A economia da pobreza


JN, 20/11/2016

JN, 20/11/2016

O senhor padre Lino Maia queixa-se, nas páginas do JN de ontem, das dificuldades por que estão a passar as IPSS a cuja federação o senhor padre preside. Tem razão.

O Governo da República deveria assumir na plenitude os seus deveres sociais, nomeadamente através do serviço público de Segurança Social, permitindo ao senhor padre Lino Maia dedicar-se ao ofício divino que lhe é próprio e abandonar este sector empresarial que tanto cresceu nos tempos pecaminosos da Troika. De resto é hora de olhar com olhos de ver para os negócios da miséria, conhecidos pelo pomposo nome de Terceiro Sector ou Economia Social, onde pelos vistos há 250 mil trabalhadores a viver da pobreza alheia.

É dever do Estado assistir os seus cidadãos em dificuldades e não ajudar a florescer uma actividade económica cuja prosperidade depende dessas mesmas dificuldades.

Comments

  1. J. Gonçalves says:

    “Convém mas é não confundir género humano com Manuel Germano”, como escreveu o Mário de Carvalho. Vamos por partes:

    1) A economia social não se esgota na tão vilipendiada caridadezinha. Temos o ensino pré-escolar, a saúde, a prestação de cuidados continuados e paliativos, o acolhimento de crianças sem estrutura familiar, os lares de idosos, o acolhimento de portadores de deficiência, a reinserção social, etc. O Estado tem condições para dar resposta a tudo isto?

    2) Estamos a falar de meios e de fins: é desejável que Estado actue directamente em todos os campos ou pode delegar parte das suas obrigações de serviço público em parceiros credíveis, supervisionando com rigor a acção destes

    3) O que é que se faria aos tais 250 mil trabalhadores que supostamente vivem da pobreza alheia? Despedia-os? Incorporava-os na máquina do Estado?

    4) Há, de facto, muita caridadezinha, muito “pobrezinho de estimação”, muitas ineficiências, abusos e protagonismos. Porém, nada disso invalida a necessidade de assistência de emergência: é que há gente com fome aqui e agora, que não pode esperar pelo cumprimento de utopias.

    • Bruno Santos says:

      Acho muito bem que invista na Economia Social, desde que o faça com o seu dinheiro. Já diz o povo, “Não vos tenhais a tenças alheias”.

      • J. Gonçalves says:

        Perguntas claras: acha que o Estado tem condições para assegurar todas as necessidades sociais dos seus cidadãos? As IPSS são todas desnecessárias e podem fechar portas?

        • Bruno Santos says:

          1)O Estado tem essa obrigação e deve implementar políticas que permitam alcançar esse objectivo.
          2) As IPSS devem manter as portas abertas. Às suas custas.

          • Marco says:

            Hmm, em relação a a 2), deixavam de ser IPSS para passarem a ser completamente privadas.

            É que não sei se sabe, mas já há muitas destas. Cheias. Sem vagas. E que mesmo que as tenham, recusam liminarmente quem não tenha de 1000€ para cima para serviço de lar, ou de 400€ em diante por serviço de infantário.

            Onde é que os probres (e os remediados, que é a maioria) colocam idosos e crianças se as IPSS passarem a privadas? O Estado garante? Deixe-me rir. O Estado não é capaz de manter uma merda de um autocarro fora de Lisboa e Porto, quanto mais um lar de terceira idade em Vimioso, Idanha-a-Nova ou Fajão.

          • Bruno Santos says:

            Em IPSS, o P quer dizer Particular, ou seja, Privado.

          • Marco says:

            E SS quer dizer Segurança Social. Agora que já brincámos aos acrónimos:

            As instituições que têm estatuto de IPSS têm regras específicas, nomeadamente o máximo que podem cobrar e a obrigação de aceitar quem quer que seja que a SS envie para lá (desde que tenham vagas).

            Em contrapartida, o Estado financia a diferença entre o que as pessoas que lá coloca via SS e um valor determinado (não sei qual é).

            As instituições que são completamente privadas e independentes da SS cobram os valores que querem e só aceitam quem lhes apetece. Isto existe, é mais comum do que se pensa e estão sempre cheias, ao contrário de algumas IPSS – às vezes na mesma cidade.

            O que está a propor no 2) é isto. O Estado deixa de financiar IPSS, e a SS deixa de poder enviar crianças e idosos para as instituições; estas só aceitam quem puder pagar o que eles quiserem. As outras podem ir morrer longe, porque o Estado nunca vai conseguir gerir uma coisa destas se o regime de IPSS desaparecer.

