A entrevista de José Sócrates à TVI


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O ex-Primeiro Ministro José Sócrates deu uma entrevista à TVI da qual é legítimo destacar dois momentos. O primeiro, que a comunicação social não deixou passar despercebido, foi quando José Sócrates parece ter insinuado que a investigação de que é alvo, e que já provocou, entre outras coisas, a sua prisão, está, de algum modo, relacionada com o ex-Presidente da República, Aníbal C. Silva. Uma leitura mais livre, e necessariamente mais subjectiva e sujeita a erro, das suas declarações, pode levar a concluir que o ex-Primeiro Ministro considera, intimamente, que o ex-Presidente da República de algum modo promoveu ou patrocinou as acusações, não formalizadas, que recaem sobre si. O argumento, sendo conspirativo, é totalmente plausível.

O segundo momento que se destacou na entrevista foi a referência ao chumbo do PEC IV e à sua influência decisiva no pedido de resgate que Portugal foi obrigado a fazer e que viria a ter como consequência a mais negra e tenebrosa legislatura da Democracia portuguesa, liderada pelo governo PSD/CDS. Neste caso, o ex-Primeiro Ministro José Sócrates teve um gesto de cordialidade assinalável para com a actual maioria parlamentar, conhecida por Geringonça, ao omitir o facto, historicamente determinante e indiscutível, de terem sido os partidos à esquerda do PS – BE, PCP e PEV – que rejeitaram no parlamento o PEC IV, provocando a queda do governo e a consequente vitória eleitoral da direita.

Este facto, que não deve ser esquecido, é, aliás, ainda determinante nos dias de hoje, pois é a consciência dele que confere à Geringonça a surpreendente solidez política que aparentemente a constitui. Bloco de Esquerda, Partido Comunista e Partido Ecologista Os Verdes, carregam nos ombros a responsabilidade histórica de terem obrigado o país a um resgate de brutalidade ímpar, que o viria a destruir do ponto de vista anímico, económico e social. Talvez seja bom relembrar isso, de vez em quando.

 

Fotografia: © PÚBLICO

Comments

  1. É a vida! says:

    BE, PCP e PEV – que rejeitaram no parlamento o PEC IV, provocando a queda do governo e a consequente vitória eleitoral da direita.

    Essa é que é essa!
    Pensavam que iam ganhar votos no eleitorado e não repararam que esse mesmo eleitorado estava a ver…

    • Mário Reis says:

      Gente normal de esquerda haveria de concluir o que é inegável: as politicas seguidas quer pelo PS quer pelo PSD além de irresponsáveis e contrários aos ideais fundadores da Constituição manipularam alegremente as leis que os próprios criaram, fizeram vista grossa aos abusos de quadrilheiros e de um patronato parasitário, nomearam amigos e figurões para os lugares de poder, tudo até encostar o país à parede contra todas as evidências que, partidos de esquerda, em especial o PCP bem alertou antes de todos os arrependimentos e maquilhações atuais. Pouco, muito pouco mudou neste PS feito de gente enfileirada só pelo acesso ao bolo e “ganas de poder”.
      Infelizmente, não temos uma esquerda normal.
      A mesma esquerda que agora fala dos off-shores, querendo, tem uma obra imensa para refazer o que as politicas do PS e PSD (de gestão de um Estado de favorecimento do capitalismo selvático) destruiu. Tem que se interrogar a sério sobre a presença na UE e portanto na União Bancária (que o PS continua sem pôr como questão). Sobre os beneficios fiscais a empresas que não se cansam em exportar capitais em vez de os investir no país. Sobre as rendas que continuam a proteger e a enriquecer grupos de extorsão a que chamam de empresas, como no setor da energia, das comunicações e da dita “gestão das auto-estradas” entre outros.
      Relembro aos inocentes e distraídos que o PEC IV incluía no essencial, todas medidas que integraram o memorando de entendimento. A destruição social, venda de empresas e de setores estratégicos foi de tal ordem nos governos do PS, num acelerar de capitalismo de charlatães e favorecimento dos grandes grupos que, a canalha que governou o país sob a bandeira dos nobres ideais a que chamam de Socialismo deviam ter vergonha de sair à rua, tão elevados foram os serviços que prestaram ao capitalismo selvático.
      É claro para este PS, haver limites de gestão do sistema e de não confronto com os interesses que são transversais a muitos dos seus comparsas que não vai querer ultrapassar.
      Ilusões? Ilude-se quem quer e quem teima em não querer ver.

