Ainda além da troika?


Nenhuma dúvida há-de restar no espírito da maioria dos portugueses sobre os méritos evidentes da Geringonça e os benefícios que o governo do Partido Socialista, apoiado pelos partidos da esquerda parlamentar, trouxe à sociedade portuguesa. Não é possível negar esta evidência, mais ainda em face da memória, recente mas perene, da mais brutal legislatura da democracia portuguesa, liderada pelo governo PSD/CDS.

Dito isto, em circunstância alguma deve considerar-se o actual governo, assim como a maioria que o apoia, imune ao erro e à crítica, e não deve também esquecer-se que no PS, partido plural e diverso nas suas sensibilidades sociais e ideológicas, há muito quem veja com relutância – para usar um eufemismo –  o processo de reposição dos direitos individuais, económicos e sociais, devastados pelos quatro anos além da troika que caracterizaram a anterior legislatura e o retrocesso civilizacional por ela provocado.

É neste contexto e com base nestes pressupostos que se torna um pouco menos festivo o número avançado pelo Ministro das Finanças para o valor do défice do ano de 2016: 2,1%. Este valor fica substancialmente abaixo daquele que tinha sido exigido pela Comissão Europeia, que tinha fixado os 2,5% como meta a alcançar pelo governo, aquando do encerramento do processo de sanções que pendia sobre o Estado português. Ora, este ir além da Comissão Europeia não é outra coisa, salvaguardadas, é certo, as devidas diferenças, que o ir além da Troika de má e dolorosa memória. Perante este tremendo “sucesso” das finanças públicas, uma espécie de regresso do “bom aluno” pródigo, agora em versão Geringonça, convém não esquecer que a habilidade estatística tão apreciada por Bruxelas sai do corpo dos portugueses, do investimento no seu país, do seu Serviço Nacional de Saúde, do seu Sistema de Educação, dos seus impostos, da debilidade e da debilitação dos seus direitos e protecção sociais. Se a Comissão Europeia exigia 2,5% e o governo deu 2,1%, há, de facto, 0,4% de austeridade a mais. É legítimo perguntar porquê.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    É lógico que a União Europeia, ao PS, apoiado na Geringonça, irá sempre pedir “recordes”, seja no deficit, no desemprego ou no crescimento económico, coisa essa, que nunca pediu, ou se o fez, fingiu que não viu, ao governo da PAF.
    E Europa hoje, é também aquilo que os PS/SPD europeus deixaram como legado aos seus eleitores. Por culpa própria. Daí não se poderem queixar.
    E vou-vos ser sincero. Já não acredito que isto lá vá, sem uma reviravolta a sério, estilo Maio68.

  2. Paulo Só says:

    O problema é que o contexto europeu é péssimo. Da França não há nada a esperar., infelizmente o Hamon parece ser fraco. Da Alemanha mesmo que o Schulz fique no lugar da Merkel muito provavelmente a coligação será reconduzida. Pois é difícil que o SPD aceite aliar-se à Links. Mas pode ser que alivie um pouco a pressão, porque também não são burros e vêem que as coisas caminham melhor com o Costa. E talvez consigam dar alguns passos na reforma das finanças, aproveitando o Brexit. Porque o problema nº 1 hoje são as Finanças, que ou se reformam ou estouram de novo.

  3. Paulo Só says:

    O Hollande, mais a Merkell, mais o Gentiloni, mais o Rajoy juntos não chegam a 50% de popularidade. Por isso não convidaram o António Costa. Só gostam de comida sem tempero. Ele poderia mostra-lhes de que especiarias de faz o caril… e a geringonça.

  4. Dever dinheiro é,muitas vezes mau, porque este é destinado a despesa fútil. Todos devemos ser criteriosos a pedir dinheiro. Devemos saber muito bem para que é, se podemos pagar sem prejudicar o essencial da vida ( alimentação, habitação, saúde).
    O Estado, as empresas e as famílias devem tender a não ter dívida, mas proveitos.
    Quem não tem banco sujeita-se às ordens de fora (BCE) e de quem manda nisto.
    Quem não manda amoucha.
    Mas pior de tudo é gastar-se o dinheiro das contribuições dos trabalhadores e das empresas e depois ainda culpá-los dos prejuízos reduzindo as reformas.
    Precisamos de produzir com energia barata e aquilo que os outros têm dificuldade a fazer.
    Apostar nas escolas e na saúde é vital para sairmos da cepa torta.
    O resto são cantigas politiqueiras para adormecer morcões

  5. Miguel says:

    0.3% são medidas extraordinárias (ex: PERES) segundo a UTAO.
    Logo o governo teve um défice de 2.4% sem medidas extraordinárias.

    Se no orçamento colocou 2.2%, e a 1° meta da Comissão Europeia era 2.3%, significa que houve 0.1% do PIB de austeridade a menos.

    Os 2.5% foram a 2° meta da CE, estabelecida a meio da execução, perante o menor crescimento e como mostra de tolerância da CE, merecida pelo gocerno após aceitar fazer 445 Milhões em cativações.

    Tudo isti mostra a estupidez deste post do Aventar, mas eu tenho ainda mais um argumento: o objetivo é deixar de ter défice de modo a baixar mais rapidamente a dívida. Quanto mais depressa lá chegarmos (sem por em causa investimento nem crescimento), melhor será.

    • Paulo Só says:

      Nem os meus netos vão pagar essa dívida. O problema é estrutural. Vamos pagar eternamente o BNP, o Deutsche Bank, UBS etc. Sabe que em 2014 os compromissos do UBS, incluindo operações OTC, representavam 146% do PIB suíço? o Deutsche Bank está a brincar com coisas do tamanho do PIB mundial. Essas dívidas não são para pagar, são para subordinar, são rendas deles. Os meus netos de qualquer forma já estão lá fora há tempo.

    • Bruno Santos says:

      Miguel, tem toda a razão. Peço imensa desculpa por ter escrito este post tão estúpido. Prometo-lhe que não volta a acontecer. Só espero que me perdoe. Obrigado.

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