Epidemiologia da corrupção


Uma das estratégias utilizadas por aqueles que têm na corrupção o seu principal modo de vida é a sua vulgarização social. Espalhando por todo o lado o vírus do crime, infectando as instituições, os órgão do Estado, as empresas e a sociedade em geral, com essa maleita do apodrecimento moral, o corrupto pretende inscrever na ordem da prática e do discurso, no plano da legitimidade tácita, da aceitação pelo uso repetido e prolongado, um comportamento que é recusado e punido pela ordem jurídica e pelo princípio da liberdade e dos bons costumes.

O processo funciona de modo análogo à neurofisiologia da percepção. Se expusermos alguém, durante um longo período de tempo, a cheiros nauseabundos que suscitem inicialmente no organismo uma reacção de repulsa, a dada altura tem início um processo de adaptação neurofisiológica a esses cheiros, a essa agressão, adaptação essa que passa por ensinar ao corpo a reconhecê-los e registá-los como inócuos. Ou seja, a integrá-los no repertório de cheiros aceitáveis sob o princípio da homeostase. A partir daí o seu efeito sensorial será nulo, ter-se-á desenvolvido tolerância, integração, e desaparecido a sensação de náusea. Mas a toxicidade mantém-se inalterada. É isso que se passa com a disseminação da corrupção e a aparente indiferença social que ela suscita.

Ainda há poucos meses, um conhecido professor de Coimbra publicou na comunicação social um texto execrável que, além de execrável, era um plágio de um outro texto, escrito por um comparsa seu. Como o texto do comparsa, além de execrável, constituía um crime, o professor de Coimbra, conluiado com o potencial criminoso, tentou, pela sua reprodução, vulgarizar o seu conteúdo usando a disseminação, a exposição ampla, procurando inscrevê-lo numa ordem discursiva quotidiana e banal, de aceitação pelo uso, pelo hábito e pela repetição. O lente achou que reproduzindo o crime, tornando-o viral, espalhando-o pela paisagem social como quem espalha estrume pelo campo, conseguiria integrar o odioso na ordem comum e fazer desaparecer, por integração e osmose, o cheiro pútrido e o próprio crime, ajudando assim o seu “amigo”. O mais que alcançou foi conspurcar ainda mais o mundo, conspurcando-se a si próprio e tornado-se cúmplice de um potencial criminoso.

Assim, o combate à corrupção passa, em primeira instância, por uma recusa social do crime e pela respectiva punição moral e democrática, através do voto, por exemplo. Se o corrupto pode, através de um conjunto nebuloso de estratagemas radicado na engenharia jurídica, fintar o sistema judicial, fugindo muitas vezes à pena que este lhe aplicaria, não deve poder escapar à censura social e à respectiva punição. A verdade é que, normalmente, escapa. E isso é um problema de cidadania e não do sistema de Justiça.

Comments

  1. Inteiramente de acordo.

  2. Mas o “sistema de justiça” não é uma entidade externa à cidadania. O sistema de justiça é uma construção social e política e, por isso, deveria beneficiar de uma cidadania mais activa.

  3. Rui Naldinho says:

    Estou completamente de acordo consigo. O seu texto é uma excelente intervenção cívica. Mas colocava-lhe a questão:
    Andamos há anos a votar contra eles, os corruptos. Ou seja, rejeitando em cada eleição, os “presumíveis corruptores” no Poder, votando noutros, na expectativa de que estes sejam talvez melhores. Eleitos, passados meia dúzia de meses começam as movimentações em torno de novos casos, compadrios vários, tráfico de influências, etc…
    Então, o que fazer? Abstermo-nos? Votar em Branco?
    Conclusão:
    Só quem não esteve de facto no Poder, se pode insinuar como “incorruptível”.
    Mas será mesmo assim? Dúvido!
    Eu tenho uma teoria muito provinciana sobre todos aqueles que estão na calha para grandes voos na política. Seja de que orientação política forem, mesmo os comunistas.
    1. Há os corruptos que fazem obra, mas “governam-se”.
    (E aqui o governar não tem necessariamente de ser dinheiro. Por ex: arranjar tachos para a família quase toda. Construir numa determinada zona um empreendimento, com aprovação garantida, porque alguém que decide lhe é afecto.)
    2. Há os incorruptíveis, que fazem só o que podem, e provavevelmente pouca obra, por esse facto.
    (mas na autarquia ao lado, o corrupto faz obra que se farta, para gáudio das populações)
    e por fim,
    3. Há os que nunca foram postos à prova. Nunca foram tentados, pelo pecado da ganância.
    Os últimos são a maioria de nós. Os primeiros e os segundos são uma minoria, ainda que sejam esses que despertam as maiores paixões políticas.

  4. JgMenos says:

    Não sei se concordo – para além da neurofisiologia da percepção – porque não sei do que fala.
    A censura social pressupõe princípios reguladores, que para todos eles se podem encontrar corruptos e criminosos.
    Corruptores sem princípios claramente enunciados e adquiridos não há.
    Se quiser começar pela propriedade – a privada, a do Estado – veremos aonde isso nos levará.

  5. José Fontes says:

    Ó olharapo Menos:
    Vacilar e a duvidar se deves concordar ou não é muito mau para a missão de um troll como tu.
    Deves estar sempre contra tudo e contra todos, incluindo tu, nem deves concordar com o que tu próprio dizes.

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