      • Nascimento says:

        Lucido rabisco! Mas temo que esta malta esteja esquecida.
        Já toda a gente esqueceu que em 2008 e 2009 o despedimento colectivo era diário! Que Sócrates e pandilha aprovaram leis que sacaram centenas de euros aos ordenados da classe média…ou seja: a merda começou com o PS ( modernaço), e continuou com mais força com Passos e Portas! É bom ter memória! Aliás, a direita nem tinha resposta a Sócrates.UM VAZIO TOTAL! Até que apareceu o Marco António Costa : ..” ou agora ou nunca”!!! E Passos avançou.
        Agora o que está a ser bom de ver ér o que se passa em França com um GIRAÇO MODERNO chamado Macron! um Nim Nim , apoiado por merdosos “verdes” tipo Cohn Bendit e outros xuxas cagados de medo !! Ui, vai ser tão lindo…

    • Anti-pafioso says:

      E , PSD/CDS

  2. Rui Naldinho says:

    O seu texto é pertinente.
    Primeiro parágrafo:
    A mim ninguém me tira da ideia de que a prisão de Sócrates foi apesar de tudo o que ele possa ter feito, e eu suspeito bem que sim, uma montagem ardilosa para fins eleitorais. Até este livro de notas do Sr. Silva, das reuniões às quintas feiras, vem nessa calha. Manter Sócrates sempre na agenda. Não deixar morrer o assunto.
    Ora, o que não falta neste país são ladrões de colarinho branco. Começam na política e acabam nas empresas do PSI 20. Porque há uma coisa que vos garanto. Nenhum fabricante de salchichas ou de tomate em lata os vai contratar para as suas empresas.
    Era necessário criar uma imagem de corrupção generalizada sobre Sócrates, como se o BPN não tivesse existido, isto já para não falar do BES, e ambos não tivessem passado de uma brincadeira de mau gosto, cuja culpa até nem era dos ladrões laranjas, mas sim do polícia côr de rosa.
    Nessa parte eu concordo com Sócrates.

    No segundo parágrafo, apesar de eu saber que a direita viu aí uma oportunidade soberana de fazer a tão almejava revisão constitucional à viva força, com a conivência do Presidente da República incluído, o que ainda assim não o conseguiu, desculpem-me, mas Sócrates foi um irresponsável que entrou em estado de negação em 2010. E é aí que eu passo a suspeitar dele. Quem está ao serviço do País, sem nada que o agarre ao Poder, não faz aquela figurinha triste, até batermos com o costado no chão. Por isso é que eu penso cá com os meus botões, que alguém lhe interrompeu a marosca, antes de terminado o trabalho. Não fosse o ministro das finanças, Teixeira dos Santos, e aquilo tinha sido um descalabro ainda maior.
    Mas aquilo por que passámos nos últimos quatro anos, também deu à esquerda a lucidez suficiente para perceberem de uma vez por todas, que é melhor um capitalismo controlado, com um Estado Social organizado, do que a receita de neo liberalismo descontrolado, como foi aquilo que tivemos.
    A Geringonça é o instinto de defesa a funcionar, e os burros, ainda não perceberam que enquanto o instinto de defesa estiver a trabalhar, ninguém voltará de novo às suas rotinas diárias, procurando defender os seus interesses de classe profissional. Estamos na fase da reivindicação mais básica, a de um modelo de Estado Social não regressivo.

    • Rui Naldinho says:

      Os burros, são todos aqueles que pensam que a Geringonça cai por sms. Se cair será por algo mais importante.

  3. Paulo Marques says:

    É mais importante relembrar que o principal factor da crise em Portugal foram as opções políticas do PS, PSD e do CDS relativamente à união europeia, nomeadamente a tudo o que envolve o euro. Dentro delas, a crise eterna é a única possibilidade.

