Ópio


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No século XIX, os Ingleses recorreram a uma arma terrível para consolidarem o seu poder e a sua hegemonia comercial na Ásia: a droga.

A China faz há milénios uso das plantas pelas suas características medicinais e são inúmeros os tratados sobre a Fitoterapia, o principal dos quais, o Shen Nong Ben Cao Jing (Clássico de Agricultura e Materia Medica) foi compilado durante o período da Dinastia Han do Este (25 d.C.-220 d.C.). Os autores desses tratados fazem normalmente a inventariação das plantas, atribuindo-lhes nome, modos de preparação, propriedades curativas e abordam também as suas contra-indicações, os modos de conservação e substituições possíveis.
O Ópio é conhecido na China desde a época da Dinastia Tang (618-907) e é usado, principalmente, para fins medicinais. É efectuada a sua extracção do bulbo da Papoila, onde se encontra o sumo da planta contendo numerosos alcalóides.

No século XVII, cerca de 1620, os habitantes da Ilha Formosa começaram a misturar Ópio com tabaco para o utilizarem como droga. É nesta altura, e em associação com o tabaco, que se desenvolve o hábito de fumar Ópio através de um cachimbo. É também nesta altura que os portugueses entram no negócio, usando as suas bases de Damão e Goa, de onde provinha a droga.
A partir do início do século XIX, os Ingleses tentam vender na China os seus produtos têxteis e comprar matérias primas baratas. Adquirem aos chineses quantidades enormes de chá, seda, lacas e porcelana, mas nada possuem de valor semelhante para dar em troca, pelo menos nada que desperte o interesse da China, pelo que a sua balança comercial se desequilibra drasticamente e os cofres públicos sofrem uma erosão perigosa.

É então que se voltam para o tráfico de droga.

A Papolila é cultivada em Bengala, em Bihar e em Malwa, regiões da Índia que se encontravam sob o domínio britânico. A partir de 1773, os Ingleses conquistam o monopólio do comércio de Ópio na China e brevemente vão inundar o mercado com esta droga dura.

A Companhia da Índias Orientais, fundada em 1600, decide organizar o tráfico de Ópio de forma sistemática, constituindo, no século XIX, a principal fonte de comércio entre a Índia britânica e a China.
A distribuição local da droga é inicialmente entregue a comerciantes chineses e representantes corruptos do Imperador de Cantão, mas a partir dos anos 30 do século XIX, os Ingleses chamam a si o controlo total do tráfico e passam a vender a droga directamente, através dos portos do Norte. Nesta altura, entre 1820 e 1825, só o porto de Cantão recebia mais de 5.000 caixas de 65 quilos de Ópio por ano; 13.000 entre os anos de 1826 e 1828; entre 30.000 e 40.000 nos anos 30.

É assim que criminosos, piratas e contrabandistas entram em cena e organizam-se redes complexas que ganham influência económica e política na China, estabelecendo-se grandes cumplicidades entre traficantes, passadores e funcionários corruptos do governo imperial. Ainda hoje, a corrupção é uma das preocupações fundamentais do governo chinês, actuando o seu sistema judicial de modo particularmente severo para com os prevaricadores, principalmente se fizerem parte do corpo de funcionários do Estado e do Governo. No século XIX, a corrupção alimentada pelo Ópio não parou de se espalhar no círculo do próprio Imperador, criando uma instabilidade política e social insuportável, o que obrigou a própria população das províncias, composta principalmente por camponeses, a organizar milícias de combate ao tráfico dos Ingleses. Em 1841, os habitantes da pequena aldeia de Sanyuanli, perto de Cantão, fizeram frente a soldados britânicos, num incidente militar que ficou a marcar a história da Guerra do Ópio e da resistência chinesa à violenta agressão estrangeira. Essa agressão conseguiu, contudo, dizimar a China por dentro, passando a determinar a sua própria política externa do princípio do século XIX, quando lhe foram impostos tratados internacionais humilhantes e desiguais, com cláusulas vergonhosas e atentatórias da sua dignidade ancestral.

O governo imperial multiplicou as proibições relativas ao Ópio, mas as importações em massa da droga já haviam desequilibrado definitivamente a balança comercial. Por outro lado, a droga provocou uma dependência física total, com efeitos devastadores entre a população. Determinou um grave declínio no mundo intelectual, sendo traficada principalmente junto da classe letrada e funcionários do império. O Ópio incita a inacção e empurra os seus consumidores para a ruína material e psicológica , transformando os funcionários, guardiões de uma administração milenar, em verdadeiras marionetas ao serviço dos Ingleses.

