Trump é a Verdade


São muito mais preocupantes as reacções à eleição de Trump do que a eleição de Trump propriamente dita. Pelo motivo simples de que essas reacções sugerem uma total ausência de consciência sobre os motivos, as acções e as omissões que nos trouxeram a este lugar da História.


Não há nenhum líder mais adequado do que Trump à civilização que estamos a construir. Nenhum encarna melhor a barbárie que muitos pensaram que só atingia os “outros”. Trump é a expressão plena dos nossos actuais valores, é o espelho rigoroso e fiel do nosso edifício ético e cívico, a tradução irrepreensível do nosso ideal e dos desígnios sob orientação dos quais conduzimos a nossa vida colectiva.

Trump é o reflexo do nosso sistema de ensino, do nosso universo laboral, da falácia da competitividade, dos nossos programas de televisão, dos nossos jornais e revistas, das redes sociais, dos personal trainers e das aulas de ioga, dos (ir)responsáveis políticos, do rouba mas faz, da mentira institucionalizada, da destruição criativa, do custe o que custar, da corrupção impune, da ignorância endémica, da ausência de massa crítica, do regime siciliano que impera no sistema partidário, da exclusão do mérito, da perseguição da dissidência, da demolição simbólica do Estado, do esvaziamento da cidadania, da prepotência do poder, da coroação da trafulhice, da propaganda, da demagogia e da desonestidade.

Trump somos nós, a uma escala hiper-realista como há muito não víamos na nossa História.
Trump é a Democracia com que enchemos a boca, marchamos em manifestações e colamos cartazes, quando, na verdade, agimos quotidianamente de modo inverso, em absoluta contradição com as palavras de ordem e os discursos que repetimos como mantras vazios.

Trump é a Vitória do individualismo grotesco e do Iluminismo fascista, mas nós somos o individualismo grotesco e o Iluminismo fascista. Trump é a Verdade.

E a Verdade ainda agora começou.

Comments

  1. Uma realidade que não é desconhecida da História.
    Ainda tenho confiança nos povos e na sua memória.

  2. MJoão says:

    Não posso estar mais de acordo.

  3. Rui Naldinho says:

    Bruno, excelente.
    Você hoje está em grande!

  4. Bruno Santos, aquelabraço forte de cidadania, felicito-o por este seu texto inteligente que nos obriga a reflectir e a tomar consciência seriamente destes tempos que vivemos.

  5. Manuel Silva says:

    Bruno:
    O melhor texto que li sobre as circunstâncias e o significado da eleição de Trump.
    Nos últimos 40 anos houve três alertas para um final de tipo trumpiano aos quais dei particular significado, ao ponto de nunca deles me ter esquecido:
    Início dos anos 80: o etólogo Luís Soczka disse que a quantidade de informação disponível ultrapassava a capacidade do cérebro humano para a processar (isto naquele tempo, imagine-se hoje).
    Mais recentemente, Umberto Eco, disse que “as redes sociais promoveram o idiota da aldeia a detentor da verdade. Antigamente, os imbecis eram imediatamente calados na taberna da aldeia, agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel”.
    Vargas Llosa disse que a simplificação da linguagem dos SMS conduzirá o Homem à comunicação por grunhidos.
    Estas três afirmações, aparentemente desconexas, aparentemente sem relação com a eleição de Trump, se virmos bem, têm muito que ver com ela.

  6. Manuel Silva says:

    Adenda ao meu comentário anterior, talvez ambíguo na primeira frase, a qual esclareço.
    «Bruno:
    O seu post é o melhor texto que li sobre as circunstâncias e o significado da eleição de Trump».

  7. Bruno,
    Eu não conseguiria dizer melhor o que penso e sinto a respeito!!!
    Faço minhas as suas palavras.

  8. Patricia says:

    Sim, concordo com o que escreve, só não percebi as aulas de ioga!

    • Bruno Santos says:

      Tentarei, um dia e com tempo, explicar a minha posição sobre isso. É um assunto que se relaciona com a História das Religiões, nomeadamente com um peculiar sincretismo adoptado pelo Protestantismo na sua estratégia de domínio.

  9. Paulo Só says:

    Isso, ainda agora começou. Mas não é só o Trump, é o Congresso, onde foi apresentada moção para que os EUA saiam do sistema ONU. Ver aqui: https://www.congress.gov/bill/115th-congress/house-bill/193

    Na realidade a eleição dessa gente reflete o fato de que uma maioria de votantes nos países desenvolvidos se “terceiro-mundizou”, devido à globalização. Isto não tem só a ver com renda, mas também com cultura. E nesses países a esquerda não tem mais o seu magistério tradicional, ensino, comunicações etc. Tudo isso lhe foi tirado pela digitalização. Vamos entrar numa Idade Média. Para quem tiver esperança daqui a um século ou dois talvez se consiga sair. Entretanto encontramo-nos na fila da sopa. Já localizei a do meu bairro.

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