Balaústre apócrifo


balaustrada

“Não vai assim há tanto tempo que as nossas cidades eram verdadeiras estrumeiras a céu aberto. Havia o bizarro costume de despejar nas ruas, muitas vezes lançando-a da janela ou da varanda, toda a espécie de porcaria, espalhando por todo o lado um odor nauseabundo, fazendo do espaço público uma gigante latrina, caldo de pestes e outras maleitas antigas.
É, contudo, da natureza humana, rapidamente habituar-se à sujidade e até fazer dela um modo de vida, pelo que depressa deixa de estranhar o cheiro a estrebaria e mais depressa ainda faz dele o seu bafo natural. Quanto mais se espalhar o esterco – julgarão -, menos se notará a sua pestilência, como tão bem fará notar o poeta no seu futuro slogan:

– Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Tão fundo calou a alegria de viver na sujidade, que ainda hoje há quem se disponha a espalhar não só a sua como a alheia, julgando, enganados, que assim melhor cheirarão ambas ao nariz do vedor. E é olhá-los, radiantes a chafurdar, lentes do Mondego e pedreiros do Minho. Burros de Santa Eulália de estrela do norte ao peito, ou alquimistas de sub-cave inchados de gases raros e devoção de seita.

Cuidam que a sua missão no mundo é fazer dele uma grande cloaca, a qual erguerão como um templo sobre cujo altar se verá o Olho cego e solitário a que rezam, e através do qual se contemplam no espelho cósmico.
Pois ficai em paz, que ainda assim Deus ama-vos como filhos pródigos e velará pela vossa Alma.

Mas ao menos lavai-vos.”

 

Durban, Ano de 1903 
Charles James Search
(perdido do espólio)

 

Ilustração: Bruno Santos

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Fernando Pessoa terá sido o autor destes textos.
    Ao lê-los, vem-me logo à memória livros e filmes da minha infância. De Charles Dickens, com Oliver Twist, aos Miseráveis, de Vítor Hugo.
    Pessoa explora bem o quotidiano das nossas urbes, na transição dos séculos XIX para o XX.
    A minha dúvida é se ele terá escrito isto em Durban, ainda tão jovem?

    • Alberto Cagueiro says:

      Quem pensa e escreve assim com 15 anos, só pode ser um génio. E F.Pessoa foi um génio desde cedo, e viveu em Durban no ano de 1993. Não há coincidências.

      • Rui Naldinho says:

        Nao dúvido.
        Mas não terá sido em 1893?
        É que em 1993 já tínhamos o José Saramago a estorvar o Cavaco, e os seus assessores culturais.

    • José Peralta says:

      “Não vai assim há tanto tempo que as nossas cidades eram verdadeiras estrumeiras a céu aberto. Havia o bizarro costume de despejar nas ruas, muitas vezes lançando-a da janela ou da varanda, toda a espécie de porcaria, espalhando por todo o lado um odor nauseabundo, fazendo do espaço público uma gigante latrina, caldo de pestes e outras maleitas antigas”.

      Esta descrição, parece-me a da Lisboa da 1.ª metade do Século XX !

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