Esoterismo e Política


© Bruno Santos

© Bruno Santos

Pacheco Pereira deu nota recente da sua preocupação com o estado actual do PSD, referindo que as direcções distritais do partido estariam todas entregues à Maçonaria. É possível que esse fenómeno não seja um exclusivo do seu partido, uma vez que se verifica uma disseminação muito ampla de membros do GOL e da GLRP por diferentes patamares do poder, seja público ou privado, desde as autarquias ao governo central, passando por múltiplos outros sectores, instituições e orgãos de soberania. Este texto pretende enquadrar com simplicidade o fenómeno do ponto de vista histórico e permitir uma leitura mais rigorosa e prática daquilo que verdadeiramente pode estar em causa, quer no quadro estritamente político, quer num âmbito mais alargado, ao qual não é alheio o esforço continuado de conquista, distribuição e exercício do poder.

O que aqui se escreve está muito longe de esgotar um assunto profundo, central na condução dos destinos de uma boa parte do mundo, mas julgo poder ajudar na compreensão de alguns fenómenos que vão ficando pela sombra, apesar da sua determinante influência na vida de todos nós. Não é uma posição fechada, nem imune ao erro ou à crítica, antes resultando de um esforço de pesquisa e reflexão sobre estruturas invisíveis que sustentam formas animadas – e tantas vezes ilusórias – que dão corpo ao nosso morno quotidiano de espectadores do mundo. E seus instrumentos.

Sabemos que existiram, ao longo dos tempos, certos homens e mulheres cuja acção foi determinante no processo de evolução das civilizações. Alguns deles exerceram com enorme poder a sua influência sobre o destino da Humanidade e destacaram-se de tal maneira, que talvez não seja possível entendê-los senão à luz de uma sabedoria superior. É verdade que, por exemplo, existem no mundo inteiro milhares de praticantes profissionais de futebol, muitos de excelente qualidade, mas é sabido que pouquíssimos são os que se aproximam do génio de Cristiano Ronaldo. Há milhares de pianistas, e também muitos de qualidade superior, mas são raros os que se aproximam da grandeza de Bach, Chopin, Mozart ou de Beethoven. A natureza humana, sendo igual em dignidade, é diversa nos talentos inatos e nas circunstâncias em que cada um é conduzido e se conduz pela estrada do seu destino e da sua liberdade.

Alguns autores dedicados ao estudo de uma História menos visível de algumas civilizações, chamam aos que, por um motivo ou outro, alcançaram patamares de desenvolvimento extraordinários, os Grandes Iniciados. Edouard Schuré (1841-1929), por exemplo, um filósofo francês que viveu durante o final do século XIX e o início do século XX, nomeia, no livro em que tenta descrever uma certa história das religiões, aqueles que considerou mais importantes: Rama, no ciclo ariano. Críxena, na Índia bramânica. Hermes, nos mistérios egípcios. Moisés, na missão de Israel. Orfeu, nos mistérios dionisíacos. Pitágoras, nos mistérios de Delfos. Platão, nos mistérios de Elêusis. Finalmente Jesus, na missão de Cristo.

 

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A República dos Filósofos

A República dos Filósofos, também conhecida por Liga de Crotona, foi dirigida pelos mestres da Confraria Pitagórica, uma sociedade secreta fundada por Pitágoras de Samos (c. 570 – c. 495 a.n.e.). Depois de ter controlado durante cerca de 50 anos os destinos políticos de uma grande parte da Sicília e da Itália do Sul, a Liga de Crotona viu o seu poder desmoronar-se na sequência de uma revolta popular violenta, que provocou não só o massacre de um número muito significativo de membros da Sociedade Pitagórica, mas também uma espiral de destruição que assolou as cidades de Crotona e de Metaponto, ambas situadas no extremo sul da actual Itália.

Aristóxenes de Tarento (séc. IV a.n.e.), discípulo de Aristóteles, fixou a data da chegada de Pitágoras à cidade de Crotona no ano 529 a.C., teria o filósofo, na altura, cerca de 40 anos. Este foi um período em que se assistiu ao aparecimento de outras figuras determinantes na história da Filosofia e das Religiões, em pontos geográficos distintos, como Lao Tsé (c.650 a.n.e.- 531 a.n.e.), Siddhartha Gautama (c.563 a.n.e. – c.483 a.n.e.), Tales de Mileto (c.623 a.n.e. – c. 558 a.n.e.) ou Confúcio (551 a.n.e. – 479 a.n.e.).

