Falha total do sistema de Protecção Civil


© Expresso

A consternação, cada um que a viva a sós consigo, para que ninguém mais possa avaliar a sinceridade com que o faz.
A denúncia da tentativa de desresponsabilização imediatamente iniciada por governantes e políticos, essa, deve ser pública e sem tréguas.

Há vários factos inéditos nesta tragédia. Um deles é a imediata resposta do sistema de propaganda e contra-informação que, de modo muito eficaz, procurou culpabilizar a trovoada seca e os relâmpagos pela absoluta inaptidão dos meios de protecção civil, inaptidão essa que ainda há poucos dias foi denunciada, pela segunda vez, pelo presidente da Câmara Municipal de Vila Real e líder dos autarcas socialistas, a propósito do acidente ocorrido no túnel do Marão que, felizmente, causou apenas danos materiais. Desta vez.

A “optimização de recursos” e o governo do país guiado pelas folhas de Excel tem os seus custos. Por vezes incomportáveis, como é o caso vertente. Em ano de eleições autárquicas, seria importante avaliar a quantidade de dinheiros públicos que estão a ser desviados para festas, festivais culturais, conferências sobre investimento inteligente, inaugurações de pedras, subsídios a instituições para compra de votos, pagamento a snipers anónimos que campeiam pelos blogues, perfis falsos de feicebuque, compra de meios de comunicação locais e o mais que constitui o regabofe dos orçamentos autárquicos em ano de eleições, ao mesmo tempo a que se assiste à degradação contínua dos serviços públicos e ao abandono do interior do país.

Sábado, 17 de Junho de 2017, cerca das 9h00, quase toda a comunicação social fez eco do aviso lançado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que colocou quatro distritos em Alerta Vermelho, prevendo temperaturas de 44 graus para algumas zonas do país e elevado risco de incêndio em praticamente todo o território, com natural agravamento nas zonas do interior.

Eram 14h00 quando o incêndio teve início, em Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande. Só às 19h00 o IC8 foi cortado, entre a zona industrial de Pedrógão e o nó de Outão. Estavam no terreno 180 bombeiros, dois meios aéreos e 52 viaturas, num dos maiores incêndios de sempre em Portugal. A Barragem do Cabril, um imenso reservatório de água, fica a escassos dois ou três quilómetros do centro de Pedrógão Grande.

Às 21h30, já com várias aldeias cercadas pelas chamas, um bombeiro desaparecido, vários feridos entre civis, o Presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande afirma: “É impossível acudirmos a todas as aldeias. Estamos a todo o custo a ver se nos chegam bombeiros de Lisboa”.

Às 23h45, quase dez horas depois do início do incêndio, o Secretário de Estado Jorge Gomes fala e confirma a morte de, pelo menos, 19 civis.

Às 00h35 o primeiro-ministro chega à Autoridade Nacional de Protecção Civil. Cinco minutos depois, chega o Presidente da República a Pedrógão Grande, afirmando que “se fez o máximo que se podia ter feito”.

Às 5h00 o Governo declara “estado de contingência activa”, explicando que “isso torna possível o acesso a mais meios e a outras possibilidades” (!)

Às 9h00 confirma-se a existência de 43 vítimas mortais.

Às 10h00 estavam no terreno, segundo o jornal Expresso, “cerca de 800 operacionais, apoiados por 244 viaturas”. Quando chegaram, não se sabe.

Às 10h10 o director da Polícia Judiciária afirma ter sido encontrada “a árvore que foi atingida por um raio”, alegadamente responsável pelo maior e mais mortífero incêndio de que há memória em Portugal.

Às 10h30, cerca de vinte horas depois de ter início o incêndio, chegam meios aéreos de Espanha e estão a caminho três aviões fornecidos pela República Francesa.

Às 13h30 o governo decreta três dias de luto.

 

Paulo Fernandes, do departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em declarações à RTP, afirma que houve uma “falha total do nosso sistema de proteção civil”. Em causa, por exemplo, “o não encerramento de algumas estradas ao trânsito” e o facto de “não haver um único meteorologista especializado em incêndios florestais que esteja a trabalhar em situação operacional.

