Canis Major


Canis Major

Canis Major

 

O Cão é um animal extraordinário e com um apurado sentido prático da vida. Ele veio vindo das estepes e das montanhas, Lobo ainda, lutando tenazmente pela sobrevivência, buscando os lugares que melhor a garantiriam pela caça, pela fuga aos predadores e pela reprodução segura da espécie. Vivia uma vida de perigos e sacrifícios, mas era razoavelmente livre.

Um dia cheirou-lhe a estufado, fez um referendo na matilha e deitou-se no sofá da sala. A lealdade e a sabedoria que por vezes oferece a quem o acolheu suplantam, talvez, a humilhação de ter sido um dos primeiros animais a vender a sua própria independência e a deixar-se seduzir pelo modelo global de aburguesamento.

Hoje vai à escola, tem médico de família, alimenta-se na prateleira gourmet do supermercado. Suplantou em quase todos os domínios a qualidade de vida da maioria dos seres humanos, a quem conquistou o subconsciente desnutrido, através de técnicas milenares de persuasão e da exploração de fragilidades emocionais (des)estruturantes no Sapiens Sapiens.

A idolatria de que hoje é objecto não resulta apenas de um processo de transferência da libido ou da simples manifestação de um remorso, de uma má consciência, por parte de quem já não suporta o seu Semelhante, nem se revê na sua própria espécie. A idolatria canina foi convenientemente integrada nas estruturas sociais, políticas e económicas, constituindo hoje uma indústria poderosa e um comércio emocional com expressiva tradução capitalista. À queda acentuada da natalidade não será também estranha esta ascensão do Canis Major a um estatuto social que o ridiculariza, muitas vezes o humilha na sua dignidade animal, mas lhe confere os privilégios do mais refinado sedentarismo e um estatuto social que ultrapassa muitas vezes o do próprio Sapiens Sapiens.

Comments

  1. Houve iinspiração dada pela pratica do Peixoto no blog Camara coroporativa ?

  2. Andreia Faria says:

    Os cães não ‘decidiram’ ser domesticados e geneticamente modificados pelos homens. Os cães, em ambientes urbanos, estão à mercê de muitos riscos, são o elo mais fraco de uma cadeia infernal criada e sustentada por nós, humanos. Muitos são abandonados e maltratados, muitos mais do que aqueles que são mimados. É nossa responsabilidade tomar conta dos animais das nossas cidades. É uma responsabilidade da comunidade.
    Todo o afecto é capitalizado: dos pais pelos filhos, dos casais entre si, agora entre os cães e os seus companheiros. Porque é que a amizade incondicional entre pessoas e animais é tão escrutinada, enxovalhada, vista como sucedâneo de relações humanas frustradas? Não pode ser vista como algo íntimo, privado, singular, como é cada relação entre dois seres? É necessariamente um desvio misantropo?
    Quase se podia garantir que os maiores misantropos estão muito bem rodeados de gente, mesmo que de forma instrumental, e que nem sequer ligam muito a animais.

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