Louro, de bico doirado


 

No meio da desinformação, comum nestes casos, produzida por várias fontes sobre o sistema financeiro português, não é fácil, aos cidadãos comuns como nós, compreender um longo processo de conquista que conheceu, agora, mais um momento importante, com a alienação do Novo Banco, e que, provavelmente, prosseguirá com o desmantelamento do que resta. O que está, e sempre esteve, em causa, pode resumir-se a um acto de sofisticada pirataria, longa e meticulosamente preparado, cujo propósito foi a captura total do poder financeiro português.

Podemos, e devemos, fazer juízos éticos, políticos e até judiciais, sobre os bancos e os banqueiros, cuja árvore genealógica se perde na Ordem do Templo, sobre o seu poder efectivo na governação de sociedades hoje ditas democráticas, Estados de direito e outras projecções discursivas muito adequadas a um mundo que, de facto, já não existe. Mas não podemos negar que esses bancos e esses banqueiros, herdeiros directos dos Templários, são pilares estruturantes das nossas sociedades e detêm, de facto, o poder de influenciar o destino de países bem maiores do que Portugal. Mesmo que Portugal fosse do tamanho do mundo inteiro.

O desmantelamento e a captura do último vestígio do poder financeiro português, representado no extinto Banco Espírito Santo, agora entregue a um fundo pirata, insere-se num processo bem mais longo de chantagem sobre Portugal e de ataque, não directamente à sua soberania formal, mas aos instrumentos próprios necessários para garanti-la com um grau de autonomia razoável.

Antes de atingir o sistema financeiro que, na verdade, constitui um plano já bastante subtil da estrutura vital do país, esse ataque visou instrumentos de soberania com expressão material no corpo físico da economia e na fisiologia produtiva. Basta que nos lembremos das quantidades enormes de recursos financeiros que, qual maná ou chuva divina, foram diariamente despejadas no país, vaso comunicante com os seus dignitários, para que este desmantelasse toda a sua estrutura produtiva e alienasse o seu parco mas maior bem. Da Pesca à Agricultura, passando pela Indústria, a pirataria internacional pagou, não muito, é certo, para que Portugal cedesse os instrumentos basilares da sua soberania e da sua dignidade de nação. Fê-lo, Portugal, com um contentamento por vezes pueril, identificando nos famosos “Fundos Estruturais” o regresso do Desejado e inscrevendo as suas opções estratégicas, mais uma vez, num plano mitológico bem adequado aos tempos que se seguiriam, os quais representariam uma espécie de queda do céu e um fim da História para um país com quase mil anos de existência inexplicável. Se já tínhamos trocado o ouro do Brasil por calças de fazenda inglesa, nada nos desaconselharia a trocar a capacidade de produzir, o que quer que fosse, pelos milagrosos “fundos estruturais” que, aliás, tão bem empregues foram em carros todo o terreno, vivendas e viagens aos antípodas. Entretanto arrancavam-se as árvores de fruto, fechavam-se fábricas de camisas e abatiam-se as frotas de pesca.

A par desta destruição dos sectores produtivos da economia, deu-se uma não menos profunda colonização cultural do país, tendo sido concretizado um esforço enorme mas competente para convencer o povo português de que era “Europeu”, civilizado como os ingleses, os alemães ou os franceses – até os dinamarqueses foram evocados -, e que deveria adoptar – a bem ou a mal – os valores históricos e culturais desses povos, à custa, se necessário fosse, dos seus próprios e decrépitos valores históricos e culturais. Esse esforço teve igualmente sucesso. Portugal é hoje um país sem identidade que ultrapasse o folclore turístico e o criado de mesa. Um país que vê o seu património histórico – principalmente o filosófico – degradar-se diariamente sem que ninguém pense senão em vendê-lo ou enterrá-lo onde o futuro o não encontre. É um país que perdeu o respeito pela sua língua, pelos seus poetas e pelos seus heróis, cuja dignidade usa cerimonialmente em datas festivas de simbolismo cada vez mais falso e vazio, mas cuja memória não guarda nem verdadeiramente respeita.

Em face disto, tanto o negócio do Novo Banco – entregue, sob chantagem, aos piratas – como a declaração de impotência perante os seus agentes internos e externos, não podem ser levadas na conta de uma malfeitoria dos actuais e principais agentes do poder político, designadamente Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Dadas as circunstâncias, que são responsáveis por, pelo menos, metade da natureza humana, eles fizeram o que puderam e, muito provavelmente, com a melhor das intenções.

Mas este não é o caminho. Mais do que isso, isto não é Caminhar.

Comments

  1. Paulo Só says:

    Pessoalmente não sinto essa falta de identidade ou de dignidade. Fico até muito feliz quando vejo os resultados da produção científica portuguesa recentemente divulgados. É claro que é lamentável que a globalização financeira nos tenha apanhado como sempre carregados de dívidas e que a UE não tenha sabido/querido nos proteger, antes pelo contrário. E ainda que as autoridades portuguesas de então fossem no mínimo incompetentes, ou coniventes. Mas o mundo não acabou ontem. E temos hoje a população mais preparada de sempre, e que pode ainda progredir. O grande problema que temos de enfrentar é o da demografia, que obviamente está ligado a essa situação de desemprego. Mas que se pode combater nomeadamente através da imigração.

  2. Paulo Só says:

    Quanto à venda do louro na Baixa lisboeta, podem proibir a venda do louro, o que é meio ridículo, mas podem também autorizar a venda de Canabis em locais previstos para esse efeito, resolvendo assim a questão do “logro”.

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