Ainda Soares


Faz hoje um mês que Mário Soares morreu*. Na altura não escrevi nada porque já tinha dito o suficiente mas ao longo destas semanas foram-me ocorrendo vários pensamentos não apenas sobre Mário Soares, mas também sobre uma geração de homens e mulheres políticos que estão claramente em extinção.

Seria cansativo e contraproducente falar da questão da descolonização e dos retornados. Eu conheço de muito perto esta realidade e não pretendo menorizar o drama ou o sofrimento daqueles que foram obrigados a regressar. Contudo, é evidente para qualquer pessoa que perca duas horas da sua vida a tentar ler alguma coisa sobre o assunto, que a academia – e atenção, aqui falo das ciências sociais e não da literatura – não se debruçou ainda sobre esta questão. Ou seja, em relação aos retornados (isto é um post para outra altura) é inútil dizer que são todos uns reaças de primeira água. Tal como é inútil dizer que o retorno provocou uma fricção indelével na sociedade portuguesa. Em relação à primeira afirmação, é impossível saber porque há pouquíssimos estudos sobre o fenómeno do retorno em Portugal. É consensual que o processo do retorno português foi bem-sucedido mas de resto, não se sabe a configuração social dos brancos das colónias. Não há estudos que definam com exactidão quais as diferenças entre a sociedade branca de Moçambique e aquela de Angola. Não há estudos que explicitem o posicionamento político dos portugueses das colónias, nem se havia diferenças entre aqueles que foram para lá nascendo na chamada metrópole e os que já nasceram em África.

Tudo isto para dizer que eu rejeito total e absolutamente qualquer generalização, seja ela muito positiva ou muito negativa, sobre os retornados porque necessariamente as pessoas que o fazem estão a falar em termos de estereótipos.

No meu meio familiar há várias pessoas que tendo vindo das colónias gostam de Mário Soares e outras que igualmente retornados, não o podem ver. De resto, ambos os lados me influenciaram a determinados pontos da minha vida até que eu acabei por fazer aquilo que as pessoas normalmente fazem quando crescem que é pensar pela própria cabeça. E Soares merece que se faça isso.

Para mim Soares é a consolidação da Democracia, sim. É a luta contra a ditadura. É o símbolo da própria opressão vivida dentro de uma ditadura, da arbitrariedade e da crueldade de um regime onde não há liberdade e onde reina o medo. E sim, Soares é a Europa. A União Europeia é um feito extraordinário. É verdade que tem muitos problemas. É verdade que precisa de reformas. Mas não há palavras que possam descrever a importância do projecto Europeu. Há pessoas que dizem que o projecto Europeu não acabou com as guerras na Europa nem com os genocídios. É verdade. Perguntem aos bósnios. Mas é também verdade que acabou com outros conflitos que podiam ter facilmente acontecido. Parece ridículo pensar que há menos de cem anos a ideia de que Espanha pudesse invadir Portugal não era assim tão descabida. Agora esta possibilidade é objecto de piadas. Soares percebeu isso perfeitamente. Porque Soares era um Europeu. Era muito Europeu. Daí as suas afinidades com outros grandes Europeus como Mitterrand ou Brandt. A Europa não é apenas uma expressão geográfica, apesar da insistência de alguns. A Europa é mais do que tudo, um espaço cultural. Soares, como homem das letras, percebia isso.

Tudo isto eu já repeti anteriormente. Mas Soares é ainda mais do que isto. Soares era um político. Há muitos anos, numa altura em que eu ainda não gostava de Soares,  li a Última Campanha de Filipe Santos Costa, um diário da campanha presidencial de 2006 que foi recentemente reeditado pela Matéria Prima como o Último Combate. Lembro-me que esse livro foi uma espécie de introdução à política para mim. Não fiquei a gostar mais de Mário Soares. Pelo contrário, o livro cimentou a ideia já então generalizada que esta campanha fora um verdadeiro erro e que aquele Soares não era, de todo, o melhor Soares. Ultimamente, contudo, tenho vindo a pensar muito neste livro porque lembro-me que uma das coisas que mais irritava Soares em relação a Cavaco Silva era a forma como Cavaco negava ser um político. Hoje em dia, nós sabemos que esta manobra de vários políticos mais do que profissionais de se afirmarem não políticos é só uma forma de se aproveitarem da desacreditação da política e de se venderem como tecnocratas imparciais. Creio que em 2006, há 10 anos, a questão não era posta nestes termos. Sabemos hoje que a tecnocracia tem os seus perigos e que essa suposta imparcialidade não é mais do que uma forma de impor a suposta “nature des choses”. Tal como Robespierre no Danton de Wadja, eu também não acredito na natureza das coisas.

