Uma parte da nossa História

mario-soares-homem-480x300

Vou recuar a 1986 para falar de Mário Soares. Nessa altura Portugal vivia uma das suas mais dramáticas eleições. De um lado, Freitas do Amaral e com ele a direita e o centro direita; do lado oposto, Mário Soares e com ele a esquerda e o centro esquerda. Tudo isto de uma forma simplista, sublinho desde já.

Uma divisão enorme na sociedade portuguesa. Duas concepções diferentes de Portugal. Para que a geração dos meus sobrinhos ou mesmo da minha filha possam perceber, era uma divisão que nalguns casos, muitos, se vivia dentro das próprias famílias. Recordo que na minha ficaram, durante alguns anos, algumas feridas. Maioritariamente o nosso apoio era para Freitas do Amaral e o movimento “Prá Frente Portugal”. Alguns familiares, poucos, apoiavam Mário Soares (“Soares é Fixe”, era o lema) e isso criou atritos e amargos de boca entre as partes. Na segunda volta, em Fevereiro de 1986, Mário Soares ganha por uma diferença mínima (o equivalente a um Estádio da Luz como se dizia na altura). Para mim, um adolescente à época que viveu intensamente a campanha eleitoral, foi um enorme balde de água fria. Estava convencido que Freitas do Amaral ganharia as eleições. No fundo, em casa, estávamos todos convencidos de tal.

A verdade foi outra. Mário Soares ganhou e teve a superior inteligência de criar a figura do “Presidente de todos os portugueses”. E foi-o como poucos. Melhor dito, como nenhum antes e como nenhum outro depois. E tinha de o ser para dessa forma acabar com a enorme divisão existente na nossa sociedade. Estou convencido que foram dois os factores que acabaram com essa divisão fracturante no Portugal dos anos oitenta: a forma como Mário Soares soube exercer o seu cargo de forma unificadora e a maioria absoluta do PSD em 1987, ano e meio depois das eleições presidenciais.

Ou seja, Mário Soares foi fundamental como garante da democracia nos anos setenta. Foi a sua acção directa e indirecta que acabou (ou pelo menos atenuou) a clivagem política  na nossa sociedade nos anos oitenta. Em dois períodos diferentes e fundamentais da nossa história recente, Mário Soares foi um verdadeiro estadista. E ficou na história do século XX português.

Não foi perfeito e como qualquer ser humano cometeu erros. Não esteve isento de crítica e aqui permitam-me um parêntesis: aquilo a que se assistiu por parte de muitos portugueses, muitos mais do que aquilo que seria de esperar, nas redes sociais e caixas de comentários dos sites de muito órgãos de comunicação social portugueses nos últimos tempos sobre a pessoa de Mário Soares foi vergonhoso. Mais, demonstrou que continua a existir um número demasiado elevado de pessoas mal formadas, com instintos primários e que nos devem encher de vergonha a todos. Não foi nem é apenas repugnante, é assustador. Que não gostem de Mário Soares, que exista contra ele motivações superiores, é natural e normal mas destilar ódio, desejar-lhe a morte e outras coisas do género a que todos assistimos publicamente é indecoroso e, repito, assustador na forma como nos mostra o seu carácter. Escrevo-o com a liberdade de nunca o ter apoiado nem tão pouco nele votado em toda a minha vida e em todas as hipóteses que para tal tive. Com a liberdade de ter sido crítico de algumas das suas decisões e até de coisas que ele disse ou fez. Aliás, sobre o seu papel na descolonização a história se encarregará de esclarecer a verdade, de elucidar as gerações futuras sobre o que se passou e como se passou. Nem a minha geração está suficientemente distante para o fazer com o devido rigor histórico. E esse é o ponto que mais me divide sobre a personalidade de Mário Soares.

Não vou escrever muito mais sobre Mário Soares. Apenas aconselho, a quem o desejar, a leitura deste fabuloso texto de Miguel Esteves Cardoso, insuspeito ideologicamente, sobre Mário Soares. Está ali quase tudo o que penso sobre Mário Soares. Estou convencido que perdemos hoje um dos nossos maiores.

Comments


  1. Já não está entre nós um homem, entre muitos outros, ao qual devemos a nossa liberdade e que lutou por ela. Era um homem como qualquer outro com defeitos e virtudes. Que a sua alma descanse em Paz.

