O pó da verdade


“Pilatos replicou-lhe: Que é a Verdade?”
(João 18:38)

romanino_pilato_pisogne

Parece ter terminado o folhetim que envolveu o Ministro das Finanças, que chegou a ser ameaçado com uma queixa-crime por deputados cuja credibilidade há muito ficou soterrada em fotocópias a preto e branco e irrevogavelmente submersa no mar profundo.
Ainda assim, não será inútil sublinhar, não relevando, sequer, o objectivo que realmente move os ofendidos, que o Governo, designadamente o senhor Primeiro-Ministro e o próprio Ministro da Finanças, agiram de acordo com aquilo que é o seu dever, respeitaram a dignidade das suas funções, assim como a das instituições do Estado que representam e dos cidadãos que servem.

Todavia, a coerência e a verdade valem como paradigmas de acção do Homem público em todas as circunstâncias, confirmem elas, ou não, a verticalidade do seu comportamento. E em todas essas circunstâncias é seu dever retirar as necessárias consequências políticas. Acontece que em finais do passado mês de Dezembro, a comunicação social fez um conjunto gravíssimo de revelações envolvendo o presidente de uma das maiores autarquias do país, o socialista Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia, e um conjunto de IPSS onde pontificam vários responsáveis políticos ligados ao executivo municipal, bem como seus familiares. Numa dessas revelações deu-se nota que a mulher do próprio presidente da Câmara fazia parte de uma dessas IPSS e tinha visto o seu salário aumentado 390% no espaço de cinco anos. Em face desta revelação, o presidente da Câmara de Gaia respondeu negando a veracidade da notícia e dos números tornados públicos e afirmando que o valor anunciado do salário da sua mulher não era verdadeiro, pois tinha sido mal calculado pela jornalista. Dias depois, o jornal que avançara a notícia publicou os documentos que provavam que tinha escrito a Verdade, adiantando inclusivamente que o assunto estava a ser investigado pelo DIAP do Porto e que ao próprio Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social havia sido dirigido um pedido de auditoria à IPSS em causa.

Consequências? Até agora, nenhuma.
Cada um tire as suas conclusões.

Ficam, contudo, para memória futura, as declarações proferidas hoje nas redes sociais por Porfírio Silva, um deputado socialista cuja postura digna nos habituámos, e bem, a respeitar:

“Quem preza pouco a verdade, quem leva com leviandade a sua própria palavra, quem toma a questão da verdade de forma meramente instrumental, quem no fundo não pesa a gravidade de ser mentiroso – esse é precisamente aquele que se atreve a chamar mentiroso a outrém sem cuidar da gravidade de o fazer sem fundamento seguro”.

Imagem: Gerolamo di Romano,fresco, 1533-34, Igreja de Santa Maria da Neve, Pisogne (BG), Itália.

Comments

  1. Bem visto e apoiado !!!

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