Os antigos gregos consideravam que a idade próxima dos quarenta anos era o momento em que o homem atingia o grau de preparação necessário a um verdadeiro estudo da Filosofia. O sucesso do ensino de Pitágoras na Calábria e posteriormente na Sicília foi de tal modo significativo, que o número de discípulos que o seguiam cresceu rapidamente, transformando-se gradualmente numa comunidade de grande influência social, política e filosófica.

Nicómaco de Gerasa (c.60-120) e Jâmblico (c.245-c.325) mencionam um grande discurso público de Pitágoras, com um fortíssimo impacto na comunidade, que veio a resultar na constituição de uma sociedade secreta cujos membros, entregues à meditação sobre uma nova filosofiamais antiga, contudo, do que a própria ideia de filosofia – se propunham realizar os seus princípios fundadores através da Gnose e do Amor, da Harmonia Interior e do respeito pela Grande Harmonia.

A Gnose, assente no conhecimento das Leis do Número e da Geometria, era tida como a única via de acesso à Iniciação, ou seja, a uma espécie de libertação da consciência – ou do Espírito, se quisermos –  para outros planos da vida e do Conhecimento sobre as suas leis. É essa, aliás, uma característica que distingue a Gnose Pitagórica de outros dogmas ou éticas fundadas na Harmonia. Uma frase de Heráclito Éfeso (c.540-c.470 a.n.e.), transmitida por Clemente de Alexandria (c.150-215), dá-nos conta que “Pitágoras considerava que a Bondade Suprema residia na contemplação da Harmonia dos ritmos do Universo.”

A Confraria Pitagórica atraiu, como certamente era o seu propósito, a curiosidade dos espíritos ávidos de ciência e adquiriu rapidamente uma preponderância que viria a transformar-se em verdadeiro poder político, quase absoluto, sobre uma significativa parte da Grande Grécia. Esse poder materializou-se na criação da chamada Liga Crotoniana e, segundo alguns autores, chegou mesmo a representar uma forma de Fascismo Esotérico, sendo constituída por três categorias de membros:

  • os Filósofos Contemplativos (os Geómetras e Matemáticos);
  • os Nomotetas (aqueles que dentre os filósofos tinham a seu cargo a actividade social e política da Confraria e que davam instruções à terceira categoria):
  • os Políticos (ainda não chegados à pureza perfeita) que funcionavam como agentes executivos e de ligação aos diferentes sectores da sociedade:

Para que se faça uma breve ideia sobre a exigência ritual da Confraria Pitagórica, sublinhe-se que um noviciado de três anos, tido como uma espécie de estágio exotérico, precedia a admissão ao primeiro grau de Iniciação.

Depois da morte de Pitágoras, que terá acontecido entre os anos 510 e 480 a.n.e., uma grande revolução demagógica tomou, uma após outra, todas as cidades da Confederação de Crotona e derrubou do poder a sociedade pitagórica. Os principais líderes da confraria foram massacrados na grande revolta de Metaponto, ocorrida no ano 450, tendo apenas dois deles conseguido salvar-se: Lísis de Tarento (???-c.390 a.n.e.) e Filolau de Crotona (c.470-c.385 a.n.e.).

