O fim de Portugal


A Homeostasia é um processo dinâmico de regulação, característico dos organismos vivos, que visa manter certos parâmetros químicos dentro de limites compatíveis com a vida e propiciar um estado geral de equilíbrio.

Este processo faz parte da estrutura de regulação da vida, como lhe chama o investigador António Damásio, e está presente não só em células isoladas, como em organismos complexos com milhões de células. Opera através de uma capacidade inata do organismo para monitorizar permanentemente o meio interno e de usar os necessários instrumentos de correcção, no caso de esse meio apresentar desvios relativamente aos parâmetros limite exigidos pela manutenção da vida, o principal instinto de qualquer organismo.

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No caso particular do organismo humano, a quantidade de oxigénio, de dióxido de carbono, o pH, a temperatura, os níveis de açúcares, gorduras, proteínas, etc., estão sujeitos a uma permanente vigilância e qualquer variação nos seus parâmetros que ultrapasse os limites homeostáticos, resulta numa reacção imediata de dispositivos involuntários e não conscientes que buscam o restabelecimento do equilíbrio. Quando tais dispositivos se mostram insuficientes, não deixam de emitir os sinais necessários a uma intervenção consciente e voluntária, no sentido de serem accionados outros mecanismos de defesa.

Numa conclusão necessariamente sintética mas, em todo o caso, suficiente para que se prossiga a especulação em curso neste texto, a doença e, no limite, a morte, são estados orgânicos em que foram ultrapassados, num dos casos irremediavelmente, os limites do intervalo homeostático dentro do qual a vida, tal como a concebemos, permanece viável.

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É pouco conhecida, mas muito importante, uma carta que Fernando Pessoa escreveu a Hemann von Keyserling (1880-1946) na sequência de algumas críticas por este dirigidas aos portugueses e à sua nação, carta essa na qual Fernando Pessoa procura explicar, não só que Portugal não é aquilo que o dito conde pensa que é, como está longe de ser exactamente o que a maioria dos historiadores descreve.

Nessa carta, Pessoa explica que não há um só Portugal, mas vários, mais concretamente cinco. E mais considera Fernando Pessoa que esses cinco se sucedem e interpenetram ao longo dos ciclos temporais, num movimento espiralado em torno das 12 casas do zodíaco, movimento esse cujo início Pessoa identificou no ano de 1096, quando o Conde D. Henrique (1066-1112) tomou posse do Condado Portucalense (868-1139). O ano de 1096 corresponde assim, segundo afirma António Telmo (Almeida, 2 de Maio de 1927 – Évora, 21 de Agosto de 2010), à entrada do Sol na sexta Casa, no grau 7 de Sagitário. Esta casa é a última do hemisfério nocturno. Desse modo, afirma Pessoa, o esboço de Portugal fez-se ainda na treva, como é próprio, aliás, de uma vida ainda em gestação uterina, e só passados 100 anos emergiria para a Luz no grau 12 de Capricórnio, junto, portanto, ao Solstício de Inverno.

Na carta ao Conde alemão, escreveu Pessoa do primeiro Portugal ou da primeira alma portuguesa:

…nasceu com o próprio país; é esta alma da própria terra, emotiva sem paixão, clara sem lógica, enérgica sem sinergia, que encontrará no fundo de cada Português, e que é verdadeiramente um reflexo espelhante deste céu azul e verde cujo infinito é maior perto do Atlântico.

Do segundo Portugal disse:

Há uma segunda Alma portuguesa, nascida com o começo da nossa segunda dinastia [Avis] e retirada da superfície da acção com o fim – o fim trágico e divino – desta dinastia. Depois da batalha de Alcácer-Quibir, onde o nosso Rei e Senhor Dom Sebastião foi atingido pelas aparências da morte – não sendo senão símbolo, não era possível morrer – a alma portuguesa, que procurará em vão, tornou-se subterrânea. A partir daí tornou-se verdadeira, pois a sua origem era também subterrânea, e veio-nos de mistérios antigos e de sonhos antigos, de histórias contadas aos Deuses possíveis antes do Caos e da Noite, fundamentos negativos do mundo.

Esta alma portuguesa, herdeira, por razões e desrazões que não é legítimo explicar ainda, da divindade da alma helénica, fortificou-se na sombra e no abismo. Outrora, descobriu a terra e os mares; criou o que o mundo moderno possui que não é antigo, pois os outros dois elementos do mundo moderno (a substituição da cultura helénica pela semi-cultura latina, obra do Renascimento italiano, e o individualismo, obra da Reforma e da Revolução inglesa) são elementos obtidos por uma transposição de diferentes elementos de antigas religiões e civilizações;

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Finalmente do terceiro Portugal, escreveu Pessoa:

O terceiro Portugal que encontrareis à superfície dos Portugueses visíveis, é aquele que, depois da curta dominação espanhola, e durante todo o curso inanimado da dinastia de Bragança, da sua decomposição liberal, e da República, formou esta parte do espírito português moderno que está em contacto com a aparência do mundo. Esta terceira alma portuguesa é apenas um reflexo mal compreendido do estrangeiro; segue a civilização como a criança segue o estrangeiro que passa, por uma hipnose, não do homem, mas só do seu caminhar.