O que irritava Soares era a forma como Cavaco Silva subentendia que a política era uma ocupação menor, suja, manchada pela corrupção e que não era saudável nem positivo alguém fazer da política a sua exclusiva ocupação, isto é, ser um político profissional. No fundo, isso só indica que é um corrupto profissional. Ora, não só isto é falso em relação a Cavaco – se a política em Portugal fosse um jogo de computador Cavaco jogaria nos pros – como passa uma visão da política que Soares rejeitava completamente e que também rejeito. A política, tal como ela é entendida do ponto vista histórico, filosófico e até etimológico, é uma ocupação bastante nobre. O governo da cidade, o trabalhar para a polis parece-me absolutamente salutar. O problema da governabilidade hoje em dia não é a existência de políticos. Por isso é que é de desconfiar das pessoas que vindas seja do mundo dos negócios como do mundo das artes, desdenham a política e afirmam-se como não políticos. Ser político é uma coisa boa. O problema é que muitos são maus políticos, tão maus que mancharam e corromperam o próprio conceito de política. Soares tinha uma noção da política muito ampla – como se deve ter pois tudo o que tenha a ver com a polis não pode ser estreito e redutor. E ele entendia a política não só como algo nobre mas como uma ocupação benéfica. Soares luta contra uma ditadura porque é um político. Não porque é um tecnocrata que só quer saber de contas. Durante todo o seu percurso no Portugal Democrático, com mais ou menos erros, Soares manteve-se fiel a esta ideia de política e de fazer política. Podemos criticar Soares em muita coisa, mas é evidente que ao contrário de muitos outros – tanto políticos como não-políticos – que vêm a política como um instrumento que serve apenas para alimentar interesses pessoais, Soares tinha uma visão idealista e positivista do exercício do poder político.

Ultimamente, tenho recordado esta visão com saudade. O mundo em que vivemos, especialmente o mundo de hoje, deste 7 de Fevereiro de 2017, entende a política como um meio para atingir um fim sendo que esse fim não é mais do que uma forma de conseguir poder para movimentar interesses, influências, preconceitos, manipulações etc. etc. etc. É um poder que gera poder que gera poder, que existe tendo como fim o poder em si mesmo e já não uma concepção verdadeira do bem comum. O bem-comum, aliás, já mal faz parte da retórica política. Hoje em dia, fala-se do bem particular, do bem de alguns grupos específicos. O bem comum, essa visão mais abrangente e democrática, está a cair em desuso.

Soares foi um dos últimos grandes líderes europeus que entendia tudo isto. E talvez não seja uma coincidência que o estado em que encontramos tenha chegado após o desaparecimento de um grupo de pessoas para a quem política no seu pleno significado era um fim em si mesmo.

*As televisões recordam também que foi a 7 de Fevereiro de 1992 que se assinou o Tratado de Maastrich.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”

    A propósito do texto que escreveu e, já agora, porque o assunto está na agenda informativa, o pedido de desculpas de François Fillon aos franceses, que, parecendo simpático, não abona em nada a classe política, já vai sendo tempo desta gente perceber de uma vez por todas, que, com mediatização do espaço público, tudo se torna mais difícil de ocultar, na correlação de forças entre o serviço á causa pública e os interesses pessoais e familiares de cada um. Quem não quiser ver as coisas por este prisma, andará sempre nas bocas do mundo. Mas pior do que isso é alimentarem a descrença nas pessoas, e com isso fortalecerem os populismos e os demagogos.
    Portugal não foge à regra. Para além dos casos mais badalados a decorrer na Justiça, há no entanto outros fenómenos que não passam despercebidos à comunidade, os quais, não se enquadrando em nenhuma tipologia criminal, destroem a confiança dos cidadãos na classe politica.
    Uma das constatações mais evidentes da crise que se abateu sobre nós a partir de 2010 foi o facto de uma boa parte da classe política e das nossas elites, se terem dividido profundamente nas suas análises às causas profundas que originaram o colapso financeiro do país, e qual a melhor forma de sairmos disto, esgrimindo argumentos umas contra as outras bem distintos, por vezes até antagónicos. Tudo, porque o turbilhão social gerado pela entrada da Troica em Portugal desfez o centro dos interesses económicos instalados até aí, como uma onda destrói um castelo de areia construído na praia.
    É nos momentos de crise económica mais aguda, como o que vivemos no último quinquénio, que se exige, mais do que nunca, ética, responsabilidade social e coerência por parte dos políticos e das elites. Em especial daqueles que ao longo do tempo atravessaram os corredores do Poder e, foram responsáveis por um conjunto de decisões no plano político e económico, no qual assentou a construção do Estado Social em que vivemos.
    Desde a crise de 2010, deparo-me diariamente com declarações de muitos ex governantes e políticos que dominaram o pensamento politico à esquerda, emitidas nos meios de comunicação social e nas redes sociais, que me deixam estupefacto. Parece que esta gente não tem memória, e vai mudando de opinião conforme as suas conveniências pessoais assim o exijam. Isto faz-nos questionar se a História pode ser reescrita sempre que nos dá jeito, ajustando-a aos nossos interesses. Hoje, é comum passarmos fugazmente pelas páginas dos jornais e, lermos citações de Vital Moreira do seu blogue “causa-nossa”, completamente alinhado com as teorias
    https://causa-nossa.blogspot.pt/
    politicas e económicas de Pedro Passos Coelho. O mesmo se passa com António Barreto, o responsável pela Reforma Agrária de um governo socialista, Daniel Bessa ex ministro da economia de António Guterres, Luís Amado ex ministro dos negócios estrangeiros de Sócrates, ou mesmo Jorge Coelho o bulldozer do PS que deixou o seu discurso “Caterpillar”, para se tornar numa versão soft, da Geringonça, entre muitos outros protagonistas quase todos vindos do PS e do PCP, defendendo politicas públicas impensáveis há uma década atrás.
    De igual forma é comum lermos artigos na imprensa criticando ferozmente Pacheco Pereira, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Freitas do Amaral, Marques Mendes, vejam lá, nem este escapa, fazendo deles uma espécie de velhos do Restelo, quando não os tratam por irresponsáveis, só por defenderem o modelo de Estado construído até aqui, para o qual eles deram o seu contributo. Tudo porque não alinham no jogo da incoerência que grassa cúpula do Poder e na matilha de lobos interesseiros que gravitam à sua volta. Há alguma lógica neste tipo de comportamento?
    Claro que há!

