Ser Europeu


img_4702
Pertencer à União Europeia, estar na Europa, Ser Europeu, foi uma das grandes novidades que nos trouxe este Portugal moderno saído dos finais do século XX e entrado pelo novo milénio adentro cheio de acrescentos identitários e “mais-valias” civilizacionais, oferecidas pela diversidade da Europa e dos povos que a habitam. Foi assim que aquilo que ameaçava transformar-se numa jangada de pedra, à deriva pela solidão do mundo pós-imperial, se transformou numa energia intra-solidária, comprometida com valores ancestrais que partilhamos com os nossos “parceiros” do velho continente.

Foi a União Europeia e este fundo sentimento de Ser Europeu, flamejando desde sempre no coração de todo o português, que permitiu que outro olhar nosso se derramasse sobre parceiros como a Eslováquia e a Letónia, com cujos costumes nos identificamos tão profundamente e cuja cultura tanto acrescentou ao nosso repertório etnográfico, mitológico e culinário; ou sobre os nossos amigos e também parceiros da Roménia, irmãos de armas de há séculos, que tão bem Eliade representou em Cascais, junto das nossas tias, e no gabinete do senhor Doutor Salazar; ou a Alemanha, essa segunda casa de Tácito, cuja língua, cinema e literatura conhecemos como as nossas próprias mãos, principalmente quando estamos de luvas, a partir pedra ou despejar brita; ou a Croácia, cujas praias só dispensamos se o Algarve estiver cheio; ou Malta, sim, Malta! A ilha irmã que deu à luz esse neo-lusitano Maltese, o Corto, marinheiro e vagabundo incansável, com quem Pêro da Covilhã partilhou os caminhos do Oriente e as tascas de Sodoma; ou a Suécia, como esquecê-lo, essa segunda pátria de todo o português que se preze, pois que como nenhum outro lugar divide connosco o privilégio do Sol e dos ventos quentes; ou a Lituânia, terra que cala tão fundo no arquétipo da nossa saudade; ou a Finlândia, paraíso branco que tem luz três horas por dia, mas cujo sistema de ensino nos tem servido, com tanto sucesso, de paradigma retórico e onírico; ou a Polónia, esse gigantesco estaleiro operário, parceiro que nos deu a fotografia a preto e branco, o sindicalista de bigode e a língua do Vasco Granja; e por aí adiante. Ser Europeu é isto, é estar irmanado com toda esta diversidade, vivê-la como um respirar. E, de vez em quando, fazer uma selfie em Bruxelas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “… e este fundo sentimento de Ser Europeu, flamejando desde sempre no coração de todo o português, …”

    Concordo genericamente com o seu texto, mas…
    Não haverá aí algum exagero? Ou isso é uma espécie de elogio ao federalismo da Europa?

    “As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;”.
    Luís Vaz de Camões

    Portugal, até ao final da guerra colonial não se pode considerar um país pró europeu.
    Se é verdade que a emigração dos anos 60/70 teve alguma influência na nossa aproximação à Europa, as colónias faziam esse contraponto. Uma pequena elite portuguesa gostava de se mostrar pró europeia, mais por snobismo do que por amor à democracia e aos seus costumes. A maioria deles nem sequer dominava uma língua estrangeira. Só um núcleo muito reduzido de intelectuais estava em condições de ter uma abordagem seria sobre a Europa.
    Como muito bem diz, com o fim do império e o advento da democracia, fomos obrigados a virar-nos em definitivo para a Europa.
    Mas só doze anos mais tarde, com a nossa entrada na CEE, nós tomamos verdadeira consciência do que é ser Europeu. Primeiro, pelos benefícios que sentimos desse evento. Segundo, porque essa entrada nos abriu a possibilidade de fazer trocas comerciais livres de taxas alfandegárias. Depois pela mobilidade crescente entre povos. A seguir com a entrada no € euro. Mas quisermos ser mais explícitos, foi com os acordos de Bolonha e o início dos programas ERASMUS e outros similares, ao nível da educação, atraíndo os nossos jovens universitários para essas comunidades tão distintas da nossa, nós atingimos o auge desse pretenso europeismo, muito mais efervescente nos jovens do que na “velha Guarda”, que ainda são uns milhões de almas.
    Sintomático que no Brexit os jovens eram “todos” pela permanência do Reino Unido na UE, e os mais cépticos eram os mais velhos.

    Atenção que eu não discordo do conteúdo do seu pensamento. Subscrevo-o. A única coisa que eu ponho em causa, “é o seu excesso de velocidade”!

    • Bruno Santos says:

      Concordo totalmente com o que escreve. O texto pode não ter uma leitura clara, por falha do autor. Obrigado pelo seu comentário.

    • Quando a França nos invadiu em 1808 (a 1ª vez) não estávamos na Europa?
      E os emigrados portugueses em Inglaterra em 1828 eram o quÊ?
      E os 60 anos de monarquia constitucional punham-nos onde? O Rei D. Luís, tradutor de Shakespeare e casado com uma filha do Rei de Itália era africano?
      E Eça de Queiroz?
      Enfim…

  2. Daniela Major says:

    Se olharmos para o que é “ser europeu” como um conjunto de relações bilaterais entre países ou regiões ou como algo que está ligado à adesão à UE então não vamos lá.

    Contudo, se olharmos para a Europa como um espaço dentro de um contexto cultural e social então somo plenamente europeus mesmo que não lhe tenhamos dado esse nome antes. Até o nosso colonialismo é muito Europeu.

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s