Trumpete


Há-de haver quem tenha reparado na súbita generosidade do directório europeu para com Portugal. Parece ter-se diluído, de um momento para o outro, o velho discurso das imperiosas reformas estruturais, da necessidade de manter o rumo, a ameaça do congelamento de fundos e outras sanções, que chegaram a obrigar o primeiro ministro António Costa a evocar o Tribunal de Justiça da União Europeia, afirmando que a ele recorreria se tais castigos viessem a ser levados à prática.

Hoje o cenário está bastante diferente, ao ponto de, sem desprimor, como aqui já foi escrito, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros e o meritório trabalho diplomático que vem realizando, nos terem permitido ganhar um Festival da Eurovisão com uma canção cantada na língua impronunciável de Camões.

O Sr. Schäuble comparou o Ministro das Finanças, Mário Centeno, a Cristiano Ronaldo – parece querer vê-lo na liderança do Eurogrupo – e até a própria senhora Angela Merkel, um Mao Tsé Tung a cores, e que, não há muito, se se referia a Portugal era para passar raspanetes avisados e oferecer lições maternais sobre a arte de bem governar um país do sul em processo de empobrecimento, parece agora rendida ao discurso da coesão, afirmando, em tom dramático, que a União Europeia tem de tomar o seu destino nas suas próprias mãos e não pode depender inteiramente dos EUA e do Reino Unido, países com os quais parece ter sido aberto um conflito político e estratégico.

A súbita elegia sobre Portugal e o seu governo há-de ter origem, certamente, em razões objectivas e quantificáveis, como as estatísticas que têm vindo a ser publicadas sobre a economia nacional parecem demonstrar. Dá-se o caso de podermos estar perante uma espécie de versão geringonçada do bom aluno, que decidiu estudar para o exame por um manual diferente daquele imposto pelo mestre-escola e, ainda assim, sem batota visível, conseguiu ser aprovado com distinção.

Mas a razão fundamental para esta mudança de atitude e de discurso por parte da Alemanha resulta, em primeiro lugar, da profunda alteração geopolítica nascida do Brexit e da eleição de Donald Trump nos EUA. Estes dois factores vieram colocar em causa o actual (des)equilíbrio de poderes no interior da União Europeia, provocando uma pulverização do centralismo burocrático de Bruxelas e criando potenciais canais alternativos dedicados, paralelos, de diálogo e negociação político-económica entre os EUA, o Reino Unido e cada um dos membros da UE, individualmente considerados. No fundo, trata-se da ameaça de um desmantelamento informal do poder alemão sobre a Europa, através da imposição de um modelo de relacionamento diplomático bilateral entre EUA/RU e os diferentes Estados da UE, para tal recorrendo à engenharia jurídica necessária e possível ou, se for caso disso, ao simples facto consumado, forrado a libras, dólares e a bombas.

Além disto, o que as políticas de austeridade e empobrecimento, cerne da ideologia liberal, impostas pela Alemanha em território da UE, conseguiram alcançar, no que toca à geometria político-partidária, foi a pasokização generalizada dos partidos socialistas da Europa, movimento que foi acompanhado por um crescimento muito significativo do populismo reaccionário, da extrema-direita racista e, principalmente, da degradação e do descrédito da própria democracia. Esta surpresa desagradável constitui-se também como ameaça séria ao imperialismo económico alemão sustentado na moeda, na captura ideológica e operativa das instituições europeias e no cerco jurídico dos Tratados. Tudo isto contribuiu para o fortalecimento da posição negocial de países como Portugal, legitimando uma prática político-diplomática divergente do discurso europeísta, conduzida com a informalidade e o recato necessários ao bom sucesso de uma estratégia de emancipação gradual do regime de protectorado.

Neste contexto, dá-se a feliz circunstância de termos a chefiar o governo português um primeiro-ministro inteligente e pragmático, que tem sabido construir um discurso autónomo e afirmativo, quer para dentro, quer para fora, tal como tem conseguido manter o equilíbrio, difícil mas necessário, entre aquilo que é a verdadeira natureza ideológica do PS profundo – e a sua atracção irreprimível pela “auto-pasokização” – e a necessidade de manter, por agora, compromissos úteis com os perfis políticos do BE e PCP. Se é verdade que o governo socialista, apoiado por essas forças de esquerda e por um Presidente da República que faz de Maquiavel um menino de coro, conseguiu produzir uma visível descompressão no país, sustentada no discurso mais do que na prática política mas, ainda assim, com ímpeto social suficiente para marcar uma diferença substancial com os quatro penosos anos da governação anterior, não devemos esquecer que tal se deve, em grande medida, à pressão exercida pela ausência de uma maioria absoluta no parlamento. É fundamental que esta pressão se mantenha, ou mesmo se reforce, para que outros progressos possam vir a ter lugar.

Comments

  1. JgMenos says:

    Assim progrida o défice e a dívida e logo se verá – basta duas palavras do presidente do BCE, nem precisa de falar mais ninguém.

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