Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate*


A Secretária-Geral-Adjunta do Partido Socialista assina hoje um texto de antologia num jornal diário da cidade do Porto. Com o título de “Inquietação vs. Esperança”, Ana Catarina Mendes escreve um artigo que poderia perfeitamente passar despercebido e constituir apenas mais um testemunho tardio do movimento de entropia que aflige o mundo, particularmente aquele mundo saído da Revolução Francesa, cujos pilares eram a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Mas o seu testemunho não deve passar despercebido, pois Ana Catarina Mendes, líder de um movimento social e político herdeiro dessa trilogia e cuja filosofia assenta no princípio doutrinário da laicidade, agora reza.

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Escreve a líder socialista que “Trump e Francisco [o Papa] são hoje dois ícones globais do estado a que o Mundo chegou. Um Mundo (ou dois?) dividido entre a inquietação e a esperança, entre o populismo e o humanismo. E mesmo do ponto de vista de uma socialista, laica e republicana, como a que assina este artigo, entre os dois, repito, entre os dois, entre o mundo de Trump e o mundo de Francisco, é certamente o mundo de Francisco que mais sentido faz. É pela esperança que vale a pena batermo-nos. No concreto, como deve ser.”

Ana Catarina Mendes, chegada, como era previsível, ao “jardim dos caminhos que se bifurcam”, começa por recorrer – vamos admitir que o faz por acção sub-consciente – ao antigo hábito da Projecção, herdado da civilização humanista do Renascimento e baseado nas técnicas geométricas da perspectiva. Ana Catarina Mendes fala do mundo, e do “estado” a que ele chegou, como se essa fosse uma realidade exterior a si própria, da qual ela apenas participa na condição estrita de observadora. Em vez de Reflectir, em vez de apreender esse tal “estado do mundo” como espelho de si e do movimento social, político e civilizacional de que participa, a líder do PS coloca-se no exterior da esfera de reflexão, ou seja, fora desse mundo cujo “estado” a inquieta, projectando-se apenas como instrumento de medição, inócuo, não participativo e sem qualquer acção influente sobre a “realidade” que evolui ante os seus olhos, como uma imagem projectada numa tela. Este é, precisamente, o princípio da Perspectiva e da Ciência Clássica, que atingiu o seu apogeu entre os séculos XVIII e XIX, pela influência de Descartes (1596-1650) e Newton (1643-1727), estabelecendo uma cisão primordial entre o Observador e aquilo que é observado. Mas essa cisão não existe, tal como o demonstrou a Física moderna ao longo do século XX e como já o tinham demonstrado os filósofos pré-socráticos, há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

Com este “erro” – António Damásio (Conselheiro de Estado, Lisboa, 25 de Fevereiro de 1944) – e com a evocação mística de Deus, por interposta Esperança no “humanismo” do Papa Francisco, Ana Catarina Mendes assume a falência do pilar doutrinário do laicismo positivista, na verdade continuador da tradição protestante e da sua ética materialista, que até hoje vem sustentando o edifício político, filosófico e civilizacional dos sistemas seculares de poder. Mais não faz do que fazia Newton, que colocava nas mãos do Criador – santo seja o seu Nome – a responsabilidade pela explicação dos “detalhes” incompreendidos do seu modelo mecânico do Universo.

 

 

Este sim, é “o jardim dos caminhos que se bifurcam”, como escreveu Jorge Luís Borges (1899-1986). Quando uma organização laica da dimensão e com as responsabilidades históricas do Partido Socialista, vem assumir que mora em Roma, no coração de um Jesuíta, a última esperança na Salvação,  não estamos apenas, e finalmente, confrontados com a narrativa premonitória que João escreveu em Patmos, estamos perante uma indisfarçável confissão de falência, trágica porque tardia, da velha e por muitos amada Realpolitik, assente na escola maquiavélica que, infelizmente, é estruturante na formação de uma grande parte dos políticos por vocação.

Esta contradição insanável entre o desejo declarado de Ordem, veiculado pelas estruturas seculares do poder a que pertence Ana Catarina Mendes, e a disseminação do Caos sobre o mundo, tal como a ele hoje assistimos, resulta, em primeiro lugar, de uma ignorância original, voluntária ou involuntária, não é tempo de o avaliar, sobre os fundamentos da liberdade e do destino do Homem: a cada acção corresponde sempre uma reacção e a cada causa um efeito. E a cadeia causal não pode já ser entendida com recurso ao velho racionalismo positivista de gabinete, mergulhado na especialização dogmática e na categorizarão infinitesimal da realidade estatística, que ignora, rejeita e ataca tudo o que não conhece nem compreende. Depois, em desespero ontológico, reza.

É possível que Ana Catarina Mendes já tenha lido em algum lado o parágrafo que finalizará este pequeno apontamento, escrito num verão quente de 2013. É possível que não. Aqui fica para memória futura:

Reitero, para finalizar, o elogio da Esperança. A classe política caminha sobre um abismo cuja extensão e profundidade desconhece verdadeiramente. Não são ilegítimas muitas das críticas que lhe são dirigidas, pois é por demais evidente o sentido de dissolução a que se entregou, desbaratando um precioso capital de credibilidade e confiança que lhe foi outorgado pela democracia. Abriu-se a Caixa de Pandora e dela se soltaram os mais assustadores flagelos e a confirmação das mais negras profecias. No fundo da Caixa ficou somente a Esperança.

 

 

*Deixai toda a Esperança,  vós que entrais
Dante Alighieri, Divina Comédia, Canto III

Imagem: William Blake, A Porta do Inferno

Comments

  1. (…) ” depois, em desespero ontológico, reza.”

    Mais um excelente texto que nos ajuda a reflectir seriamente, obrigada, Bruno Santos, ânimo para continuar !

  2. Paulo Marques says:

    É mais uma expressão do vazio que é o centro político que muitos socialistas querem e que para nada serve. Idiotas úteis, no fundo.

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