A partir destes acontecimentos a Confraria Pitagórica manteve-se como sociedade iniciática, mas abandonou toda a actividade política, sendo a única excepção Arquitas de Tarento (428-347 a.n.e.), discípulo de Filolau, que foi eleito governador da sua cidade sete vezes consecutivas. Filolau, por sua vez, dedicou-se ao ensino da filosofia e das matemáticas, apesar dos protestos e mesmo da excomunhão a que foi sujeito pelos discípulos de Pitágoras que permaneceram fiéis ao juramento de segredo prestado. A sua actividade fez com que a doutrina metafísica e matemática da confraria pitagórica continuasse a penetrar o domínio público e foi nela que, em boa medida, Platão fundou o seu lugar na História. A acção levada a cabo por Arquitas de Tarento teve, também, uma importância decisiva. Além da prosperidade e do respeito que granjeou enquanto Regente e Sete vezes Generalíssimo, os seus ensinamentos científicos exerceram uma forte influência sobre Platão desde a sua primeira viagem à Grande Grécia, nomeadamente a teoria da Analogia e das Proporções. Recordemos que o ideal político platónico é justamente uma República dirigida por Filósofos e Geómetras tal como foi expresso pelo próprio quando escreveu: Assim me vejo forçado a declarar que dado o actual estado das coisas, a Humanidade não poderá ser salva da sua miséria a não ser que os filósofos cheguem ao governo do Estado ou, com a ajuda de Deus, os governantes sejam iniciados na Filosofia…

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Dirigiu-se também, ainda que sem sucesso, a Dionísio O Jovem, tirano de Siracusa do século IV a.C., confessando-lhe numa carta que Toda a nossa esperança repousa sobre essa tentativa de conquistar para a Filosofia a soberania de uma grande cidade. Ser-me-ia suficiente um só adepto jovem para vos conduzir para sempre no caminho da vitória… e mais do que tudo acredito que se tivesse ficado onde estava (em vez de regressar à Sicília para tentar convencer Dionísio), teria de considerar-me a mim próprio um homem limitado à bondade do pensamento, mas que havia recuado e desistido perante o esforço de o transformar em acção…

A ambição de Platão não se realizou e o assassinato de Dion (408 a.n.e.-354 a.n.e.), seu aluno e amigo íntimo, no momento em que se preparava para assumir o poder em Siracusa, fez com que abandonasse definitivamente o sonho de ver politicamente materializada a sua filosofia e mergulhasse irreversivelmente no domínio do pensamento puro.

De qualquer forma, o pitagorismo entrou numa segunda fase, subterrânea e de influência social, protagonizada por pequenas comunidades espalhadas pela Itália do sul, depois de ter prosseguido a sua existência iniciática durante cerca de dois séculos, muitas vezes fundido com seitas órficas locais. Acaba por penetrar na aristocracia republicana de Roma e influenciar o desenvolvimento das suas instituições, de tal forma que, em meados do século I a.n.e. suscitou a desconfiança e desaprovação do poder central. Nessa altura, o senador Publius Nigidius Figulus (c.98-45 a.n.e.), amigo de Cícero (106-43 a.n.e.), constituiu não só um círculo académico, mas uma verdadeira loja pitagórica com fins políticos, na sequência do que foi exilado por Júlio César. Simultaneamente, por causa também das suas influências políticas consideradas nefastas pelo poder estabelecido, foram suprimidas quase todas as corporações de artesãos, que viriam mais tarde a ser conhecidas como os Collegia Fabrorum e que estão na origem das corporações mais influentes da Idade Média, nomeadamente as de Pedreiros Livres.

Melencolia I (B. 74; M., HOLL. 75) *engraving  *24 x 18.8 cm *1514

Melancolia I, Albrecht Durer

De todo o modo, a desconfiança dos poderes públicos relativamente aos pitagóricos não se devia propriamente à sua doutrina, mas antes ao secretismo que presidia às suas reuniões. E essa desconfiança prosseguiu e até se acentuou com os primeiros imperadores, como o testemunha a expulsão dos Magos e Matemáticos pelo Senado no ano 52, bem como a contínua severidade das autoridades imperiais para com os colégios de artesãos. Para se perceber a verdadeira dimensão desta hostilidade e os seus fundamentos, note-se que a polícia imperial considerava o início do Cristianismo como uma acção política subversiva fomentada por sociedades secretas judaicas. E arrisco-me a dizer, aliás, com a devida humildade, que o Cristianismo jamais foi um projecto pessoal de Jesus, mas antes pelo contrário, veio de facto a representar muito do que ele se esforçou por combater.

