
  • Necessidade de realização:  trabalho, criativade interna e externa.
  • Saúde Mental

Numa criança a crescer, a Saúde Mental não é apenas um conjunto de manifestações movidas por circunstâncias médicas ou outras. É uma capacidade que se vai normalmente adquirindo. Uma tríplice capacidade de se relacionar consigo mesma, com os outros e com a vida circundante, num processo em que basta faltar uma parcela para dúvidas surgirem, ansiedades se avolumarem e descompensações acontecerem.

Ninguém nasce com Saúde Mental, tal como ninguém nasce com doença mental. À nascença, apenas se transportam elementos informes. Nascidos prematuros, por completo dependentes de quem os agasalhe, os seres humanos obrigam-se desde bebé a interiorizar as vicissitudes da sua relação com pais, professores, ídolos e outros adultos significativos, disso fazendo os seus grandes pontos de identificação. Nesse movimento instalam as suas faces boas e más, os seus modelos e princípios, as suas gratificações e frustrações, absorvendo-as numa complexidade que os vai orientar toda a  vida.

É nesse ambiente relacional que a Saúde Mental se vive e muitas vezes se atrofia e derrama as respectivas ansiedades para comportamentos ou para doenças do corpo.

Num trajecto normal, a criança tendencialmente sedimenta três condições psicológicas fundamentais: sentimentos de autonomia, sentimentos de responsabilidade e consciência de si.

Outras aquisições, como capacidade de decisões e de escolha, por exemplo, sentidos de justeza e de justiça, respeito pelos outros, tolerância à frustração, aceitação da diferença, ausência de vitimização, possibilidade de estar só, nesses pilares se enraízam, formatando o conjunto que presidirá a todas as suas sensibilidades e julgamentos, a todos os seus equilíbrios e desequilíbrios.

Sempre instável, mais frágil ou resiliente conforme a coesão e a coerência, esse equilíbrio também dependerá da dimensão invasiva das circunstâncias e da sua eventual ressonância, pelo que a Saúde Mental nunca será um edifício cujas virtudes e defeitos possam ser apresentadas em geometrias ou números. É na pessoa, no caminho que ela vai construindo, que o futuro duma criança a crescer terá de mirar-se, observar-se e dialogar-se, não através de injecção de medicamentos ou de artifícios ocasionais.

Quanto mais mascarado for processo, quanto maior for o grau de mentira em que a criança se construa, mais vulnerável será. Máscaras e ausências arquitectam cenários em que as palavras e conceitos perdem sentido e finalidade, agravando a situação. O mesmo de passa se forem falseadas as chamadas relações de poder.

Lembraria, por exemplo, que muitos adultos utilizam palavras como afecto, dignidade, confiança, segurança, solidariedade e outras, sem dizerem coisa nenhuma e sem sequer lhe cuidarem do significado. Ou como exigem sacrifícios apenas aos outros disso fazendo esplendorosa escola, nos sistemas informativos que temos.

 

Ensino: em casa: na escola

Em minha opinião, da mesma maneira que se ensinam suportes básico de saúde (socorrismo, respiração assistida, postura nos acidentes, caminhos de sobrevivência) deveriam ensinar-se suportes básicos de Saúde Mental, na escola e em casa.

Deveria ensinar-se aquilo que se calhar toda a gente sabe mas esquece, no sentido de prevenir ou contrariar inúmeros malefícios, assepsias e ostentações que recaiem sobre quem não tem culpa nenhuma e que apenas servem para compensar fragilidades dos adultos.

Nas actuais vivências relacionais, diminuídas muitas das antigas diferenças económicas, sociais e culturais, alterados muitos dos valores religiosos, éticos e morais, desmoronadas muitas hierarquias, por entre enormes colheitas e indesmentíveis benefícios proporcionaram-se graves desmesuras.

No imediatismo expansivo que tudo tornou normal e normalizado, projectos, compras, dívidas, viagens, acessos, romarias, deixaram-se embalar por uma total incapacidade de distinguir o essencial do secundário, transformando muitos cidadãos em quase “sem abrigo” mentais.

