Câmara de Gaia: Governo chamado a intervir

O caso revelado pelo jornal PÚBLICO sobre a alegada rede de influências em IPSS de Vila Nova de Gaia, ligadas a membros do actual executivo da Câmara Municipal, ameaça tornar-se um assunto com contornos e dimensões bem mais graves do que à partida seria de esperar.

O PÚBLICO avançou inicialmente a informação de que a “Mulher do presidente da Câmara de Gaia viu a sua remuneração aumentada 390% em cinco anos”. Esta notícia foi negada pelo próprio presidente da Câmara, Eduardo Vítor Rodrigues, segundo o qual “Não se compara o vencimento de uma pessoa usando o mês do subsídio de férias”, numa versão dos factos que foi amplamente difundida por diversos meios, através dos quais se acusou também a jornalista do PÚBLICO de mentir e de estar ao serviço de “interesses obscuros”.

O que se verifica agora, através de prova documental dada a conhecer publicamente pelo jornal, é que quem mentiu não foi a jornalista. Ou seja, segundo o PÚBLICO, o presidente da Câmara de Gaia enganou os gaienses e os portugueses, pois a notícia avançada inicialmente pelo jornal corresponde à inteira verdade dos factos.

Na edição de hoje, o PÚBLICO retoma a informação avançada anteriormente, mas acrescenta provas documentais, com os registos das remunerações auferidas pela mulher do presidente da Câmara e ainda a informação de que o próprio Governo, através do gabinete do ministro Vieira da Silva, se encontra a analisar o caso. O jornal confirma ainda que o DIAP do Porto está a investigar uma denúncia sobre as ligações entre a Cooperativa Sol Maior e a Câmara de Gaia, tal como avançara anteriormente.

Julgo que ninguém de bom senso aborda um tema destes sem uma profunda mágoa e uma séria preocupação com o estado a que chegou a degradação de algumas instituições e da própria democracia representativa. Este assunto em particular passou a ter uma gravidade intolerável e ameaça contaminar a idoneidade do próprio Partido Socialista, a quem cabe o dever inalienável de extrair deste caso as devidas consequências políticas, começando por retirar a confiança ao actual presidente da Câmara de Gaia que, obviamente, deveria renunciar imediatamente ao cargo que ocupa. Não faltarão certamente ao PS candidatos credíveis e idóneos que se possam apresentar às próximas eleições autárquicas em Vila Nova de Gaia, defendendo os valores e os princípios do Partido Socialista, honrando a dignidade da democracia representativa e respeitando os eleitores que em si depositaram a confiança e a responsabilidade de conduzir os destinos da nossa vida comum.

A classe política caminha sobre um abismo cuja extensão e profundidade desconhece verdadeiramente. Não são ilegítimas, antes pelo contrário, muitas das críticas que lhe são dirigidas, pois é por demais evidente o sentido de dissolução a que se entregou, desbaratando um precioso capital de credibilidade e confiança que lhe foi outorgado pelo povo e pela democracia. É imperioso proteger esse legado e o PS tem essa obrigação.

 

Comments

  1. doorstep says:

    Tendo em conta o número de envolvidos (a impressão que se tem é de uma estrutura tribal – todos família, todos com direito a meter a colher no caldeiro), é pouco credível que TODOS sejam idiotas. O que significa que o grau de certeza de impunidade que os anima é elevadíssimo, em todo o caso superior à probabilidade de denúncia de esquemas em rede como o que o Público descreve.


  2. Será que a pequena lula descoberta pelo “PÚBLICO” irá transformar-se numa espécie de polvo?

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