Não existem detalhes precisos sobre a existência de lojas pitagóricas de vocação política em Roma após o século I. No entanto, a fobia às sociedades secretas foi desaparecendo gradualmente e tanto as aventuras religiosas como os chamados mistérios estariam na moda mais do que nunca. As corporações puderam, tanto no Ocidente como em Bizâncio, transmitir entre si com toda a tranquilidade os rituais iniciáticos de influência órfica, eleusina ou pitagórica, e a adopção ou sobreposição de novos patronos, como os Quatro Santos Coroados da Maçonaria, conferir-lhes-á a aparência cristã, a partir dessa altura indispensável.

Após a regulamentação oficial instituída em França, já na Idade Média, sobre corporações de artesãos cujos membros fossem submetidos a juramento, essas sociedades passam a dedicar-se em exclusivo, pelo menos aparentemente, aos seus próprios interesses profissionais, e mesmo a extraordinária Bauhütte, uma poderosa federação de Lojas do Sacro Império Romano-Germânico, consagrará a sua acção à formação profissional, à supervisão técnica do trabalho levado a cabo por Arquitectos, Mestres de Obras e Companheiros que compuseram as verdadeiras sinfonias de pedra erguidas pela Europa, à glória do Grande Arquitecto do Universo. O simbolismo do seu trabalho encontra-se bem descrito, por exemplo, na obra extraordinária do alquimista francês Fulcanelli (1839-1923), O Mistério das Catedrais.

Mas o fundamental a reter é que os rituais dessas sociedades, bem como a Geometria na qual a sua tradição se fundava, transmitiram-se ininterruptamente até à Renascença e daí até ao momento da história em que confluíram com movimento Rosa-Cruz. Foi então que os construtores de catedrais se transformam em construtores de sistemas sociais.

No entanto, antes de se abordar esse momento decisivo na evolução das chamadas sociedade secretas, mencionemos duas importantes tentativas de colocar uma organização humana fundada no segredo absoluto e na disciplina ritual, ao serviço de uma ideia, de um sistema, ou de uma ambição política e religiosa: a Ordem dos Templários e a Sociedade de Jesus.

 

A Ordem do Templo

A Ordem do Templo, fundada em 1118 em Jerusalém por Hugo de Payens (c.1070-1136) e mais oito cavaleiros, deve o seu nome oficial, Pauperes Commilitones Christi Templique Salomonici, ao facto de a sua primeira sede – tal, aliás, como anteriormente o local onde se reuniam os Silenciosos, também conhecidos por Essénios, grupo no qual terá sido educado Jesus da Nazaré – ter sido um edifício contíguo ao antigo Templo de Salomão. Balduino II (????-1131), Rei de Jerusalém, ceder-lhes-á parte do seu palácio construído junto do Santo Sepulcro.

É conhecido o rápido crescimento do poder militar, financeiro, e político da Milícia de Cristo (Os Templários) que, no início do século XIV possuía cerca de 9000 castelos, templos extraterritoriais em todas as capitais da cristandade, e que graças à sua riqueza material se transformou também numa espécie de Banco Internacional, recebendo depósitos, concedendo créditos, contratando empréstimos com grande parte dos soberanos desse tempo. Até que um Rei e um Papa decidiram unir-se para os exterminar.

Foi numa sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307, que os templários de França foram presos sob ordem de Filipe o Belo, (1268-1314), e com a aprovação do Papa Clemente V, nascido Bertrand de Gouth (1264-1314) começou o processo que terminaria a 18 de Março de 1314 com o suplício de Jacques de Molay (1244-1314), queimado vivo. Mas também é bem conhecida a convocatória que, antes de passar ao morrer, o Grande Mestre do Templo entregou aos seus algozes, o Rei e o Papa, para que comparecessem no espaço de um ano perante o Tribunal Divino. Clemente V morreu a 20 de Abril do mesmo ano e Filipe o Belo a 29 de Novembro.

Foi sempre dado como certo que algumas partes dos rituais Templários eram importadas de certas seitas religiosas e políticas da Síria e do Egipto, com as quais estiveram em permanente contacto. Fala-se dos Yézidis ou Adoradores do Diabo, dos descendentes dos gnósticos naassenos, também conhecidos por Ofitas, aos quais pertenceu Simão o Mago (Atos 8:9-24), e por fim da misteriosa confraria dos Assassinos (1090-1255), os estranhos fumadores de haxixe, fundada pelo Hassan ibn al-Sabbah (1034-1124), também conhecido por Velho da Montanha. Os Assassinos eram chiitas Ismaelitas, veneravam Ismael, 7º descendente de Fátima, filha do profeta, que hoje dá nome a um dos mais importantes centros de culto católico do mundo, situado próximo, por coincidência bizarra, de certo, da sede portuguesa da Ordem do Templo, a Ordem de Cristo.

