A nossa moral

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Foi há pouco mais de três anos. Um alto responsável governamental afirmava publicamente que o turismo português estava a “aproveitar melhor a Primavera Árabe”.

Hoje, há um entusiasmo nacional festivo, celebrando o contributo que as receitas do turismo estão a dar às contas nacionais, de algumas cidades e de alguns empreendedores mais atentos. Chegam charters  de chineses, brasileiros, franceses, italianos, alemães, espanhóis. Gastam a Torre dos Clérigos de tanto a fotografar. Tiram selfies em Alfama sem sonharem com a origem da toponímia. Tudo isto ao som de discursos pungentes sobre as crianças de Aleppo, uma das cidades mais antigas do mundo.

É esta a nossa Moral.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    A nossa moral com Primavera Árabe, de Allepo a Palmira, de Tunis ao Cairo, e por aí fora, é a mesma moral que temos com os Angolanos de Cabinda ao Cunene, e que os Alemães têm connosco e com os gregos, e que os Norte Americanos têm com os Mexicanos.
    Dizem em surdina, para que não pareça mal:
    “No Islão são todos uma cambada de fundamentalistas e fanáticos”
    “Matam-se uns aos outros por questões religiosas”
    “Os Angolanos são uns corruptos”
    “Os pretos são ainda mais racistas do que os brancos”
    “Os mandriões do Sul da Europa não querem é trabalhar”
    “Os Mexicanos são criminosos e traficantes de droga”
    E por fim:
    “Com o mal dos outros posso eu bem”

    • Bruno Santos says:

      Certo. Mas devemos ter a consciência disso, o conhecimento. Devemos saber que a prosperidade que julgamos buscar se obtém, muitas vezes, à custa do sofrimento alheio. Ter isso presente já é um passo.

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Confesso que não percebi onde o autor queria chegar com este artigo. Parece-me que tem um qualquer complexo de culpa, a meu vere completamente injustificado. As culpas dos conflitos que grassam no médio oriente são de algumas nações cidentais, por certo, mas não de Portugal. Podemos apontar o dedo, em primeiro ligar, aos Estados Unidos, primeiro com a invasão do Iraque, e depois os mesmos mais a União Europeia, que andaram a incentivar os revoltosos um pouco por todo o mundo árabe, com a desculpa da “democratização” (como se eles fossem mais democratas que os que lá estão – não são).
    Agora há, como sempre acontece, uns desgraçados inocentes a pagar com as suas próprias vidas, temos o êxodo maciço para a Europa, e temos os responsáveis políticos e outros a chorar lágrimas de crocodilo.

    • Bruno Santos says:

      Compreendo o seu ponto de vista, embora não tenha mencionado a responsabilidade de um político português na guerra que dizimou e ainda dizima uma das nações da zona: o Iraque


  3. O „alto responsável governamental“ com a sua „Primavera Árabe“ adoptou a filosofia de vida de um coveiro ou de uma agência fúnebre: „Não quero que ninguém morra mas quero que a minha vida corra“. Eu cá por mim teria as minhas sérias dúvidas em chamar para aqui a Moral ou, pelo menos, nesta questão do turismo, como indústria capitalista, lhe dar grande relevo. E para testar o novíssimo App do grande tema português da actualidade, pergunto: Haverá maior paneleirice que discutir a Moral no Neoliberalismo?

    • Bruno Santos says:

      Haverá, quando as bombas rebentarem na nossa rua? E quando forem os nossos filhos a morrer?


      • Esta é uma das tais questões que daria pano para mangas. Peguemos nela de frente. A “Primavera Árabe“ é a designação cínica para um conjunto de guerras ilegais promovidas pelos EUA com a ajuda dos seus vassalos europeus. Daí resultou não só a morte e deportação de muitos milhões de seres humanos mas também um negócio gigantesca em muitos ramos da economia de muitos milhares de milhões de dólares, entre eles o turismo. Numa situação destas devo discutir a moral deste turismo ou desmascarar os criminosos que promoveram e promovem estas guerras de saque e crime? Paneleirice é também na nossa língua uma outra designação para sexo dos anjos. Não quero pintar o diabo na parede, mas perante bombas na nossa rua persegue-se os criminosos e exige-se responsabilidades aos culpados em Washington e em Bruxelas.


  4. Portanto, por solidariedade com Allepo, devíamos proibir o turismo em Portugal. É isso? É que não percebi muito bem onde quer chegar.

    • Bruno Santos says:

      Não, não deveríamos proibir o turismo. Tal como ninguém proibiu que se recolhessem os dentes de ouro dos prisioneiros dos campos de concentração. Coisa diferente é demonstrar respeito pela vida e pelo sofrimento humano.

