A Lenda Negra


Não estamos esquecidos que uma das justificações dadas para a necessidade de um profundo ajustamento na economia e na sociedade portuguesas, ajustamento esse materializado num programa brutal de austeridade, que, em certa medida, ainda prossegue, foi a circunstância de Portugal, e o seu povo em particular, ter, ao longo de muito anos, vivido acima das suas possibilidades.

Esta acusação, que na verdade é um anátema racista, veio acompanhada de outras representações negativas dos portugueses, oriundas dos Think Tanks do centro da Europa,  segundo as quais no nosso país vive um povo de preguiçosos, de gente inábil e improdutiva, habituada a viver dos empréstimos que, com enorme sentido de caridade, os países ricos da Europa, onde milhões de portugueses carregaram tijolos e lavaram escadas por uma sopa e uma barraca, faziam o favor de conceder desinteressadamente.

Sabem os portugueses que tal acusação é uma falsidade que serviu apenas para conferir um carácter redentor ao brutal programa de ajustamento a que foram – e são – sujeitos, sacralizando o ofício – o sacrifício – de uma destruição económica, social, política e anímica sem exemplo, se exceptuarmos os tempos de guerra.

O que a maioria dos portugueses não sabe é que esse anátema sobre eles lançado pelos países da Europa Central, tem cerca de cinco séculos e foi criado por um espião holandês que soube infiltrar-se na Coroa portuguesa como guarda-livros de um missionário católico e roubar valiosíssimos segredos náuticos, cartográficos, políticos, estratégicos e outros, que viriam a permitir a holandeses, ingleses e franceses ocupar a posição que Portugal detinha na geografia civilizacional do Oriente. Mas, mais do que isso, Jan Huygen van Linschoten, holandês convertido ao Protestantismo, autor do Itinerário, Viagem ou Navegação para as índias Orientais ou Portuguesas, publicado pela primeira vez em Amesterdão no ano de 1596, deu início ao que vira a ser, nos séculos seguintes, um conjunto de ondas de choque da Lenda Negra sobre Portugal e a Europa do Sul, incluindo a Espanha, a Itália e a Grécia, cimentadas por filósofos eminentes como Kant ou Hegel. O Itinerário de Linschoten foi imediatamente objecto de várias traduções em latim, inglês, alemão e francês, adquirindo um estatuto ímpar enquanto fonte autorizada sobre o império português na Ásia e elaborando a imagem que passaria a identificar Portugal, e o conjunto dos países do sul da Europa, junto dos povos Protestantes.

A principal crítica que a Lenda Negra de Linschoten aponta aos portugueses que navegaram até à Índia no século XVI é a mestiçagem, acusando-os de imitar os hábitos e os costumes dos territórios que conquistavam, casando com mulheres locais e com elas gerando crianças amarelas, que à terceira geração “parecem ser indianos na cor e na feição”. Este facto, juntamente com a sensualidade e a luxúria de que eram acusados, faria dos portugueses um povo de preguiçosos, inapto para a conquista e governo dos territórios colonizados e, por via disso, por via da extrema dificuldade que demonstravam no domínio de si e das suas paixões, inaptos também para o governo de si próprios.

Kant chegou ao ponto de afirmar que a mistura de sangue que caracterizava os povos ibéricos, por via da proximidade com África e dos contactos permanentes entre diferentes geografias,  culturas e civilizações, tornava muito difícil defender que portugueses e espanhóis fossem, de facto, europeus. O filósofo alemão afirmava, pelo contrário, a existência de uma diferença civilizacional, resultante de uma diferença rácica, que colocava os povos ibéricos num patamar de desenvolvimento inferior e explicava o seu estado de decadência.

A Lenda prossegue.

Comments

  1. tá bem tá says:

    a grécia apanha por tabela. com a ajuda de um alucinado português chamado josé rodrigues dos santos e da sua vergonhosa reportagem de mentiras na grécia aqui há tempos.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Se calhar o fascista do Erdogan lá terá, pelo menos uma vez, razão quando aponta tiques nazis ao governo alemão.
    Ora olhem-me para a cara daquele Schaublle e digam-me lá se, um chapéu das SS não lhe ficava mesmo a matar.
    E agora pegando no tema de outra forma, dir-se-á que a Alemanha, tal como a Áustria, nunca retirarão dos seus genes aquela suprema obsessão pela raça ariana pura.
    Por isso o tema da mistura do sangue lhes é particularmente (des)querida …

    • Rui Naldinho says:

      Excelente ironia, e muito bem metida.
      Esse é um daqueles remates com a bola ao ângulo superior.

  3. Paulo Só says:

    Infelizmente as coisas são complexas. Leio com bastante apreensão a coluna de hoje no Público, assinada pelo Ricardo Cabral, sobre o acordo de recapitalização da CGD com a DGCom, coluna cuja conclusão é a seguinte: “o capital regulatório da CGD será, para sempre, em parte, privado, sempre sob o risco de conversão em capital acionista por decisão do BCE (estrangeiro) e. potencialmente, de tribunais estrangeiros (Luxemburgo). Como se explica este detalhe do acordo? Era mesmo necessário recorrer a esta dívida perpétua? E emiti-la no Luxemburgo?”.

    Eu tenho defendido o Centeno aqui em várias ocasiões, mas às vezes penso que ele deve estar muito sobrecarregado e não ler os papeis até ao fim. Por outro lado acho muita graça à esquerda, à direita , e ao Presidente todos com faniquitos por causa do fechamento das agências da CGD. Para fazerem popularucho e patriota, quando o acordo de recapitalização com Bruxelas não foi tornado público. O fechamento dessas agências não estará incluído nesse acordo? Tenho a ligeira impressão que ou eu sou burro, ou estão loucos, ou a brincar conosco ou ambos. E francamente diante de tanta demagogia eleitoraleira, acho que vou deixar de seguir o noticiário desta república de bananas. Só falta o ex-ministro holandês ser contratado pela a UE, depois dos socialdemocratas serem arrasados nas eleições no seu país. Mas o que é isto? É um clube de bridge? Esse socialista que passe aqui na rua que leva é um pontapé na bunda, como se diz no Algarve do nosso Centeno.

Trackbacks

  1. […] ao Estado Português. Essas declarações, de teor racista, são não apenas a confirmação da Lenda Negra sobre Portugal e o sul da Europa, mas a reafirmação da natureza punitiva do Programa de […]

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