Excluíram-se condições mínimas da Saúde Mental, confundiram-se democracias exteriores com organizações interiores, impuseram-se às segundas as regras da primeira, num absoluto sem sentido. Simulam-se aproximações que afastam as pessoas mais ainda, confiscando-lhes muitas vezes as próprias identidades. É nesse clima que a hiperactividade se cultiva.

O não cumprimento do tempo necessário para “digerir” um estímulo, antes que outro se considere, promove acumulações tensionais e sofrimentos  a que depois chamamos hiperactividade, falta de atenção, stress, cansaço, depressão e afins.

Mas a cultura parece interessada em demonstrar que a relação entre as pessoas não passa duma descarga química ou medicamentosa (uma descarga “neurocientífica”), apenas  sujeita a ponteiros e clicagens como se fossemos automóveis ou computadores.

Em todos esses imediatismos há uma acentuada discrepância entre o que se  promete e o que se dá, numa pavorosa falência da possibilidade de sonho e numa enorme surdez sobre as perturbações geradas na criança.

Perante uma criança hiperactiva cada um terá de observar, observando-se. Terá de procurar ler e decifrar, lendo-se e decifrando-se. Terá de cuidar das suas próprias capacidades de simbolização e de adiamento, das suas palavras e afectos, das relações e das trocas, da parte que lhe falta cumprir.

Antes de procurar silenciá-la em medicamentos, deverá pensar onde ela está e onde mora, cogitando o seu próprio contributo para o que verdadeiramente acontece. Pensar na pedagogia e na auto-pedagogia, mesmo sabendo que, lá fora, a grande maioria está pouco interessada em mudar seja o que fôr.

 

COLÓQUIO:
“O PROBLEMA DAS CRIANÇAS HIPERACTIVAS”
CONVENTO CORPUS CHRISTI em GAIA
18/4/2015
Jaime Milheiro
(Psiquiatra-Psicanalista)

Comments

  1. Omniscious says:

    O diagnóstico de PHDA é feito geralmente com base nos critérios do DSM-5, um manual de doenças mentais desenvolvimento pela Associação Americana de Psiquiatria (AAP) e actualizado periodiamente. O DSM-5 tem problemas muitas vezes ignorados pela comunidade médica, mas relativamente ao qual tem havido uma consciencialização crescente e são os seguintes:
    1.1) o enorme conflito de interesses entre o grupo de autores do DSM-5 e a indústria farmacêutica, mais concretamente 69% dos membros da task force tinham ligações à indústria, não se garantindo assim a integridade e o não enviesamento dos critérios relativos a esta e muitas outras doenças. (1)
    1.2) Os critérios de declaração de conflitos de interesses estabelecidos AAP para a elaboração do documento, não abrangem todo o tipo de remuneração concedido pela indústria (1)
    2) Uma outra questão tem a ver com as limitações em termos de validação científica dos critérios de diagnóstico DSM-5. Os critérios de diagnóstico foram criados numa base empírica por especialistas nas respectivas doenças, mas carecem de validação científica indiscutível. A validação é de difícil execução em doenças mentais, pois exigiria um exame, chamado de padrão de referência, que nos permitiria demonstrar inequivocamente o processo fisiopatológico inerente à doença. Os critérios clínicos seriam então cruzados com esse padrão de referência para proceder à sua validação. O diagnóstico realizado apenas baseado em sinais e sintomas poderá ter um desempenho diagnóstico subóptimo e umas das consequência é a possibilidade de falsos positivos (2)

    Referências: (1) Cosgrove L, Krimsky S (2012) A Comparison of DSM-IV and DSM-5 Panel Members’ Financial Associations with Industry: A Pernicious Problem Persists. PLoS Med 9(3): e1001190. http://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371%2Fjournal.pmed.1001190
    (2) Poland, JS. (2001) Review of Volume 1 of DSM-IV sourcebook http://metapsychology.mentalhelp.net/poc/view_doc.php?type=book&id=557

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