É só fumaça


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É verdade que somos todos uns grandes democratas, desde que toda a gente pense como nós. Esse é um princípio básico em qualquer tirania que se preze e uma característica que vem definindo a actuação de alguns fazedores de opinião e de responsáveis políticos cá da finisterra. Mesmo depois de a democracia americana ter eleito Donald Trump de forma aparentemente regular, continuam a abundar os insultos à sua figura e aos que nele votaram, naquilo que parece ser a manifestação de um sentimento de superioridade moral, assente não se sabe bem em quê.

Há já quem diga que foram os iletrados que elegeram Trump, os machistas, esclavagistas e racistas, todos sem curso superior. Será bom, contudo, não esquecer que o racismo dos racistas não é muito diferente do racismo dos que passam a vida a acusar os outros de ser racistas, equação que Nietzsche tão bem resolveu com a parábola do abismo:

“Quem tem que enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo para dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar para dentro de ti.”

Houve milhares de internautas cheios de amor à liberdade, à tolerância e à democracia, amigos dos cães e grandes mártires da luta contra a tirania, o preconceito, a homofobia, o racismo e a escravatura, todos com estátua prometida na Praça da Liberdade, que espalharam pelas redes digitais um vídeo muito profissional do actor Robert De Niro – o melhor actor de todos – contendo um conjunto expressivo de impropérios dirigidos a Donald Trump, tratado de porco a vadio, qualificativos que o grande Noodles do Once upon a time in America – o melhor filme de todos – teve agora que engolir, sem mastigar.

A verdade é que os russos são maus porque têm comunistas e canhões muito grandes na praça vermelha. Os chineses porque são amarelos e costumam enforcar dissidentes políticos. Os árabes são maus porque andam de burka e com bombas à cintura, desde a escola primária. Os africanos porque são pretos, usam catana para descascar kiwis e desconhecem a Democracia. Os venezuelanos porque se matam à fome em nome de uma ideologia. Os argentinos porque não pagam as dívidas por orgulho estúpido e até o seu génio cego foi roubado a Moncorvo. Os líbios porque fazem embaixadas em tendas. Os sírios porque ousam ter um médico como Presidente. Os afegãos porque se drogam com a heroína que nós lá plantámos. E por aí adiante. Aliás, se há coisa que se salva no mundo – e que salvará o mundo –  somos nós. E é claramente isso que ainda nos permite dormir o sono infinito dos justos.

 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Muito Bom, Bruno Santos
    Quem sabe, sabe!

    • Nascimento says:

      Cá está este ranhoso de direita a assinar como Nascimento….pena que os “donos” deste blogue permitam a duplicidade de nomes. Uma VERGONHA.

  2. motta says:

    Excelente!
    Sem mais comentários.

  3. Mas será a democracia apenas processo ou é também conteúdo? Se quem é eleito mostra sinais preocupantes que anunciam um desrespeito por aspectos fundamentais da tal democracia, concedo, há que esperar e esperar o melhor. São apenas sinais. Mas é preciso ficar atento. E, mesmo assim, fica o desconforto da possibilidade de, pouco a pouco, estarmos a normalizar comportamentos perigosos. A constituição portuguesa, por exemplo, admite que o cidadão recorra à desobediência e até à força contra a autoridade se vir os direitos fundamentais a ser violados. Acredito neste direito mas temo que no dia longínquo que isso seja necessário estejamos completamente anestesiados e incapazes de ver essa violação de direitos. Hoje é possível eleger e legitimar alguém que sugere a morte da adversária e incita ao racismo e sexismo. Passado este degrau, o que se segue? A possibilidade de poder ser “apenas” conversa de balneário para ganhar eleitores não convence. Vale tudo para olear o processo dito democrático? Por isso, lamento, não acho o seu texto excelente mas preocupante.

    • Rui Naldinho says:

      Bruno Santos não pôs nada disso em causa.
      O que ele coloca em causa são todas as teorias subjetivas, algumas mesmo conspirativas, que esquecem uma verdade nua e crua:
      Trump foi eleito pelos Norte Americanos. Ele ganhou as eleições em mais Estados, logo tendo mais delegados deverá ser o novo Presidente.
      Até ao momento, essa é a única verdade incontornável.
      Já alguém se questionou a razão por que 58 milhões de eleitores votaram naquele homem?
      Serão todos racistas, sexistas, xenófobos, islamofóbicos, homofóbicos, ricos, liberais, nacionalistas?
      Ou haverá razões muito mais profundas para se chegar aqui?Talvez fosse bom analisa-las primeiro, e só depois tirarmos algumas conclusões.

