Eutanásia social


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O modo como um país encara e valoriza as suas crianças e os seus idosos define o seu grau de desenvolvimento humano e a sua própria viabilidade enquanto organismo social e civilizacional vivo.

Portugal, nesta matéria, apresenta sintomas antigos e agudos de uma grande degradação e tem em prática políticas que o tornam uma sociedade degenerativa, inimiga da infância e da velhice, e, como tal, inimiga da sua própria viabilidade.

No caso da infância, chegámos ao ponto extremo de optar por políticas claras de institucionalização, seja na escola, onde as crianças chegam a passar 12 horas por dia, seja no asilo moderno, onde são internadas de modo compulsivo depois de literalmente raptadas às suas famílias. O Estado, que soube baixar brutalmente o Subsídio de Desemprego ou o Rendimento Social de Inserção, atirando centenas de milhares de crianças para a pobreza extrema, é o mesmo que paga 800 euros por mês a Instituições privadas por cada criança raptada que lhes seja entregue. Temos, assim, o Terceiro Sector a viver do negócio do tráfico humano, com o beneplácito e o patrocínio do poder público.

A isto junta-se uma igual degradação da Saúde infantil, resultante da pobreza e da institucionalização, e o consequente comprometimento da sua qualidade de vida futura. É a alimentação barata e processada baseada no açúcar e nas gorduras – quando chega a haver alimentação – e a prescrição descontrolada de fármacos que visam a ortopedia da alma, como o metilfenidato, os ansiolíticos e os anti-depressivos. A Infância, em Portugal, tornou-se uma doença e, como tal, um negócio muito rentável.

Quanto à Terceira Idade, infelizmente o quadro não é melhor. Esmagados simbólica e economicamente, os idosos portugueses foram entregues à mais insultuosa coisificação, sendo tratados como um fardo que o Estado não tem obrigação de carregar. Aqui entra de novo em campo o tal Terceiro Sector, sempre atento às possibilidades de negócio emergentes da eutanásia moral de um país. Sabe-se, por exemplo, que existem nos Lares de terceira idade – em praticamente todos –  protocolos informais que estabelecem o Chumbo como medida imediata de bom acolhimento ao novo utente. Esse Chumbo, como é conhecido, consiste na administração compulsiva de fármacos tranquilizantes e depressores do sistema nervoso central, que tornam catatónicas pessoas que eram antes perfeitamente activas e conscientes. Tal como no caso das crianças, verifica-se com o idoso institucionalizado a opção pela lobotomização química como método de eutanásia emocional, motora e cognitiva. O mais sórdido disto tudo é que na base desta violência estão princípios de gestão, eficácia económica e de sustentabilidade financeirao lobotomizado não se queixa e exige uma estrutura logística de vigilância e cuidado muito mais leve e, consequentemente, muito mais barata. Uma vez por ano, mete-se num autocarro e leva-se à Cova da Iria a dar de beber à alma.

Este retrato é verdadeiro. E enquanto isto se passa, temos deputados da nação a discutir coisas tão profundas e urgentes como a procriação medicamente assistida ou as barrigas de aluguer, numa evidente instrumentalização dos poderes públicos em nome de agendas políticas inexplicadas e inexplicáveis.

 

Imagem: Banksy

Comments

  1. Tapar o Sol com uma peneira é a habitual prática dos credos e dos diversos poderes.

  2. Rui Mateus says:

    Excelente denúncia e um bom retrato de um sistema.

  3. Ana A. says:

    Eutanásia social = “não se pode dar tudo a todos!”
    É este o ponto aonde chegamos!

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