Em 1830 havia cerca de 12,5 milhões de tóxico-dependentes na China.

Em Junho de 1839, em Cantão, o enviado extraordinário do Imperador, Lin Zexu, manda apreender e queimar 20.000 caixas de droga, após o que é dada ordem aos Ingleses para abandonarem a China. Era uma tentativa desesperada de resistência contra uma força mil vezes mais poderosa do que a sua. Os Ingleses ignoraram as ordens do Imperador e como represália multiplicaram os actos de pirataria nas costas chinesas. Bombardeiam Cantão e atacam as guarnições de Zhejiang (Rio das Pérolas), avançando pelo continente até Nanquim.

O Tratado de Nanquim é assinado em Agosto de 1842 e, embora ponha termo provisório ao conflito, é verdadeiramente desastroso e humilhante para a China. O Império compromete-se a pagar à Inglaterra uma avultada indemnização pela droga queimada, cede-lhe a ilha de Hong Kong e aceita a abertura dos seus portos ao comércio britânico, incluindo o do Ópio. Renuncia ainda a conceder monopólios comerciais aos próprios chineses, deixando a Inglaterra sem rival no comércio em toda a China. Além disso, este tratado contém uma cláusula segundo a qual a Inglaterra é a nação mais favorecida da China e deve beneficiar de privilégios especiais, além de todas as vantagens concedidas aos outros países. Os Ingleses não podem ser julgados por tribunais chineses, residem em bairros próprios, administrados por si e sem qualquer intervenção do governo. A Guerra do Ópio é a primeira intervenção europeia na soberania da China e marca de forma indelével a visão chinesa da modernidade e a sua ulterior estratégia nacional e internacional de afirmação.

Comments

  1. E querem manter-se intocáveis e superiores nos seus direitos, incluindo vassalagens. Serão piores ou iguais aos alemães????

  2. Rui Naldinho says:

    Boa colheita!
    Uma aulinha de História sabe sempre bem!

  3. anónimo says:

    Esse tratado entre a Inglaterra e a China, faz lembrar o CETA.

    • Nightwish says:

      Qualquer semelhança entre a colonização e a globalização é pura verdade.

    • Rui Silva says:

      Caro anónimo , excelente comparação.
      Este é um óptimo exemplo de como as decisões centralizadas de proteccionismo e o fecho de fronteiras ao comercio é responsável e podem determinar ou melhor dizendo condenar todo um povo ao atraso, miséria e fome.
      A dinastia Ming fechou a china ao mundo (uma espécie de recusa de CETA’s e outros , daquele tempo). Por essa época também as elites apoiaram essa estratégia porque evidentemente pensavam que isso seria o melhor para o povo.

      Não foi !

      Veja-se por exemplo no final do Sec. XVIII ( a china era já um país profundamente atrasado) a resposta que o Imperador Qianlong deu ao “embaixador “ comercial inglês Conde Macartney quando este lhe ofereceu telescópios , bombas de ar, teodolitos, ilustradores de princípios científicos, um planetário entre outras maravilhas da técnica desse tempo.

      “O Imperador manda dizer a Jorge III , que não faltava nada aos chineses, nunca demos importância a objectos estranhos ou engenhosos e não precisamos de nenhuma das manufacturas vossas.”

      E como é que o Império do Meio se transformou no Império Medíocre, depois de nas duas primeiras décadas do Sec. XV sob a orientação do Imperador Yongle, Zheng He ter navegado até é costa ocidental de África, cerca de setenta anos antes do nosso Vasco da Gama e em embarcações muito maiores que as nossas posteriores caravelas?
      Após a morte do Imperador Yongle o(s) seu(s) sucessor(es) proibiram as viagens marítimos ( o decreto “Haijin” previa a pena de morte para quem fosse apanhado a construir barcos com mais de 1 mastro ) e decretou o fecho da China sobre si mesmo , transformando assim a China num pais atrasado,
      Nada interessava aos chineses do ocidente foi “decidido “ , não era o que realmente o cidadão pensava.
      Os defensores do isolamento através das barreiras comerciais deviam aprender com a história.

      Rui SIlva

  4. Um excelente momento de História. Obrigado, Nuno Santos

  5. Nightwish says:

  6. A.Silva says:

    Muito bom recordar estes abominável crime cometido pelos ingleses com o apoio dos EUA há pouco mais de um século.

    Ainda os governantes desses países têm a lata de vir falar em direitos humanos, quando ainda não foram capazes de pedir desculpa ao povo chinês por este hediondo crime.

  7. Excelente!!! Vou levar…

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