  5. anónimo says:

    É um facto que, desde que os EUA e a UE iniciaram o crime contra a humanidade, que eles e os media apaniguados designam como “Primavera árabe”, o turismo aumentou em Portugal.
    Começaram com a Tunísia e o Egipto.
    Além de,
    1 lhes infiltrar e sustentar exércitos terroristas,
    2 lhes vender armas,
    3 lhes destruir todas as infraestruturas produtivas,
    4 gerar a morte e a fuga das populações,
    5 lhes destruir os monumentos, testemunho da longevidade e grandeza das civilizações,
    6 lhes roubar o petróleo e os recursos naturais,
    7 ainda lhes roubamos os recursos do turismo, desviando as hordas de turistas para os nossos hotéis e restaurantes.
    Moral: A guerra na casa dos outros é muito boa para o nosso turismo.


  6. Excelente curto artigo Bruno Santos, que nos obrigado a pensar.

    Quando era jovem estudante conheci uma senhora de idade em Dublin, Irlanda. Ela contou-me o que aconteceu à cidade, quando os ingleses a destruíram e mostrou-me fotos antigas, sendo o objetivo a rendição dos republicanos irlandeses. Já um pouco mais velho, ví as fotos de Grozny, e como os russos implacável e sistematicamente a destruíram, para obrigar a rendição dos independentistas chechenos. Mais uma vez já muito velho, vejo o mesmo, desta vez na histórica cidade Alepo (Halab, em árabe). Uma destruição sem dó, nem piedade, e com total impunidade, para obrigar a rendição dos rebeldes sírios.

  7. omaudafita says:

    “Sabemos que no Iraque há cristãos perseguidos pelo DAESH, todos ouvimos as notícias sobre o que os extremistas fizeram a esta minoria iraquiana e, em particular, o que fizeram às mulheres. Nos últimos dias a minoria Yazidi voltou a ser notícia, primeiro em consequência da batalha de Mossul, mais recentemente porque duas jovens desta comunidade, Nadia Murad Basee e Lamiya Aji Bashar, foram agraciadas com o prémio Sakharov.
    Mas na Síria não há cristãos?
    Não, na Síria não há cristãos, não há locais sagrados do cristianismo, não há templos religiosos de cristãos, não há mulheres cristãs. Aquelas mulheres que não andam de cara tapada e vestem à ocidental são todas perigosas chiitas, alauitas e outras minorias apoiantes do ditador. Aliás, na Síria não há terroristas, só há soldados do regime apoiados pelos perigosos russos, libaneses e iranianos de um lado e forças da resistência apoiadas por países amigos como a Turquia, a Arábia Saudita, Emiratos e outros grandes defensores da liberdade, da igualdade das mulheres e da democracia, como costumam ser todos os aliados do Ocidente.
    Na Síria não morrem crianças cristãs, em anos de guerra ainda não se viu uma única imagem de uma criança cristã, xiita ou alauita morta. Mesmo quando o mundo ficou chocado com fotografia de Aylan Kurdi morto na praia foram poucos os órgãos de comunicação social que explicaram que era uma criança que tinha fugido de Kobani, uma cidade mártir que só foi notícia quando estava quase totalmente destruída. Para a maior parte dos europeus Aylan Kurdi foi mais uma vítima de Assad e dos russos.
    A manipulação da comunicação social é de tal forma que os europeus assistem a enxurradas de refugiados programadas pelo fascista Edogan, que usa os refugiados para conseguir subjugar a Europa, e protestam conta Assad. Estamos todos muito distraídos e esquecemos que o tal califado do DAESH ocupava uma boa parte da Síria e que tirando os curdos a resistência contra o regime de Assad é pouco credível, sendo em grande parte braços armados da Turquia ou da Arábia Saudita. Quando o DAESH dominava quase toda a Síria e até se dava bem nas fronteiras dos Montes Golan ninguém se preocupou com a Síria!
    É por isso que na Síria os cristãos devem estar vivendo em ressorts de luxo pois não há uma única imagem de sofrimento e o mesmo sucede com todos os que não são sunitas. Ninguém reparou que antes da contra-ofensiva do regime uma boa parte da Síria já estava destruída e muitos das centenas de milhares de mortos já tinham morrido. Só os refugiados é que ainda não se tinham refugiado, porque a Turquia estava a ganhar mais com a espoliação das riquezas da Síria, deixando o tráfico de refugiados para quando fosse mais conveniente a Erdogan.
    Um dia saberemos tudo sobre o que se passou na Síria, sobre quem inventou o DAESH, sobre o envolvimento dos aliados do Ocidente na destruição de um país que era o único que poderia fazer frente a países como a Arábia Saudita. Um dia os europeus saberão a quem andaram a dar o dinheiro dos seus impostos.”

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