Blade Runner


O Reitor da Universidade de Coimbra defende que as máquinas deveriam pagar impostos. João Gabriel Silva afirmou, num encontro que teve lugar na cidade de Coimbra e que contou com a presença do ministro Vieira da Silva, que existe, do ponto de vista fiscal, “uma enorme motivação económica para a substituição de pessoas por máquinas, o que coloca os seres humanos numa desvantagem fiscal brutal”.

Esta é a Academia que eu gostaria de ver manifestar-se mais vezes. A que traz ao debate público as questões que, de tão óbvias, passam em silêncio, sem reflexão e sem existência. O Reitor da Universidade de Coimbra obrigou o ministro Vieira da Silva a afirmar também o óbvio, ou seja, que as empresas já se encontram sobrecarregadas do ponto de vista fiscal e que taxar a tecnologia seria “dificultar o progresso”.

Tenho simpatia pelo ministro Vieira da Silva e admiração pela sua competência, mas devo lembrar que a ideia de Progresso, pelo menos aquela que resulta dos movimentos Humanistas da História nos quais, em grande medida, se funda o próprio corpo ideológico e filosófico do Partido Socialista, tem como razão de existência o Ser Humano, e não a Máquina. É certo que muito dificilmente o ministro Vieira da Silva, tendo em conta as funções que ocupa, poderia afirmar outra coisa, tal é a força do dogma que entre nós se instalou sobre a primazia da Máquina. Mais ainda quando terá sido o próprio Humanismo a produzir esse dogma e a cimentá-lo na cultura e na consciência.

É esta, contudo, a fronteira do nosso Tempo.

Comments

  1. Penso que o gráfico seguinte explica por que motivo existe “uma enorme motivação económica para a substituição de pessoas por máquinas”:

    Tirado daqui. O exemplo é americano mas, penso eu, aplicável em todo o lado.

    Daqui se entende que, talvez, seja mais correcto pensarmos em modelos económicos mais justos para a repartição dos ganhos de produtividade (que em grande parte são obtidos pela utilização de máquinas), em vez de tentarmos passar esses ganhos para o estado (via impostos).

    Notar que esta repartição se pode fazer de muitas formas, maiores salários, menores horários de trabalho (criando assim emprego), rendimento básico universal, etc.

  2. Rui Silva says:

    Bem, um pais com intelectuais como estes não pode aspirar a mais que a mediocridade.
    Um professor doutor resume o seu pensamento numa tirada desta. Ou seja , + impostos.
    Será que não lhe passou pela cabeça que a máquina por mais simples que seja contribui mais para o Humanismo que um professor doutor que ao fim de uma carreira académica , chega a uma conclusão destas?
    A Humanização do trabalho deve-se principalmente ás máquinas , e aos inventores que lhes deram origem, evidentemente. E se isto é verdade, ao dificultar-mos a aquisição e uso de mais maquinaria, isso será um movimento anti-Humanista.
    O Helder Guerreiro confirma isso com o gráfico que postou acima. Mas eu queria dizer-lhe que a conclusão que tira não está correcta. Pois considera apenas como retribuição a “compensação horária”, esquecendo-se que o aumento de produtividade é também, uma compensação, via abaixamento de preços que se lhe segue. Ou seja a curva do aumento da produtividade significa também um aumento da qualidade de vida por acesso a mais bens por menos custo.

    Rui Silva

    • Nightwish says:

      Estamos à espera do abaixamento de custo do tecto, transporte, electricidade e comida, mas tudo o que temos são telefones mais brilhantes e menos interoperáveis.

      • Rui Silva says:

        OMS avisa que Portugal é dos países europeus com mais excesso de peso infantil
        (Cláudia Bancaleiro – Publico)
        25/02/2014

        A obesidade infantil é um problema sério para a saúde das crianças
        155 milhões de crianças em idade escolar no mundo têm excesso de peso ou são obesas.
        (Associação Portuguesa contra a Obesidade Infantil).

        Eurostat:
        Em Portugal há cada vez mais proprietários, em vez de inquilinos. No ano passado, quase 75% da população nacional habitava em casa própria, quando a média da União Europeia (UE) é de 70,1%, mostram os dados mais recentes do Eurostat. A satisfação dos portugueses quanto à sua casa é, no entanto, inferior à generalidade dos países.

        PorData:

        Consumo Elect.per Capita em 1994: 2777 Kwh
        Consumo Elect.per Capita em 2014: 4440 Kwh

        Como pode ver apesar de não haver abaixamento as pessoas tem mais, cqd.

        Rui Silva

        • Nightwish says:

          O excesso de peso não tem a ver com comer bem, muito pelo contrário, é por comer mal para poder comer à pressa e barato.
          Quanto ao resto, tem razão, não há cada vez mais portugueses a sofrer privação de bens essenciais, a passar fome, a comer menos refeições, é tudo imaginação.

    • joão lopes says:

      o que tu precisas é de uma maquina de …humanização.tu e o pedro mota soares ainda não se lembraram de privatizar a igreja catolica e nacionalizar a coca cola,porquê?

    • Sim, tem razão, o aumento de produtividade tb se pode reflectir em melhores preços. Infelizmente esse factor apenas explica em parte a estagnação dos salários paralelo a uma progressão quase linear da produtividade.

  3. O que o professor de Coimbra disse é que devem haver compensações fiscais. No limite as máquinas devem pagar imposto. O grande problema é o financiamento da segurança social (SS). As máquinas não pagam TSU. O financiamento da SS está baseado numa lógica per capita. Cada trabalhador contribui com 34,75% do seu salário (11%+23,75). Substituindo trabalhadores por máquinas eliminamos essas fontes de financiamento da SS. A solução só pode ser a mudança de modelo de financiamento. Em vez de se tributar exclusivamente o trabalho numa lógica per capita, deve substituir-se a contribuição dita das empresas (23,75%) pela taxação do Valor Acrescentado Líquido (VAL). Existem estudos que concluem que uma taxa de 8% sobre o VAL recolheria mais fundos do que a actual TSU. E teria outras óbvias vantagens: além de eliminar o problema das “máquinas”, introduziria mais justiça entre as empresas fazendo com que as mais capital e tecnologicamente intensivas, e também muito mais produtivas, pagassem mais do que as de mão de obra intensiva. Precisamente o inverso do que acontece agora em que as empresas que mais postos de trabalho criam são prejudicadas em relação às que usam mais tecnologia.

  4. Alexandre Mota says:

    O Reitor da UC dizer o que disse diz muito sobre o estado a que chegou a academia, em particular a de Coimbra. Ler no Aventar a defesa do que ele disse diz muito sobre a nível do blog. Nota1: peço desculpa por ter enviado isto por email, o carteiro foi despedido e o pombo é exploração animal, enfim, somos uma sociedade condenada à maldição das máquinas. Nota2: Se o autor do artigo e o magnífico reitor quiserem refrescar as ideias podem googlar “Economia numa lição” de Henry Hazlitt, grátis em pdf traduzido para português do Brasil. Esse livro dedica-se a destruir uma por uma as principais falácias económicas. Uma delas é a “maldição da maquinaria”. Ide lá ler e desempoeirar essas cabecinhas xuxalistas. Boas leituras!

  5. Emanuel Lopes says:

    Tem máquina de lavar roupa em casa? Máquina de lavar louça, fogão, forno, bimby, frigorífico? Já viu os empregos que destruiu ao utilizar essas máquinas? Portanto, vai ter que pagar uma taxa para poder ter esses utensílios em casa, como compensação pelo desemprego de empregadas domésticas, lavadeiras do rio e homens da lenha.

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