Vacinem as criancinhas


Parece que a moda de não vacinar crianças emigrou dos Estados Unidos para Portugal. Com o advento da Internet, os paizinhos armaram-se em médicos e chegaram à conclusão que as vacinas causam autismo e problemas intestinais, e afinal de contas antes ter um filho que morre com sarampo ou meningite do que ter um filho autista. Não interessa que os sites que transmitem essa informação sejam muito pouco fidedignos e que qualquer médico minimamente credenciado diga que não é bem assim. Não, não, “eu é que sei o que é melhor para o meu filho” diz a mãe que acha que o site da AIA é mais credível do que os vários médicos do seu pequeno rebento.

Eu não sou tão benevolente como o doutor Mário Cordeiro que acredita “que a solução não passa por tornar obrigatório, mas antes por ser mais incisivo em “desmontar as enormidades e falsidade que se dizem e propagam pelas redes sociais contra as vacinas” e que “qualquer obrigatoriedade exige apuramento de responsabilidades, que é muito complexo numa situação destas, e também coimas ou equivalentes, que iriam penalizar os mais desfavorecidos ou menos abrangidos pela informação”. Eu entendo que o apuramento de responsabilidades seja difícil, mas também me parece difícil que os pais de uma criança que nasce em 2017 em Portugal não tenham meios de se informarem sobre a vacinação. Até porque já não vivemos no século XIX e as crianças nascem normalmente em hospitais ou rodeadas de pessoal médico. E portanto, eu sou obrigada a constatar que quem não vacina o filho ou é porque não quer saber e não se interessa, o que é mau, ou porque tomou a decisão consciente de não o fazer porque leu na internet que faz mal à criancinha, o que ainda é pior. Tanto num caso como noutro, parece-me negligente.

“Ah mas a escolha cabe aos pais”. Não, não. Se um adulto não se quiser vacinar contra o tétano é lá com ele. Se um adulto não quiser vacinar uma criança então o problema ultrapassa-o porque no fim quem é prejudicado é a criança.

Conclusão: eu percebo que a nostalgia do passado seja fortíssima, e ai, ai temos de deixar a natureza tomar o seu rumo, mas relembro que em 1920 a esperança média de vida em Portugal era de 35 anos e agora é de 81. É evidente que isto não se deve somente à vacinação e à medicina moderna, mas o facto é que as sociedades humanas evoluíram no sentido – e talvez mesmo com o objectivo – de se maximizar as hipóteses de sobrevivência da população. E as vacinas contribuem para isso.

Comments

  1. Manuel Torres da Silva says:

    De acordo com tudo, mas há que exigir mais.
    Propagar uma doença é crime. E é crime público, ou seja, não depende de queixa de ninguém. Basta a notícia e basta que o MP promova a investigação e deduza a acusação. Só.
    Além disso, esse crime está previsto no capítulo do Código Penal dedicado aos crimes de perigo (artigo 283º), ou seja, não é preciso ficar à espera dos danos, basta que a especial perigosidade da não vacinação se prove e se comprove.
    Por conseguinte, a recusa de vacinação é um crime susceptível de perseguição criminal a cargo do Ministério Público, logo à cabeça.
    É esta parte que quase ninguém recorda, quando vê os médicos conscientes e responsáveis a insurgirem-se contra a ignorância, nem sequer reivindicando a vacinação obrigatória, que, de facto, seria outra inutilidade.
    Não há necessidade.
    Basta bater à porta do Ministério Público e fazê-lo agir, lembrando-lhe que nem era preciso fazê-lo agir. E, em caso de inércia, há por aqueles lados uma hierarquia que tem no topo a Procuradora Geral Joana Marques Vidal.
    Os pais que não vacinam as crianças andam a fiar-se na inércia do Ministério Público. Com algum êxito, admito. Mas muito perigoso e irresponsável.
    E alguns de nós andamos a ser distraídos por interesses obscuros, que até brinca com estas “modernices.”
    Cumpra o seu dever, ó Ministério Público!

  2. joão lopes says:

    o que sobra em informação(muitas vezes mentirosa,sim senhora,mas muitas vezes tambem porque as pessoas hoje em dia,nem sequer pensam dois segundos sobre o que leram) ,falta em formação,educação,urbanidade.