No século X, durante o reinado de Abdalahh, descendente de Ismael, primeiro califa egípcio da dinastia Fatímida, os percursores das doutrinas ismaelitas que, agrupados em sociedades secretas, eram já bastante numerosos na Pérsia e na Síria, fundaram no Cairo a sua primeira Grande Loja de carácter iniciático. O enviado dos ismaelitas persas, depois de ter sido recebido na Grande Loja do Cairo, retornou ao seu país para fundar em 1090 uma sociedade secreta que adopta os graus iniciáticos da Loja do Cairo mas introduz o emprego regular do assassinato como forma de supressão dos adversários. No topo da hierarquia dessa sociedade secreta encontrava-se então o famoso Velho da Montanha, seguido pelos três Daï-al-Kirbal (Grandes Priores, um por cada província), os Daïs (iniciados completos), os Refiks (Companheiros), os Fedavis (os assassinos propriamente ditos), e os Lasiks ou noviços. Os iniciados superiores substituíram o Islamismo corânico por uma espécie panteísmo hedonista combinado com a Vontade de Poder político, em que o assassinato era um instrumento corrente.

 

A Companhia de Jesus

Outro exemplo de sociedade fundada num princípio de comunhão entre os seus membros, ligados pela obediência e pelo segredo, recrutados por métodos semelhantes aos da Sociedade Pitagórica, na sequência, portanto, de uma longa preparação espiritual e intelectual, é a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loiola (1491-1556) em Montmartre, a 15 de Outubro de 1534 e confirmada em Roma em 1540 pelo Papa Paulo III, nascido Alessandro Farnese (1468-1549).

Os Jesuítas são uma associação religiosa que se estabeleceu, desde a sua fundação, não sobre um modelo estritamente monástico mas, pelo contrário, sobre um modelo de cariz político, científico e militar – o seu Superior, também chamado Papa Negro, toma ainda a designação de General dos Jesuítas. Expulsos várias vezes dos países onde a sua influência foi mais notada (Portugal em 1759, França em 1762, e posteriormente em 1880), suprimidos definitivamente em 1773 por Clemente XIV,  o Rigoroso (1705-1774), restabelecidos por Pio VII (1742-1823) em 1814, a Companhia de Jesus conseguiu sempre sobreviver e emergir das perseguições, constituindo ainda hoje uma verdadeira potência religiosa, política e intelectual, como demonstra a recente eleição de Jorge Mario Bergoglio (n.1936), o 266ª Papa da Igreja Católica e Chefe de Estado do Vaticano, o primeiro Papa Jesuíta da história.

As Constituições de Santo Inácio e os regulamentos internos da Ordem são, segundo alguns autores, documentos exemplares de uma organização politico-mística que atingiu níveis de profundidade e perfeição muito semelhantes aos da Sociedade Crotoniana. Chega a considerar-se a possibilidade de as regras dessa sociedade antiga terem inspirado Santo Inácio, como, aliás, já haviam feito às associações ascetas dos Terapeutas do Egipto, os Essénios e seus sucessores imediatos, os primeiros monges da Thébaïde, também conhecidos por Arcádia Egípcia. O paralelismo com a Ordem dos Templários foi várias vezes assinalado, uma vez que os Jesuítas, tal como os Pitagóricos, possuem também três graus de iniciação.

Uma outra Sociedade Secreta de base iniciática, apresenta as mesmas semelhanças com a Companhia de Jesus: a Maçonaria.

 

A Maçonaria

De facto, a chamada Franco-Maçonaria especulativa, também conhecida por Franco-Maçonaria Política, foi fundada em Londres no início do século XVIII por um grupo de maçons aceites pertencentes a algumas lojas operativas, e alguns intelectuais interessados no complexo de ideias e tendências que circularam durante quase um século, tanto no continente europeu como em Inglaterra, entre, nomeadamente, os adeptos da fraternidade Rosa-Cruz.

