O reputado patologista, Sobrinho Simões, chama a atenção para a existência de uma prática médica que está a causar enormes prejuízos a doentes e, infere-se, ao próprio Serviço Nacional de Saúde.
O cientista portuense, que é uma das maiores autoridades mundiais na sua área, refere-se ao sobrediagnóstico do cancro, em particular de pequenos e inofensivos cancros da tiróide, mama e próstata, que está a ter como consequência a existência de ciclos de tratamentos clinicamente inúteis e comprometedores da qualidade de vida das pessoas.
Embora defendendo o rastreio, que permite a detecção precoce da doença, Sobrinho Simões considera que a caça ao cancro tem conduzido a tratamentos não justificados de cancros demasiado pequenos, que não conseguiriam desenvolver-se no tempo de vida restante das pessoas e cujo tratamento provoca um sofrimento e uma degradação da qualidade de vida totalmente inúteis.
Aponta como exemplo de má prática a Coreia do Sul, que iniciou o rastreio do cancro da tiróide, que passou para quarto tipo mais frequente, em consequência do que se multiplicaram tratamentos e extracções da tiróide, de elevadíssimo peso financeiro para o SNS, mas sem qualquer resultado positivo ao nível da mortalidade.
Não pode inferir-se, das palavras de Sobrinho Simões, que o fenómeno do sobrediagnóstico, já apontado, por exemplo, no caso de doenças como o TDAH (Transtorno do Défice de Atenção e Hiperactividade), se tenha generalizado, mas parece inegável a pressão que é exercida pelas estruturas industriais e económicas que gravitam em torno dos serviços de saúde, públicos ou privados, no sentido de adaptar aos seus interesses particulares uma matéria que pertence exclusivamente ao âmbito médico, ou seja, o diagnóstico.
A verdade é que o diagnóstico, sendo um instrumento da prática médica decisivo na preservação da saúde e no combate à doença, é também o pilar fundamental da indústria dos “meios auxiliares” com os quais é feita a tal “caça” de que fala Sobrinho Simões. Além disso, dele está dependente também o estabelecimento do protocolo terapêutico, cuja influência económica é muito significativa, designadamente na indústria do medicamento.



“A medicina avançou tanto que já ninguém está são.”
ALDOUS HUXLEY
Como disse Lobo Antunes, uma vez, a uma amiga, “se continua a procurar olhe que encontra!” .
Eu, sem procurar, encontrei…