Não ao racismo

 

Há uns dias saiu uma notícia no Público que passou quase despercebida. “Portugueses são mais tolerantes com a entrada de refugiados e menos com a dos imigrantes por motivos económicos.” Esta conclusão é o produto de um estudo realizado pelo ICS que cobre um período de 12 anos.

O facto de os Portugueses serem mais tolerantes com a entrada de refugiados é provavelmente o resultado das imagens que nos são transmitidas pela televisão. Alice Ramos, investigadora que contribuiu para o estudo, afirma que “Há de facto um sentimento de piedade que os protege destas atitudes de oposição. E Portugal, provavelmente, é o país que menos associa os refugiados às restantes categorias de imigrantes”. Isto é evidentemente positivo. Olhar para os refugiados com compaixão, especialmente numa altura em que por esse mundo fora há tanta gente investida em ver um terrorista em cada refugiado, é sinal de que estamos a fazer alguma coisa bem. É provavelmente também sinal que os principais meios de comunicação se abstêm de comentários errados e inflamatórios, como acontece noutros países, com outros jornais e televisões.

Relativamente aos imigrantes o caso muda de figura. Se é positivo que finalmente alguém venha provar que a ideia da hospitalidade portuguesa é uma herança ideológica do Estado Novo e que os portugueses conseguem ser tão racistas como os outros, por outro lado, Portugal é posto ao lado de países como a Hungria, República Checa. É interessante verificar que os três países sofreram um fechamento muito grande em relação ao exterior durante a maior parte do século XX e a imigração é um fenómeno dos últimos 20 anos. Claro que isto não desculpa absolutamente nada. O racismo não é combatido conscientemente, não há indignação popular quando somos confrontados com casos de racismo. Quando a comunicação social dá visibilidade a esses casos é muitas vezes do ponto de vista errado. Qualquer coisa como, “grupo A ou B continua sem pagar impostos.” Com a honrosa excepção do Público que tem feito um bom trabalho em analisar o racismo em Portugal (muito à semelhança do que faz o Guardian), não há, na generalidade, um questionamento em relação ao nosso próprio discurso. Ou seja, o racismo, quando existe, disfarça-se de preocupações “concretas”. O emprego, a segurança, a religião. Se perguntarem a alguém que fez um comentário racista se ele é racista a resposta provavelmente será negativa porque apesar do comentário, a pessoa não está ciente da gravidade do mesmo, ou do que ele verdadeiramente implica. Tal como afirma o artigo, «a percepção que temos de ameaça serve como uma justificação para o racismo e para o preconceito racial”. Tal imagem, no contexto da sociedade, permite ao indivíduo “exprimir os seus sentimentos sem declarar que é racista ou preconceituoso relativamente a pessoas de outros grupos étnicos, de outras religiões”». O problema, do meu ponto de vista, não é apenas esse. É que não há na generalidade da sociedade civil, dos media, das formas de pensar, um questionamento do discurso racista. Mesmo nas escolas há poucas oportunidades para discutir tais assuntos. Uma coisa é dizer às crianças que ser racista é feio, outra é explicar os mecanismos e o discurso utilizado para perpetuar o racismo; discurso que, certamente, a maioria dos adolescentes presentes nas aulas já tiveram a determinado ponto.

Tudo isto é muito mais insidioso do que parece à primeira vista e é óbvio que não há uma solução fácil. O problema do racismo é gravíssimo e de difícil resolução. A banalização do discurso racista é especialmente perigosa. O mundo em que vivemos actualmente é prova disso. Sociedades cujas tensões raciais são mais acentuadas não arranjaram ainda solução para ele. Só que enquanto a questão do racismo é discutida amplamente em países como os Estados Unidos, França ou Grã-Bretanha em Portugal, sob o disfarce (outro!) da amabilidade genética do povo português, como se todos tivéssemos saído de um fado da Amália, a discussão sobre estes assuntos é incipiente.