 

Comments

  1. José Fontes says:

    Bruno:
    Em vez de se andar a encontrar culpados, que parece ser tanto a nossa ocupação permanente como o nosso passatempo, porque não pensar as coisas de outro modo?
    Vale a pena ler este artigo com atenção:
    Incêndios: “O que temos no território são torneiras do gás acesas”
    https://eco.pt/2017/06/18/incendios-o-que-temos-no-territorio-sao-torneiras-do-gas-acesas/
    Neste artigo, Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista, defende uma estratégia totalmente diferente no combate e prevenção de incêndios.
    – “Os fogos não se apagam com água. Isso é uma parvoeira.”
    Portugal sem fogos é “uma mentira trágica”
    – Há condições naturais para a existência de muitos, muitos fogos em Portugal. É uma inevitabilidade e é um elemento natural.
    – A opção não é a de ter fogos ou não ter fogos. A opção é entre ter fogos como queremos ou como não queremos.
    – É como se nós tivéssemos em casa a ideia de deixar os bicos do gás acesos e dizer ‘meninos, agora ninguém risca um fósforo ou ninguém faz uma faísca’. Ninguém faz isso em casa. Toda a gente sabe que, de uma maneira ou de outra, há de haver uma faísca.
    – Henrique Pereira dos Santos terminou, apontando o dedo à Administração Interna e até ao presidente da Liga dos Bombeiros. “Há uma responsabilidade da Administração Interna e obviamente das autarquias, porque isto tem na base uma aliança entre os corpos de bombeiros e as autarquias para manter esta situação, que recusam qualquer tipo de profissionalização, que recusam qualquer integração entre combate e prevenção. Aí há uma responsabilidade claríssima do poder autárquico e dos órgãos de bombeiros”, indicou.

  2. omaudafita says:

    Estão dezenas de especialista no terreno a averiguar o que se passou, mas a opinião de um especialista ao telefone é que conta… Bem tentas!

  3. Luís Teixeira Neves says:

    Muito bem. Eu faço uma análise curta assim. Morreram na estrada? A estrada devia estar cortada pela GNR! (Não era aos bombeiros que competia cortar a estrada ou evitar que o fogo a tomasse. Eventualmente sobre a responsabilidade da GNR há uma responsabilidade da Protecção Civil.)
    Perante as fotografias de hoje reparo noutra coisa. Pinheiros plantados nos taludes de aterro e de escavação da estrada. Outros plantados à beira do alcatrão ou da valeta que delimita este. Há um caso em que parece claro que os carros arderam porque os pinheiros no talude estavam a arder. É ver qual a qualificação da estrada para saber quem é o responsável.

  4. Luís Teixeira Neves says:

    Classificação em vez de qualificação.

  5. Luís says:

    Quando uma estrada situada numa zona de alerta vermelho, não foi encerrada ao primeiro sinal de perigo, temos que os agentes do Estado falharam na sua missão primordial que é a de proteger os cidadãos.
    (Eu próprio já abordei estradas dessas, com algum fumo, e a GNR mandou-me recuar apesar de não passar de mato a arder).
    Neste caso o Estado falhou em toda a linha pois não preveniu, não avisou e não actuou no sentido de evitar a tragédia de quem entrou com a família nessa estrada armadilhada por eucaliptos e pinheiros, a crescerem quase em cima da via, conforme vi num vídeo captado por um drone.
    Por isso eu defendo a demissão, de cima até abaixo, de todos os responsáveis da Protecção Civil, de forma a darem lugar a outros mais capazes.
    E já agora pergunto: um incêndio, mesmo de uma gravidade extrema, pode ser considerado uma “anormalidade” em Portugal? E um terramoto, o que será?

Trackbacks

  1. […] é possível que, com uma área florestal como a nossa, com um historial tão negro de incêndios, nada funcione quando é preciso? De que nos serve essa patranha política que é o SIRESP? Que valor tem as leis que supostamente […]

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