  2. anónimo says:

    “a nossa liberdade”, a liberdade de alguns roubarem o estado, e os outros todos a pagar?

    • Paulo Marques says:

      Também isso também é Soares, mas isso agora não interessa nada porque quando se morre só se podem dizer as partes boas.

    • ferpin says:

      O Mário Soares lutou para que tivéssemos um regime parlamentar multipartidário (1º contra salazar depois contra o PCP)
      Compete aos portugueses por via democrática lutar para que não haja ladrões sem punição.
      Por exemplo, votou Passos sabendo da tecnoforma?
      Votou portas sabendo dos submarinos? Da moderna?
      Vota PSd com marco antónio costa como um dos bigs do partido?
      Vota em qualquer partido que não tenha afastado um ladrão ou corrupto óbvio das suas fileiras de candidatos?
      Se responde sim a uma das perguntas, o mal do país é gente como você e não o Mario Soares.

  3. Nascimento says:

    Desgraçado de um Homem Democrata com tantos Laudatios feito por tantos paneleiros e filhos da puta…que nojo.Vou vomitar.


    • Quando se aponta o dedo os outros dedos da mão apontam para nós.

    • José Peralta says:

      Olha-te ao espelho, ó nascimento…

      …E DEPOIS…VOMITA UM “VOLVO”…
      (E senão souberes o que é um “volvo”, quando regurgitares a merda do intestino e ela te saír pela boca, já ficas a saber o que é…)


  4. “Os Haters são pessoas que apenas se preocupam em colocar comentários negativos e ofensivos, nomeadamente contra os autores de um determinado texto e/ou opinião. Normalmente são pessoas que possuem uma baixa auto estima na vida real e que aproveitam muitas vezes o anonimato que a internet lhes pode conferir para se fazerem notar e sobressair. Indivíduos cheios de complexos, com vários problemas psicológicos e que muitas das vezes sofreram abusos quando menores, daí não ser aconselhável aos visados responder-lhes. Pelo contrário, devemos ter um elevado grau de compreensão e em certa medida pena pois estamos perante pessoas diminuídas, sobretudo no âmbito cognitivo”.

    É por isso que normalmente os ignoro. Caro Tayeb, o melhor é fazer o mesmo. Faça de conta que nem existem, acredite que é o melhor caminho. Deixando-os a espumar sozinhos a coisa torna-se mais saudável. Um abraço.


    • Tem toda a razão. Ignorar e os deixar se esfumarem.

      Quero só acrescentar um episódio na vida de Mário Soares, ele estava em Gaza a jantar com Yasser Arafat, quando o primeiro ministro israelita Yitsak Rabin foi assassinado. Mário Soares era grande amigo do povo palestiniano. Acreditava na paz de iguais entre os judeus e os árabes.

    • Rui Naldinho says:

      Muito bom, o seu comentário. E muito boa, a sua resposta.
      O Aventar é um excelente blogue, do melhor que já conheci. Um espaço onde todos podemos manifestar as nossas opiniões de forma cordata e com elevação. Mas há sempre alguém que gosta de “trazer as botas sujas aqui para dentro”. Podiam ao menos fazer um esforço, e limpar o calçado antes de entrar.
      É pena!

    • Nascimento says:

      Bom mesmo era ter havido uma descolonização em dois tempos…que lata.

    • Nascimento says:

      Verdadeiramente em termos cognitivos HÁ QUEM DIGA que a coisa dura 6 meses até aprofundar os seus problemas ideológicos de ex PSDs perdidos no emaranhado da vidinha partidaria…coitados, são pessoas que hoje nem no PSD têm lugar! Perdidos no seu casulo Nortenho.Ó tempo volta para trás.