    • Bruno Santos says:

      Obrigado.
      O Artigo 21º é um mecanismo de auto-destruição do Estado e tem, na Constituição, uma função eminentemente simbólica. O Estado define-se, precisamente, por ser a entidade que detém o monopólio da violência legítima (M. Weber), pelo que a legitimação da violência contra o Estado é a sua negação.
      Quanto ao resto, o Sistema na base do qual estão organizadas as nossas sociedades, admite e contém soluções como Donald Trump. Agora, por que motivo Donald Trump causa mais escândalo do que o empresário dos chocolates que foi colocado na Presidência da Ucrânia, é assunto a estudar.

      • teste says:

        parece-me simples de ver que a influencia mundial dos estados unidos é sei lá 100, 1000 vezes maior que a da ucrânia?

  4. Concordo, Robert de Niro o actor melhor de todos.

  5. pvnam says:

    TRUMP – uma vitória da liberdade de expressão contra aqueles que já se consideram os Donos Disto Tudo (DDT’s) – a alta finança (capital global).
    .
    Um case-study para a história: a forma como as marionetas da alta finança (capital global) fizeram a campanha anti-Trump.
    .
    NOTA A NÃO ESQUECER: aqueles que já se consideram os Donos Disto Tudo (DDT’s) – a alta finança (capital global) -… estão apostados em dividir/dissolver as Nações… terraplanar as Identidades… para assim melhor estabelecerem a Nova Ordem Mundial: uma nova ordem a seguir ao caos – uma ordem mercenária (um Neofeudalismo).
    .
    .
    A construção de ‘pontes’ dos Hilários Clinton: NEGAR O DIREITO DE PROSPERAR AO SEU RITMO!
    Para os Hilários Clinton a sobrevivência de Identidades Autóctones é uma coisa que prejudica os mercados… mais, para os Hilários Clinton, quando um povo nativo economicamente pouco rentável é teimoso (isto é, ambiciona prosperar ao seu ritmo, isto é, ambiciona ter o SEU espaço no planeta)… deve levar com um Holocausto Massivo em cima!
    [nota: existem muitos Hilários Clinton a viver em territórios de povos nativos que foram alvo de um Holocausto Massivo]
    .
    .
    .
    Todos diferentes, todos iguais… isto é: todas as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta (nota: inclusive as de pouco rendimento demográfico… inclusive as economicamente pouco rentáveis).
    Os ‘globalization-lovers’, UE-lovers e afins… que fiquem na sua… desde que respeitem os Direitos dos outros… e vice-versa.
    Pelo legítimo Direito à Sobrevivência das Identidades Autóctones:
    http://separatismo–50–50.blogspot.com/
    {O primeiro passo será/é ir divulgando a ideia de SEPARATISMO-50 nos países aonde a população nativa está sendo submergida pelo crescimento demográfico imparável dos não-nativos naturalizados}

  6. Rui Silva says:

    Caro Bruno Santos,

    Continue assim e será considerado um perigoso neo-liberal.

    Rui Silva

  7. joão lopes says:

    a maioria silenciosa que deu a vitoria a trump,tem 4 anos para justificar o seu voto,por exemplo tem 4 anos para justificar a construção do muro(a não ser que o trump seja como o passos coelho ,e rasgue as promessas feitas durante a campanha,que foram devidamente filmadas e gravadas)

  8. teste says:

    claro que os american os têm o direito de escolher o trump, da mesma forma que os alemães tinha o direito de escolher a merkel porque a sua visão do mundo e em particular da europa os beneficiava circunstancialmente.
    e nós temos todos o direito de os insultar. nada a ver com o processo democrático atenção. tudo a ver com as motivações para votar como votaram, já que essas são basicamente nojentas e um grande pirete ao resto do mundo. há que dizê-lo com frontalidade.

  9. teste says:

    a historia da carochinha de que trump era anti-sistema, relembrada ali mais pra cima, deve ficar devidamente enterrada agora que se conhece a sua equipa de transição e ela é constituida na sua maioria por lobbyistas. ah, e pela familia directa dele…

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