O fim da Caves de Vinho do Porto


O jornal PÚBLICO noticia que arrancou hoje um projecto imobiliário e turístico no coração do Centro Histórico de Vila Nova de Gaia, implicando a destruição de centenários Armazéns de Vinho do Porto e uma intervenção que afectará uma área superior a 30 mil metros quadrados numa das mais belas e exclusivas paisagens urbanas do mundo.

De facto, esta zona da cidade de Gaia é conhecida mundialmente pela beleza da sua textura arquitectónica única, dominada pelos telhados dos seus Armazéns, as famosas Caves, que estabelecem com o Rio e o núcleo urbano da Ribeira do Porto um cenário cuja beleza não se repete em lugar nenhum do mundo.

O que se iniciou hoje foi o fim desse património intemporal, que se constitui como pilar da identidade não só desta região, mas do próprio país, e que agora se prepara para uma total descaracterização, vendo-se transformado num centro comercial a céu aberto, com o pomposo nome de World of Wine.

Segundo a notícia, o projecto previsto para o local, contíguo ao Hotel Yeatman e que implicará a demolição e total descaracterização dos antigos Armazéns, é uma espécie de Disneylândia do vinho, um corpo estranho ao perfil histórico, sociológico, estético e arquitectónico do local, onde abundará o cimento e o vidro, dedicado aos turistas e prevendo uma “Praça”, museus “interactivos”, 12 restaurantes e, como não poderia deixar de ser, um parque automóvel com capacidade para 150 viaturas. Tudo isto no coração do Centro Histórico de Gaia e com os portugueses a servir à mesa, como bons criados.

Maqueta do projecto

É verdade que já não há muito quem se choque com a degradação, ou mesmo com a destruição do nosso património material e imaterial. De festas privadas nos Jerónimos a botijas de gás no Convento de Cristo, tudo vale no combate pelo aniquilamento da memória e do legado de quem nos antecedeu na construção contínua desta estranha entidade chamada Portugal. A par desta demissão cívica, deste abandono moral, há uma geração de políticos e responsáveis públicos formados no caldo da moscambilha e da ambição pessoal megalómana, capazes de prostituir o que de mais íntegro e autêntico o seu país possui, em nome do seu interesse imediato e ao serviço das redes de poder das quais são meros fantoches. Tudo isto sem qualquer oposição, cívica, jurídica ou política. Ou quase nenhuma.

Comments

  1. Tudo certo menos essa lengalenga dos “portugueses a servirem à mesa como bons criados”. Quando vamos ao estrangeiro também nos servem à mesa e ninguém está a pensar em criadagem. É trabalho amigo. Menos snobismo e mais respeito que nem todos podem ser doutores.

    • Bruno Santos says:

      Não costumo ir ao estrangeiro e muito menos frequentar lá restaurantes, mas desejo-lhe bom proveito.

  2. Ana A. says:

    Eu nasci em Gaia, (em 1955, Candal) e tendo o meu pai trabalhado nas caves Gonzalez, Byass & Cª, resultou que estou ligada, afectivamente, ao vinho do Porto. Aquela zona deveria ser preservada sem qualquer dúvida. A notícia informa que são armazéns abandonados, ora porque é que na rua das Flores e Mouzinho da Silveira houve reabilitação de prédios mantendo o essencial e neste caso arrasam para construir de novo, um mamarracho?! E por onde andam as assembleias das câmaras municipais e das juntas de freguesia? Estarão todos de acordo?!
    Há tantas petições públicas sem pés nem cabeça, e porque é que a população não se organiza para defender o património?! Eu já não moro em Gaia desde o final dos anos 80, mas o meu coração é gaiense.

    • JgMenos says:

      Gaia é desde sempre um exemplo pleno da bandalheira urbanística e corrupção autárquica.
      Nem verde nem coerente parece a norma.

  3. Eugénio de Sousa Coimbra says:

    A construção do Yetman, totalmente desenquadrado da paisagem onde está inserido, foi o “pontapé de saída” para outras acções, que eu classificaria de criminosas, como esta que estamos a ter conhecimento.

  4. Paulo Schreck says:

    A partir do momento em que deixiu de ser obrigatório os vinhos do Porto estagiarem em Gaia, deixou de fazer sentido para uma grande parte dos produtores lá armazenarem os seus vinhos.
    Estes armazéns, sem os tonéis, pipas e balseiros la dentro, não passam de basicos armazéns sem nenhum interesse arquitectónico. As Cidades vivem para serem renovadas e adaptadas às necessidades do presente.
    Acredito que a inovação de hoje será a tradição de amanhã. Por isso, faz todo o sentido criar estruturas que marquem a nossa era com o objectivo de contar estórias sobre a nossa história em lugares que estariam de outra forma condenados ao abandono.

    • Bruno Santos says:

      Uma vez que já não se celebra culto na Igreja de São Francisco, talvez se devesse demolir, seguindo a sua lógica.

  5. Miguel says:

    Só mesmo quem não conhece o projecto pode produzir semelhantes enormidades. Não as caves não vão acabar. Apenas se vão aproveitar armazéns desactivados.

Trackbacks

  1. […] via O fim da Caves de Vinho do Porto — Aventar […]

  2. […] O fim das Caves de Vinho do Porto Ligação do Artigo para as imagens referidas pelo Sr. Adrian Bridge: […]

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