O costume de eleger membros honorários em certas Lojas remonta à antiguidade e às sociedades secretas de adeptos dos chamados mistérios. Existem registos documentais que provam que alguns imperadores e outras personagens de elevado peso social foram iniciados em altos graus do Rito de Elêusis por ocasião das suas visitas à Grécia, e é muito provável que esse costume existisse também na Sociedade Pitagórica primitiva, ou pelo menos nas confrarias neo-pitagóricas dos primeiros séculos da era Cristã.

Em tempos mais próximos, contudo, foi sobretudo em Inglaterra, a partir do século XVI, que alguns membros da aristocracia e alguns intelectuais tentaram a sua admissão em Lojas operativas como maçons livres e aceites. O livro de protocolos da Loja Mary’s Chapel de Edimburgo menciona que a 8 de Junho de 1600, John Boswell of Auchinleck (1532-1609), destacado membro da aristocracia escocesa, foi recebido como membro não operativo – basicamente alguém não versado nas Artes da Construção, da Arquitectura, da Geometria e da Matemática . Mais tarde foram-no também Lorde Eglinton e Lorde Cassilis, igualmente pertencentes às castas mais altas da Escócia. Em 1618, o Conde de Pembroke torna-se Venerável de uma Loja e em 1663 o conde de Saint Albans é eleito mestre honorário da Loja de São Paulo, juntamente com Sir Christopher Wren (1632-1723), arquitecto da catedral de São Paulo de Londres (City), que será Primeiro Vigilante. Afirma a tradição desta Loja que Carlos II (1630-1685), rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda, tomou parte dos seus trabalhos sob o nome de Brother Rowley.

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A ideia da criação de uma sociedade de filósofos dedicada ao estudo das ciências estava em implantação e manifestava-se como mais facilidade nos países protestantes, ou seja, na Alemanha e em Inglaterra. Francis Bacon (1561-1626) fala dessa sociedade na sua Nova Atlântida, um conceito eminentemente Rosa-Cruz e é precisamente por esta altura, em 1614, que aparecem os primeiros manifestos desta sociedade secreta, assinados por João Valentim Andreia (1586-1654), discípulo de Paracelso, pseudónimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541) e amigo de Comenius (1592-1670), a Fama Fraternitas e a Confessio Fraternitas. Aparecem igualmente as obras de Michel Meier (1568-1622), médico do imperador Rudolfo II (1552-1612), da casa dos Habsburgos e imperador do Sacro Império Romano, rei da Boémia e da Hungria, a Arcana Arcanissima e a Atalanta Fugiens.

O Collegium Lucis do qual alguns Rosa-Cruzes afirmam receber as suas directivas,  a Hierarquia Oculta de que Fernando Pessoa fala numa carta a Ofélia, continua, apesar dos esforços dos intelectuais mais curiosos, a permanecer absolutamente inacessível. Os membros ingleses do movimento Rosa-Cruz, na maior parte pertencentes a lojas maçónicas operativas em Londres ou na Escócia como membros honorários, decidirão, preservando os seus ritos, símbolos e mesmo designações das lojas, abolir completamente o seu fundamento teórico de cariz profissional, para conservarem exclusivamente um carácter social, político, filosófico e especulativo. A ideia de construção mantém-se, mas os mestres construtores de templos transformam-se em mestres construtores de Sistemas Sociais.

É assim que a 24 de Junho de 1717 é fundada a Grande Loja de Inglaterra, juntando sob a sua soberania as 4 principais lojas operativas de Londres. É essa data que marcará na História o começo da chamada Maçonaria Especulativa. Em 1723 o reverendo James Anderson (1679-1739), nascido e educado na Escócia, que como maçon das antigas lojas operativas tinha estudado em profundidade os seus arquivos e as suas tradições e que foi um dos iniciadores da transformação, redigirá as Constituições que ficariam conhecidas pelo seu nome e que serviram de código ritual às lojas que foram sendo fundadas um pouco por toda a parte.