Comments

  1. Paulo Só says:

    Claro, o problema do racismo em Portugal é ocultado, diluído, como no Brasil, onde segundo o discurso oficial não há racismo e todos os pobres e os presos são negros, ou quase. Ou pardos, como eles dizem. No que respeita a questão da imigração há ainda um outro aspecto para além do racismo. É que cada vez fica mais evidente que a nossa sociedade (e não me refiro apenas a Portugal) não suporta os pobres. Na realidade odiamos os pobres. Odiamos o que eles são, mal vestidos, com dentes pôdres, sujos, ignorantes. Odiamos as pessoas que trabalham de noite e deixam os filhos em casa sozinhos e sem educação, odiamos os lugares onde eles moram. Esse é o lindo resultado da sociedade de abastança em que vivemos. A ponto da religião acabar por parecer revolucionária, e por isso não somos praticantes. O fascismo começa sempre pela mentalidade, só depois se transforma em política. E é para lá que caminhamos, não há dúvida. No tempo de Salazar os pretos ficavam nas colónias, não havia racismo.


  2. A maior tolerância dos portugueses aos refugiados relativamente aos imigrantes, deve-se ao facto de ser muito fácil tolerar um “problema” que não se tem. Houvesse refugiados em Portugal e a nossa “tolerância” para com eles seria a mesma que votamos aos imigrantes (que, mesmo assim, são poucos, para a média europeia). PS: ao cidadão acima sugiro que pergunte aos portugueses pobres o que pensam de imigrantes. Ou que ande de transportes públicos.

    • Paulo Só says:

      Sugere que os portugueses pobres deveriam gostar de imigrantes? Por que razão? Eles seriam diferentes dos não pobres? Quanto aos transportes públicos, não tendo motorista, sou obrigado a usá-los com frequência, e a horas de grande movimento. Não percebo a insinuação.


  3. Eu explico: comentando o “post”, que é sobre a intolerância aos imigrantes, escreveu: “Na realidade odiamos os pobres”. Ou seja, associou a intolerância aos imigrantes à aversão aos pobres – aversão que, suponho, não seja dos próprios pobres, pelo que será, necessariamente, dos “ricos” e “remediados”. O que lhe pergunto é, faz a mínima ideia do que é que os “pobres não imigrantes” acham dos imigrantes? Se anda (como eu) de transportes públicos, como ignora esse tópico de conversa?

  4. Paulo Só says:

    É claro que os pobres também odeiam os outros pobres, que são os imigrantes. Muitos imigrantes já estabelecidos são mesmo dos mais ferozes contra os novos imigrantes. Isso se verifica em vários países. A maioria dos imigrantes, e dos pobres pensam o mesmo que os remediados e os ricos. Como disse alguém, a preocupação com a identidade surge quando se deixa de acreditar no futuro.

  5. Konigvs says:

    É curioso que no outro dia tropeçava numa imagem com a seguinte frase: “America: the only place where imigrants call olher imigrants imigrants…” (América: o único sítio onde os imigrantes chamam imigrantes aos outros imigrantes) e isto deixou-me a pensar porque não deixa de ser muito irónica a xenofobia quem advém daquela santa terrinha, de gente toda ela imigrante, porque os americanos, os que ainda restam, têm a pele vermelha e não o típico caucasiano.

    Quanto ao nosso racismo e descriminação portugueses, incomoda-me muito mais o que é praticado pela comunicação social do que pela ignorância, de pessoas que muitas vezes não tiveram instrução, ou até de gente que se deixa pelo que é socialmente aceite em determinadas tribos urbanas.

    Quando um branco assalta um banco é só uma pessoa comum. Quando um preto, gay ou cigano comete um crime é um “indivíduo de etnia cigana” é um “homossexual” ou de “origem africana”. Há um evidente racismo no jornalismo.
    Quando um pobre comete um crime é julgado e condenado nas capas dos jornais de “monstro”; quando o Duarte Lima comete um (suposto) assassinato é só o Doutor Duarte Lima.

    Racismo dos mais velhos, de pessoas sem grande instrução, ou até de gente que se mostra simpatizante da extrema-direita em certos círculos, eu até admito. De pessoas que estudaram e fizeram cursos superiores, que publicam ou dão a cara pelas notícias e que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo, acho VERGONHOSO.

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