    • O que significa que antes da Europa e do Euro, Portugal vivia no melhor dos mundos possíveis, acima do que vivemos hoje. Mesmo no tempo do Estado Novo. É isso, Paulo Marques? E a banca rota dos finais do século XIX, e do princípio do século XX, era porquê, já agora? Portugal vive numa crise permanente desde o tempo do Sr. D. João III.

      • Paulo Marques says:

        Não, significa que dentro do euro só há paliativos, não há cura. Basta um espirro que as taxas de juro disparam outra vez e lá volta a obrigação de mais austeridade – destruição dos serviços públicos que sobreviveram e maior precariedade.

  4. Victor Nogueira says:

    A narrativa da vitimização continua como se todos fossemos artolas.. Então PCP/BE/PEV não votavam previsível e sistemáticamente contra os PEC’s enquanto PSD/CDS votavam a favor ? Procurou o PS/Sócrates/Seguro/Assis algum entendimento e acordos com o PCP/BE/PEV – a extrema esquerda, trombeteavam eles, para o apoiarem ? Ou preferiram sempre entendimentos com o PSD/CDS, os tais partidos com “elevado” sentido de estado, até que inesperadamente PSD/Coelho deu a cambalhota e votou contra o PEC IV ? Mas verdadeiramente, quem tirou o tapete ao PS/Sócrates foram os banqueiros, incluindo Espírito Santo, aliados a Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças de Sócrates, para que a troika assentasse arraiais em regime protectorado ? Ou não ?

  5. BE, PCP e PEV rejeitaram no parlamento o PEC IV, como já tinham rejeitado o PEC 1,2 e 3. A politica dos PECs foi como veio a verificar-se, ruinosa para o país. O PSD e o CDS no papel de amigos da onça, apoiaram estrategicamente a politica dos PECs com o objectivo aliás bem conseguido de enterrar o PS para no preciso momento lhe tirar o tapete. Aliás o tempo veio a provar que com amigos destes (PSD/CDS) o PS (e por via do PS o povo português que o apoia) não precisa de inimigos.

  6. Aliás à velocidade a que os PECs surgiam hoje já estariamos talvez no PEC 1458.

  7. Paulo Só says:

    Ou muito me engano ou ainda não vimos sequer o começo do filme. Li no Observer há dias uma história que me deixou de pulga atrás da orelha. O Sr Mercer é um desses bilionários de Wall Street. Ele financiou à altura de 13 milhões de dólares a campanha do partido republicano. Mas antes disso uma subsidiária da sua Cia na Inglaterra tinha fornecido serviços grátis de marketing eleitoral ao Sr Farage, que quem Mercer é amigo há muito. E por acaso o Mercer é o dono da Breibart News do Sr Steve Bannon, que foi imposto como coordenador da campanha do Trump e hoje integra o Conselho de Segurança Nacional dos EUA. Dizem que o Sr Mercer está muito interessado nas eleições na Holanda, França e Alemanha em 2017. Ao contrário das suspeitas sobre a intromissão putiniana nas eleições americanas, isso são fatos. Agora ficamos a saber do aumento das despesas militares dos EUA. Pergunto: em que se baseiam as teorias de um conluio Trump/Putin? Pergunto onde esse governo americano recheado de generais e lobby da defesa vai fazer a próxima guerra? China? Irão? Como vamos na Europa lidar com o recrudescimento da agitação nos Balcãs? Diante destas incógnitas pergunto se as opções estratégicas do PS, PCF e BE têm algum tipo de resposta. A economia é grave, mas o mais grave é a guerra.

  8. Tendo sido os partidos PCP, PEV e BE os causadores do chumbo do PEC IV que assim sendo , provocaram a queda do governo, e a vitória eleitoral da direita, e que deram a oportunidade a estes de não cortar salários, pois não era necessário, de não cortar pensões, pois também não era necessário, de criar muita austeridade, pois então é que não era necessário, e até de privatizar empresas lucrativas como era o caso dos CTT… Nada era necessário ! A vitória da direita não foi como um parasita que se instala no seu hospedeiro, mas sim o hospedeiro que abriu as portas ao parasita, não por este ter omitido, mas sim por ter mentido à cara podre aos Portugueses

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