A antiga Loja de York levantou colunas como loja especulativa autónoma em 1721. A primeira loja especulativa francesa estabeleceu-se em Paris no ano de 1725 pela mão do Lord Derwentwater, um jacobino exilado. Na Alemanha, a primeira loja foi a de Hamburgo (1733), nos Estados Unidos a de Boston (1730), na Índia a de Calcutá.

Em 1766 existiam 480 lojas que não se limitavam à vertente puramente social e cerimonial dos seus rituais. Pelo contrário, agiam de acordo com o programa das sociedades ocultas sonhadas por Francis Bacon, Robert Fludd e Michel Meier, cujo plano inicial era agora completamente realizado, através não só da investigação filosófica, mas de intensa actividade e intervenção política. A tradição do segredo absoluto e da fraternidade entre irmãos, características herdadas das lojas operativas, conferirão à Maçonaria, nesta nova fase da sua transformação, um enorme poder de acção e influência na sociedade.

Agripa de Nettesheim (1486-1535) chamou ao Criador o eterno Mestre da Obra e a Maçonaria venera o Grande Arquitecto do Universo. Esse arquitecto está mais próximo do Deus de Pitágoras e de Platão do que do da Igreja Romana. Transmitido pela Cabala, a Alquimia e pela Rosa-Cruz, o inexprimível Tetragrammaton e outras palavras de poder aparecem nas lojas imersas nos seus símbolos e nas provas de admissão herdadas dos mestres construtores da Idade Média e dos antigos Collegia. E nos novos centros filosóficos e especulativos, a voz que se ouve é do Hierokéryx de Elêusis, o grande mensageiro do Céu, que viajou através dos tempos para de novo se apresentar no corpo das provas iniciáticas, semeando nelas as penas terríveis que aguardam os que traem o seu juramento. E estão ainda presentes também a gruta de Metaponto ou a Caverna de Platão, a sala subterrânea de Maât, ou o eterno pentagrama pitagórico que se tornou na Estrela Flamejante, já presente nos rituais das últimas lojas operativas inglesas do século XVII e no centro da qual brilha o enigmático G.

Apesar da austeridade do simbolismo técnico e geométrico dos acessórios rituais, como o compasso, o esquadro, o prumo, as colunas ou a pedra cúbica, a Igreja acreditou reconhecer o seu velho inimigo. E se os maçons declaram venerar no misterioso G a primeira letra da palavra Geometria, Roma lê a inicial de Gnose.

Dois mil e quinhentos anos passaram sobre o massacre de Metaponto que quase levou ao desaparecimento o mais poderoso sistema de representação do Universo que a civilização ocidental conheceu. Mas ele resistiu como um fogo eterno, passando de tocha em tocha ao longo dos séculos, umas vezes mais exposto, outras oculto sob o manto do segredo que sempre uniu os seus transmissores. E esse segredo não é de todo um tique ritualista vazio de significado. Ele é o elemento central de um duelo de Mágicos de cujo desfecho, a existir, depende largamente o destino ou a liberdade da humanidade. Ou como defendia Agostinho da Silva, o acesso ao lugar físico e metafísico em que destino e liberdade se encontram para se fazerem um só.

O domínio das Leis do Número e da Analogia confere aos seus detentores um enorme poder. E se é por intermédio dessas leis que ao Homem pode ser dado contemplar a maravilha do Universo Harmónico, é pela sua inversão que ele fica a conhecer a treva mais funda do inferno, o lugar, tal como o anunciou Dante (1265-1321), à porta do qual toda a Esperança é abandonada.

Aquilo que hoje possa ser a Maçonaria no mundo, ou particularmente em Portugal, resulta de um longo processo histórico com milénios de evolução. A Maçonaria Especulativa não é imune ao declínio geral da civilização ocidental e aquilo que constitui o seu carácter laico, pode muitas vezes – vezes demais – ser traduzido por simples Vontade de Poder, com tudo o que de positivo e de negativo essa vontade comporta.

Comments

  1. cavernoso says:

    Com tanta superior sabedoria enciclopédica até se me desatarrachou o 137º neurónio do corpo cavernoso.

    O que está em cima é igual ao que está em baixo.
    Quem tudo quer, tudo perde.

    E mais não digo.

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