A minha última viagem ao Trindade


Fui ver a Última viagem de Lenine ao teatro Trindade, posta em cena pelo grupo, Não Matem o Mensageiro. No fim, na sessão de perguntas e respostas com o escritor da peça, o actor único (um brilhante André Levy) e membros da companhia acima referida, foi dito que todo o teatro é político mas esta companhia, ao menos, assume-se. Gostei desta abordagem precisamente pela honestidade. O debate do que pode ou não ser político, quais as formas de arte mais ou menos politizadas, qual a definição de política em si, é extenso e não muito importante para este texto em particular.

O teatro, contudo, é sem dúvida uma das formas de arte mais verdadeiramente políticas que existem. Pela própria ideia de representação e do que ela implica, pelo elo que se cria entre o público e os actores, pelos artifícios literários e gestuais usados.

Estamos em 2016, a precisamente um ano de uma daquelas grandes efemérides da História, a Revolução de Outubro. Seria importante e saudável que houvesse um debate adulto e responsável sobre os acontecimentos revolucionários, sobre o que significou a revolução de Outubro, sobre Lenine e as restantes personagens históricas que o rodeavam. Em qualquer debate deve-se ouvir os vários pontos de vista. Esta peça apresenta um ponto de vista, uma interpretação de Lenine, baseada numa minuciosa pesquisa de factos, com cartas citadas literalmente, com episódios reais a serem mencionados ou retratados. É evidente que há uma grande margem para discordar do ponto de vista e da interpretação, tal como a pessoa lê Gramsci ou Jorge Luís Borges e não tem de acreditar ou apoiar tudo o que lê. Mas não é por isso que não se deve ver ou alimentar este tipo de peças, que se assumem engagés,  em defesa de uma posição.  É ridículo que tenhamos chegado a um tal ponto de absolutismo sectário misturado com alguma indiferença que não consigamos apreciar as complexidades da História, o que ela tem para nos oferecer e que se continue a perder as oportunidades para pensar, pensar a sério, sem falácias e generalizações.

A peça é assumidamente brilhante. André Levy é extraordinário num registo dificílimo, o do monólogo. O texto está muito bom. A quarta parede é ignorada com um recurso apropriado ao humor. Do ponto de vista artístico, está praticamente perfeita. Do ponto de vista político, meus amigos, não dá para fazer spoiler. É ir ver.

Comments

  1. A.Silva says:

    Muito bom espectáculo, de refinado humor🙂

  2. Notar que a Revolução de Outubro… foi em Novembro:
    E refiro-o porque a revelação da conversão da Rússia aconteceu… antes da desconversão!
    É apenas uma nota de rodapé que me ocorreu.
    Obrigado pelos magníficos textos

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s