Não será fácil encontrar, nos dias de hoje, definição mais clara e acertada do estado presente da Alma portuguesa, faltando talvez apenas uma referência ao adulto em que aquela criança entretanto se transformou. Um adulto fechado sobre o fascínio de si mesmo, curvado sobre a sua derrota perante a História, hipnotizado por uma torrente de imagens vazias, que evocam um passado perdido e um futuro oculto em Nevoeiro. Um adulto sem destino e sem memória, do qual se ausentou qualquer consciência do momento, cindido por preconceitos e dogmas impostos que o tornaram numa caricatura de si mesmo e comprometeram seriamente a sua vitalidade mental e orgânica, e até mesmo os seus mecanismos involuntários, inconscientes, de resposta ao desequilíbrio. Estes mecanismos, nos quais radica a Homeostase, hão-de pressupor um grau mínimo de autonomia do organismo no qual operam, um patamar de soberania só alcançável quando no meio interno habita ainda a memória da vida, a recordação da gramática que lhe é intrínseca e em torno da qual se unem todos os seres.

Segundo o horóscopo traçado por Fernando Pessoa, o ciclo de vida de Portugal teria 992 anos, o tempo da revolução solar até ao reencontro com o grau 7 de Sagitário, com início no ano de 1096 e fim no ano de 2088. Daqui a 71 anos, portanto.

Acrescenta Pessoa, na carta ao Conde alemão datada de 30 de Abril de 1930, que o ciclo de vida de Portugal não se fechará sobre si próprio, como aliás é característico dos movimentos espiralados, devendo esperar-se ainda um segundo e um terceiro dia da manifestação da alma portuguesa.

O primeiro fechou-se com a dinastia de Avis e, nas palavras de Pessoa, foi aventura material, conquista de costas, de areias. No segundo dia essa aventura tornar-se-á uma aventura formidável, supra-religiosa, passada nessa No God’s Land que fica entre o Homem e os Primeiros Deuses. Mas haverá ainda um terceiro dia, cuja aurora está marcada para o ano de 2130, e que será a conquista prometida do Céu de Deus.

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A morte histórica de Portugal, ou seja, o fim da manifestação da alma portuguesa no plano em que nos encontramos, será, segundo o horóscopo traçado por Fernando Pessoa, no ano de 2088.

Sabemos como são inconfessáveis os usos muitas vezes feitos da Astrologia e das Artes da Adivinhação em geral, muito embora elas tenham já sido determinantes no governo das nações e na educação dos Príncipes. Não é relevante, nesta altura, aprofundar os aspectos mais técnicos da profecia astrológica de Pessoa ou o maior ou menor acerto histórico do seu prognóstico. Pessoa não concorre com o Professor Caramba nem com o Mestre Sissé. Movimenta-se no mundo mental abstracto, usa a Arte da Analogia com um virtuosismo inatingível para a maioria de nós, e elabora um mapa do devir da alma portuguesa com base num processo em tudo análogo ao que os organismos vivos utilizam para monitorizar do seu interior em busca do intervalo homeostático. Essa leitura permanente da sopa química interna, realizada por processos involuntários e inatos com origem no inconsciente individual, é transposta por Pessoa para o corpo colectivo do Povo Português, para o organismo vivo chamado Portugal, e a partir do seu Inconsciente Colectivo elabora o mapa do corpo da nação e estabelece as fronteiras e a dinâmica da sua homeostase. É através da intimidade com esse Inconsciente Colectivo que Pessoa adquire a capacidade de alterar o estado interno do corpo de Portugal, como o demonstra a obra verdadeiramente extraordinária que nos legou, e de simular os estados desse mesmo corpo que ocorrerão no futuro.

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Purificação do templo ( Evangelho de São João)

 – Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira.»

 

Imagens (obras do autor): 1. “56” (técnica mista sobre tela_118x78) 2. “O Cavaleiro Negro” (técnica mista sobre tela_90x60) 3. “O Ponto da Bauhütte” (técnica mista sobre tela_118x78) 4. “Vitória do Messias” (técnica mista sobre tela_90x60) 5. “O Homem Vegetal” (óleo sobre tela_120x60)

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