          • Nascimento says:

            Sabes quanto pagam as IPSS ?A maior parte recebe pessoal do Ifpp e não paga nada! São os trabalhadores que pagam com o seu subsídio de desemprego.Ou andas por onde? Na Ricardo Gameiro se não tiveres nada a deixar para a “instituição ” Não Entras! Percebes? Vão dar banhinho ao cão… mais a vossas Misericórdias da treta.

    • Nightwish says:

      “O que é que se faria aos tais 250 mil trabalhadores que supostamente vivem da pobreza alheia? Despedia-os? ”
      Ou seja, ineficiência no estado é uma pouca vergonha de gente que não sabe trabalhar, no privado é uma obrigação para todos nós sustentá-la.

  2. A minha descontou toda uma vida de 42 anos de trabalho. Nunca foi operada, nunca foi internada, excepto para ter os filhos. Quando teve cancro e foi operada, o sitio de acolhimento para recuperação foi uma IPSS muito boa, à modica quantia de 2.000 euros por mês, mais despesas.

    IPSS o cagalho, para não dizer nenhuma asneira.

    Querem ser privados, privados sejam a 100% e paguem impostos a 100%.

  3. O EXCELENTE negócio em que se tornou a …..solidariedade????…. até os especuladores são MECENAS solidários! por aqui e por todo o lado!

  4. Afonso Valverde says:

    Li atentamente o texto e gostei porque colocou bem a questão da “aparição” mais uma vez do Sr. Padre Lino Maia na imprensa.
    Não sei nada das contas das IPSSS da Igreja e também nada das outras.
    Alguns dos comentários têm conteúdos oportunos para refletir na relação entre o Estado e a Igreja na matéria da Economia Social.Percebo, como refere J. Gonçalves que o Estado terá dificuldade em operacionalizar a ajuda direta às pessoas e, por isso, financia organizações que regulou para esse trabalho (IPSS). Mas o apoio social está longe de ser atalhado apenas pelas IPSS.Há organizações em forma de associações e outras que se dedicam a esta atividade e nada recebem do Estado porque assim querem trabalhar.
    Há IPSS (é uma categoria jurídica) que não pertencem à Igreja Católica. Mas de facto a maioria é e isso reflete quem manda na Federação onde estão representadas.
    O Sr. Padre Lino Maia sempre fala mais para a imprensa quando chega discussão do orçamento de Estado para daí retirar mais uns euros para o bolo das IPSS. É ver o que acontece todos os anos nesta época.
    A mim não me choca que o Estado haja no apoio social através destas instituições. Agora o Estado deve fiscalizá-las mais e melhor até para saber se estão endividadas. Mas nesta matéria como em outras há muta opacidade das contas.
    É verdade que em matéria de condições laborais muitas IPSS têm práticas perfeitamente inaceitáveis.Quando isso aprece na comunicação social é vê-los a barrar o acesso à verdade.
    Enfim misérias…

  5. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Que eu saiba, as IPSS não são privilégio da igraja, assim como quaisquer outras ONG que andama pelo mundo fora a trabalhar em prol dos desfavorecidos ou dos atingidos pelas catástrofes. Querem IPSS sem ser da Igreja? Criem-nas. Não se limitem a criticar e alançar suspeitas.
    Ainda há pouco soube de uma organização que se criou quase expontaneamente no Nepal, fruto do trabalho iniciado no campo por dois turistas portugueses que calharam lá estar aquando do terramoto. E os Médicos Sem Fronteiras”, a AMI, etc.? Também são suspeitos?
    Pensar que o Estado vai acudir a todos em todo o lado é “assobiar para o ar”, desviar o olhar das desgraças que existem, e fazer de conta que não se passa nada. Enfim, varrer o lixo para debaixo do tapete.
    Fazer acusações sem provas, lançar suspeitas e depois não concretizar, só tem um nome: maledicência. Se querem dizer mal da Igreja, façam-no com casos concretos e provas. Se não – calem-se.

    • Nightwish says:

      Já usar dinheirinho dos impostos para instituições que desculpam a pedofilia e apoiam a descriminação tá tudo bem.

    • Bruno Santos says:

      Caro senhor, quer fazer o favor de identificar as acusações e as suspeitas lançadas no texto? Obrigado.

    • Afonso Valverde says:

      Ó senhor, o acrónimo IPSS é um esatuto juridico-legal atribuído pelo Estado a (algumas- as que reqerem) associações, fundações, coperativas que se dedicam ao “apoio social”. Ninguém aqui atacou a Igreja e poucos confundiram este aspeto.
      Não atire agora com o epíteto de jacobinos para cima de quem faz perguntas e observações sobre a conduta política do Sr. Padre Lino Maia.

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