    http://mitologiasemisterios.blogspot.pt/2010/10/os-10-mandamentos-de-maquiavel.html

    “Zelai apenas pelos vossos próprios interesses”
    Não há porto mais seguro para um ex político, esteja ele completamente reformado ou numa pré aposentação ativa, do que sobreviver em momentos como este, ao lado do poder económico e do governo da Nação.
    Ainda assim, há os que recusaram distanciar-se daquilo que sempre foi a sua linha de pensamento. Mas há outros, sem grande vergonha na cara diga-se, que atiraram tudo para trás das costas, como se descobrissem agora em cima da idade sénior; sim, nem sequer foi na idade madura, foi mesmo já depois dos sessenta; virtualidades em modelos sociais e económicos que sempre criticaram. Uma conversão tardia ao liberalismo económico, apenas porque lhes dá jeito, na medida em que este modelo ainda que os prejudique no seu vinculo ao Estado, dá-lhes bons proventos, por ex: dando pareceres jurídicos no sector privado, arranjam uma colocação num Conselho da supervisão da EDP, na COTEC, etc, etc…. .
    Só os burros é que não mudam, terá dito Soares, quando resolveu meter o socialismo na gaveta!
    Pois, mas foi assim que Mário Soares assassinou a sua credibilidade política durante décadas, e não fosse a sua morte ter contribuído para avivar as contradições do próprio regime democrático, que ele sempre defendeu, mesmo com defeitos, contrariamente a outros que apenas se serviram dele, a sua memória tornar-se-ia irrelevante.

  2. Os dois textos, de Daniela Major e Rui Naldinho ilustram clara e civilisadamente a pluralidade do sistema politico, menos mau que todos os outros, que é a DEMOCRACIA . Claro que o facto de populistas, demagogos e outros TRAPACEIROS vende pátrias se servirem, irresponsável e inconsequentemente, da DEMOCRACIA para terem arranjinhos….arranjões! alcandorando-se nos partidos e na “politica” não apenas desacreditam a NOBREZA da POLITICA como enxovalham os que, querendo estar ao serviço do POVO com seriedade, embora cometendo “erros”, ficam incapacitados de expurgarem dos partidos os “alpinistas” e vende PÁTRIAS. Infelizmente, não só aqui no rectângulo mas um pouco (que é MUITO!) por todo o lado diariamente surgem pèssimos exemplos a merecer maior presença e atenção no acto de VOTAR.

  3. Anti-pafioso says:

    Obrigado Presidente Soares .

  4. martinhopm says:

    Li o extenso texto de Daniela e os comentários sobre o mesmo.
    Não vale a pena estar com grandes considerações. Sobre Soares continuo com uma opinião não favorável, não tanto pelo que fez, mas sobretudo pelo que deixou de fazer, ainda que fique a anos-luz do troca-tintas do Cavaco, esse sim uma perfeita nódoa, arrivista, que se considerava a si mesmo o supra-sumo. Mas mesmo em Soares há coisas que continuam a causar-me engulhos:: a sua natural propensão para acordos à direita; o ‘pinochetazo’ que se preparava em 1975; o esbanjador com várias viagens à volta do mundo; o continuarem as suas fundações e outros interesses a receber vultuosas ajudas do Estado. E fico-me por aqui. . .

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