  5. ferpin says:

    Sempre me chateou a acusação de traição ao Mário Soares sobre a descolonização.
    Gostava que o Fernando Moreira de Sá clarificasse o que quer dizer com o facto de ser este um tema que o divide de M.S.
    Praticamente tudo o que se diz que o M.S. disse sobre isso é mentira. (retornados aos tubarões, tropa atirar nos colonos, etc).
    Quanto ao momento da descolonização, sugiro que estudem a fundo (por exemplo lendo os jornais da época todos os dias sequencialmente, entre outros métodos de apanhar o ambiente da época), para perceberem o contexto:
    Tropa em África que quer vir embora “ontem”, nem que largue as armas no meio da rua.
    Governo em que M.S. pouco poder tinha perante a força do MFA tendencialmente ligado ao que pensava e queria o PCP.
    Forças à direita do PS acobardadas, escondidos em casa, a levar as pratas para espanha, com medo do PCP.
    Soares estava sozinho. Fez o melhor que pôde. E se mais não fez é porque os que o poderiam ajudar na luta contra o perigo da deriva para o PCP estarem acobardados em casa a rasgar tudo o que os ligasse ao salazar.

    Alguns idiotas disseram-me ” se estava sozinho que viesse embora”. Se o M.S. tivesse vindo embora do governo deixava o PCP/MFA dono de tudo e se calhar tínhamos estado com um regime comunista monopartidário até à queda do muro de berlin.

    Eu acho que o maior ódio da direita ao M.S. só pode vir daí. O M.S. livrou o povo duma ditadura salazarista onde eles até se davam bem, e depois salvou-os duma ditadura comunista sem eles ajudarem em nada de cobardes que eram.
    Odeiam-no porque lhe devem a liberdade e o facto de nada terem feito na descolonização e na luta contra o perigo da viragem a uma ditadura do PCP exibe os enormes cobardes que eram.


    • Caro Ferpin, aquilo que me divide em relação a essa matéria é a forma como se fez a descolonização. Se não poderia ter sido feita de outra forma e exactamente por entender que ainda hoje não temos todos os dados de uma forma independente e desapaixonada entendo que só daqui a uns valentes anos se poderá ter uma visão histórica real dos acontecimentos. Obviamente, não me estou a referir a essas histórias de tubarões e quejandos que mais não foram do que instrumentos falsos de propaganda política. Depois, se me permite e ainda tocando nos pontos que refere no seu comentário, existiam várias direitas. A das pratas como refere e que se confunde, na minha opinião, com que que estavam aflitas a rasgar tudo o que as ligasse ao Estado Novo; A dos comerciantes, profissionais liberais, agricultores e movimentos moderados católicos, que era avessa ao comunismo e ao anarquismo e que estiveram, igualmente, na Fonte Luminosa com Soares pois não eram salazaristas mas também não eram comunistas. Esta última direita não odeia Mário Soares. Esta direita foi, em grande parte, a base sociológica do PPD.

      • José Peralta says:

        Fernando Moreira de Sá

        Se me permite, acrescento que uma descolonização pacífica, teria sido feita, atempadamente, alguns anos atrás, não fora a estupidez e a teimosia do salazar e dos seus ultras ! Os avisos, e os conselhos, até vindos do exterior não foram tidos em conta !

        Para ele ” a Nação (una e indivisível !!!) não se discutia”…e quem se opunha, levou os célebres “safanões a tempo” (eufemismo para pide, prisão, tortura, assassínio), porque ele “sabia muito bem o que queria” e por isso…”para Angola rápidamente e em força” quando já começava uma guerra fratricida !

        E depois, a descolonização foi dramática dada a sua inevitabilidade tardia ! E Mário Soares, foi posto inusitadamente perante um facto quase consumado e já irreversível ! Mas ninguém parece lembrar-se dos verdadeiros culpados…


        • Caro José Peralta, nesse aspecto tem toda a razão. Uma descolonização pacífica deveria ter sido feita ainda antes do 25/4/75. Ainda hoje não se compreende o porquê de Marcelo Caetano não o ter feito. Mostrando, também nesta matéria, que não tinha ou a visão ou o poder de facto exigido a quem, naquele momento histórico, assumiu aquele cargo.

          • José Peralta says:

            Caro Fernando Moreira de Sá

            Quando Marcelo Caetano assumiu o Poder, em 1968 já estava refém dos famigerados ultras, e a Guerra Colonial já ia em 8 dramáticos anos . E também não é seguro que a atitude e a opinião dele, fosse muito diferente da de salazar.

Trackbacks


  1. […] mas nenhum deu tanto à democracia. A este respeito, sugiro que sigam o conselho do insuspeito Fernando Moreira de Sá e que leiam a crónica do ainda mais insuspeito Miguel Esteves […]

Responder a Fernando Moreira de Sá Cancelar resposta