  3. Sim, tudo o que referem, mais a ideia dos pais de que são “proprietários dos filhos ou de outra forma donos.
    Esquecem que as crianças são também um Bem para toda a Comunidade e como tal o Estado tem (supletivamente, claro) “uma palavra a dizer sobre assuntos das crianças”.
    No caso das recusas em vacinar as crianças, o Estado (organizações de saúde com predomínio dos cuidados de saúde primários e escolas foram negligentes ou dito de outra forma assobiaram para o ar.
    Também as “baboseiras” sobre saúde que abundam por aí não ajudam nada, porque é preciso andar continuamente a desfazer as papagaiadas da “net” e a boataria. desmiolada.
    Estamos em guerra…

  4. Konigvs says:

    Sabes Daniela, se tu tivesses sido uma criança, uma das muitas crianças que neste país, por causa de uma vacina que os teus pais te obrigaram a tomar, tivesses ficado surda, se calhar, digo eu, não crescerias a defender esse dogma tão fundamentalista das farmacêuticas, que tudo o que fazem é pelo bem da Humanidade.

    Queres obrigar a toma das vacinas? Primeiro duvido que o consigas do ponto de vista legal – sabes o que é uma coisa chamadas Constituição? – depois fazemos assim: por cada pessoa que tenha efeitos secundários adversos pagas 10 Milhões de Euros. Porquê 10 milhões? Porque se as vacinas são totalmente seguras, então nada de mal ocorrerá. Mas se ocorrer, então que se pague a mesma probabilidade de acertares no Euromilhões. Parece-me justo.

    A suposta eficácia das vacinas ficou bem demonstrada pela comunidade médica. E quem percebe de doenças são os médicos. De saúde nada sabem, mas de doenças são especialistas como ninguém. E aquando da tão propalada pandemia mundial – iam morrer milhões de pessoas por causa da gripe A – foi sintomático que mais de 50% dos médicos e enfermeiros portugueses se tenham recusado a tomar as mesmas vacinas que mandam os outros tomar. É mais ou menos a mesma coerência que um tal de Dr. Oz aconselhar os pais a darem as vacinas aos filhos, mas depois recusa-se a dar as mesmas vacinas que prescreve aos seus próprios filhos. Sabes o que ele diz? No consultório sou o Doutor. Oz, mas em casa tenho quatro filhos e sou o Senhor Oz. Porreiro pá.

  5. Ó Koni,
    Deixa-te de afirmações infundadas.

  6. Splash says:

    faltou no seu artigo mencionar o laboratório patrocinador.

    • Filipe says:

      E no seu comentário, faltou indicar os contactos da sua clínica homeopática? Deixemo-nos de brincadeiras e de crenças infundadas. Hoje faleceu uma adolescente de 17 anos.

      • Daniela Major says:

        É de referir, Filipe, que a rapariga que faleceu não tinha sido vacinada por ter feito reacção alérgica a uma vacina anterior. Não temos informações suficientes sobre a saúde da rapariga e sobre aquilo que foi dito aos pais na altura da vacinação. Além disso, ela faleceu derivado de complicações e nós não sabemos o quadro clínico completo dela para dizer com segurança o que levou a essas complicações.

        O texto, contudo, não era sobre ela ou sobre nenhum caso em especifico, mas sim sobre uma tendência geral que não sendo maioritária começa a afirmar-se através da internet, como apontou o médico citado. Prova disso, aliás, são os comentários a este post e os dados deste artigo http://observador.pt/2017/04/19/7-graficos-que-explicam-o-surto-de-sarampo/

  7. Adoecer não é um processo aleatório. Depende dos nossos comportamentos individuais e da estrutura social e de saúde.
    Mais do que as tecnologias de tratamento, o acesso a água potável, saneamento básico, bom acesso aos cuidados de saúde onde se inclui a vacinação (SNS) fazem uma sociedade saudável.

  8. Ernesto says:

    A questão que quero colocar a todos os pais que, legitimamente são “anti-vacinas. é a seguinte:

    O que é que acham que aconteceria a nível de saúde pública se o número de não vacinados numa sociedade fosse de 90%?

  9. Cada um deve assumir que cabe a si ouvir todos mas decidir por si o que quer. Mas para que essa regra básica seja efectiva tem que assumir as consequencias com a mesma liberdade e responsabilidade. Não vão os outros (nós) pagar tratamentos caros para corrigir as idiotices de canalhas que embarcam em homeopatias e não vacinação(que têm todo o direito a optar) ; serão eles com toda a responsabilidade e liberdade a assumir o que optaram.

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