Confabulatores nocturni

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Ainda que para muitos permaneça um mistério a devoção com que em Portugal milhões de pessoas, diariamente, assistem a telenovelas, não há dúvida de que essa fidelidade, esse fascínio, se relaciona com o carácter encantatório e de certa maneira hipnótico da estória e dos meios utilizados para a contar.

Jorge Luís Borges mencionou um dia os confabulatores nocturni de que se fazia acompanhar Alexandre da Macedónia na longas campanhas militares. Era um grupo de homens cuja função era contar fábulas e lendas ao discípulo de Aristóteles, pela noite dentro, estratagema que ele usava para enganar a insónia e alimentar os sonhos.

É possível que este hábito tenha origem muito antiga, bem próxima da época em que o Homem começou a dominar o Fogo e as noites, sob a sua luz, se tornaram mais longas e mais propícias à narrativa coloquial, à partilha da palavra na elaboração de imagens mentais e ao desenvolvimento da imaginação. No fundo, é disso que se trata. De alimentar a imaginação.

Os métodos usados para contar estórias evoluíram, mas o objectivo de estimular, e mesmo de condicionar, os processos de criação da imagem mental, é basicamente o mesmo. Daí que, pelas estórias que se contam e com as quais se encantam diariamente milhões de pessoas, nos é permitido entender o género de confabulatore que hoje domina a produção de imagens mentais e, principalmente, com que propósito essas imagens são estimuladas, que desígnio social veiculam e que modelo Humano preconizam.

Entendendo isto, julgo que perceberemos que nenhuma modificação sensível se introduzirá no modelo civilizacional que alegremente nos conduz ao abismo da extinção moral, sem resolvermos o problema Primeiro, o da fonte: os manipuladores de Arquétipos.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Evidentemente, para a maioria da população as telenovelas não passam de lazer e entretenimento. São aquilo que mantém centenas de milhar de pessoas agarradas aos televisores pelo dia fora, esquecendo-se da realidade que os envolve. “Dos dramas e bizarrices das tramas”, à sedução dos personagens construídos pelo realizador, tudo isso “acicata” uma enorme paixão / ódio das audiências pela ficção e pelos protagonistas envolvidos.
    Não é novidade para ninguém que tudo isto está a serviço da alienação e da distorção da realidade através, por exemplo, das repetidas promessas de um final feliz para os “justos” e a punição para os malvados, ou a resolução de conflitos (de classe, raça etc.) através de enlaces amorosos, arrependimento perante o castigo divino, ou uma qualquer fatalidade..
    No entanto, isso não é tudo. Como dizem os teóricos, os meios de comunicação e os seus produtos são literalmente “habitados pelo Poder”. E, nos países lusófonos, Portugal incluido, as telenovelas, devido à sua enorme popularidade, são as “suítes presidenciais” onde a burguesia se acomoda para transmitir os seus estereótipos e potenciar os lucros publicitários.
    Não é por acaso que a publicidade nestes períodos aumenta de forma exponencial e os anúncios são mais caros. As próprias telenovelas incorporam publicidade encapotada.
    Apoiada numa boa qualidade técnica e num elenco de personagens escolhidos a dedo, a maioria das vezes, mais no plano estético do que nas capacidades de interpretação, as telenovelas têm sobre o espectador um efeito de

    • Rui Naldinho says:

      ” … um efeito de sedução, que o transporta para um imaginário muito distante das suas rotinas.”

  2. nuno says:

    Já agora, História Imortal, de Karen Blixen, passada em Macau, (que deu filme de Orson Welles).

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