É preciso evitar falar em responsáveis


A verdade sobre o que aconteceu em Pedrógão é insuportável. É esse o motivo pelo qual os agentes políticos e os seus porta-vozes evitam, a todo o custo, falar em responsabilidades. Foi conhecendo já a verdade insuportável que o Presidente da República se apressou a dizer que “fez-se o máximo que se podia ter feito”. Mas não fez. E a própria declaração apressada do Presidente foi o primeiro sinal de que uma gravíssima negligência tinha ocorrido e que a estratégia de protecção mútua dos responsáveis políticos tinha começado.

Enquanto os bombeiros apagam o fogo e as televisões facturam, por detrás da cortina há reuniões permanentes de gabinetes, encontros assessorados por empresas especializadas na gestão da comunicação em ocasiões de crise, há snipers anónimos espalhados pelas redes sociais, cooptados nas juventudes ou entre dirigentes partidários arruaceiros contumazes, mais propensos à cacetada e ao vernáculo de taberna, cuja missão é insultar quem questione a palavra de ordem: é preciso proteger a imagem do governo. É preciso evitar que se fale em responsáveis. Daqui a uma semana já ninguém se lembra disto.

Agora é o tempo do bom e velho espírito Jonet. É tempo dos peditórios, das contas solidárias abertas na CGD para cobrir uma despesa que cabe ao Estado, das chamadas telefónicas de valor acrescentado, dos pacotes de leite e dos sacos de fruta entregues nos quartéis, como se aos quartéis não pertencesse o dever de os ter aprovisionados para ocasiões como esta e tivessem que sujeitar-se, de cada vez que há uma tragédia, ao ritual miserável da esmola, da velha caridade salazarenta, da procissão redentora dos víveres e das mantas. Agora é o tempo da consternação fingida e das lágrimas de crocodilo, da “solidariedade” que até aqui não houve e cuja falta está na origem da catástrofe que todos os anos se anuncia e que desta vez aconteceu. É tempo do ritual do luto solene e oficial, das condolências tão protocolares quanto falsas, das fotografias trabalhadas para a primeira página, dos abraços mil vezes ensaiados, da rosa negra na foto de perfil, colocada à pressa depois da festarola de São João onde se fez campanha eleitoral enquanto o país ardia.

Mas a verdade é insuportável.

Os mortos e os feridos são uma estatística. São danos colaterais que ocupam uma estreita coluna na folha de cálculo onde se contabilizam os lucros do desordenamento do território. Enquanto uns choram, outros vendem lenços. Que nem por um minuto se duvide disto: a preocupação principal desta gente são as próximas eleições autárquicas e o eventual desgaste político resultante da tragédia. Antes do próximo Inverno haverá sobreviventes de Pedrógão Grande a receber notificações das Finanças para pagar um imposto qualquer sobre algo que já nem possuem, perdido no fogo. E o Verão ainda nem começou.

Comments

  1. JgMenos says:

    E não é que não tenho qualquer reserva a fazer?
    Trovoada seca e política de faz-de-conta!

    • altaia says:

      Se aí tivesse a foto de algum cadáver ainda iria pensar que era a Judite a falar.
      E fazer algo, nem que fosse pressão para modificar alguma coisa, não seria mais útil que este tipo de choradinho?

  2. Gostei do seu texto e da firmeza das palavras.
    Contudo tenho um pequeno reparo a fazer se me der licença.
    A caridade é uma virtude de ensinamento cristão e para uso de todos. Não implica uma transacção material ou tem qualquer relação com trocas.
    O fenómeno do banco alimentar” já foi muito bem escalpelizado por aqui, no Aventar. O fermento da propaganda é a solidariedade para encobrir um bom negócio para uns tantos à custa de outros
    Peço desculpa antecipada mas não compreendo o que será a “caridade salazarenta”, mas está bem!!

  3. Luís Nascimento says:

    É, de facto, com pesar e consternação que observei tudo o que aqui foi exposto.

    Um bom barómetro para as verdadeiras intenções da aristocracia política que se passeou foi a incontrolável verborreia do presidente que, à falta de discurso estruturado e pensado, e motivado pelo pesado fardo da ubiquidade mediática, regurgita inadvertidamente os mais elementares instintos políticos para, apenas uns dias depois, contrariar a sua própria tentativa de branqueamento de responsabilidades ou a repressão das naturais, e recomendáveis, interrogações que surgem após tragédias destas.

    Muito errados devem estar os actores políticos que invadiram os nossos ecrãs com vazios elogios às vítimas e aos que combatem esta tragédia, para darmos por nós a concordar com a vontade dos media em tentar estabelecer uma linha de causalidade apesar do vergonhoso aproveitamento mediático que a maioria dos meios de comunicação demonstrou, e continua a demonstrar, durante toda esta infeliz situação.

    Entre esta espada política e parede televisiva nos encontramos, observando, com igual nível de estupefacção, a análise de inarráveis directores de pasquins de direita, avaliando a prestação dos responsáveis políticos recorrendo ao nível de emoção demonstrado perante as cameras televisivas, com a ministra a demonstrar “frieza”, e os pedidos incompreensíveis dos próprios responsáveis políticos ao abandono do espírito crítico que é exigido a qualquer cidadão responsável de forma a tomar decisões para que infernos destes não de voltem a repetir como se fosse totalmente impossível e inimaginável combater a hecatombe, apoiar as vítimas e as suas famílias, admirar o esforço dos bombeiros e profissiobais que estão na linha da frente e, simultaneamente, começar a trabalhar para apurar responsabilidades e causas estruturais. Aparentemente só podemos fazer uma coisa ou outra e é um crime lesa majestade pensar que se podem fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.

    Fontes que até agora respeitava bastante, e citadas frequentementes por estas bandas, capitularam à sua índole partidária e reproduziram esta tentativa de obscurecer a determinação de a quem devemos exigir respostas, recorrendo a absurdas denúncias sobre a “politização” deste episódio, como se ele não fosse não apenas, mas também, político. Felizmente entre leais acólitos e raivosos detractores, podemos contar com o Aventar para alguma clareza de espírito.

  4. motta says:

    Tudo o que tem vindo a ser feito na prevenção, combate aos incêndios e apoio às vítimas (podia ser qualquer outra coisa, sei lá… apanhar melgas com metralhadora), se é de esquerda, só pode ser bom! Infelizmente hoje é assim.
    No prós e contras estava lá um indivíduo do norte que disse uma ou duas verdades… acho que já foi crucificado!

  5. Carlos Silva says:

    Sempre considerei que um alto cargo desta natureza exige menos “músculo” e mais “cérebro”. Ser bombeiro é estar do lado do executante, de alguém que não tem visão global nunca porque está no terreno e pouca iniciativa tem na estratégia de ataque a um incêndio por exemplo. A única iniciativa é a energia e determinação em salvar vidas mas também não o pode fazer apenas com “coração” pois pode ser fatal e perder a sua própria. Por isso, um bombeiro será sempre um executante e alguém que acedeu a um alto cargo pela via de bombeiro, comandante de bombeiro e por aí adiante nunca terá a formação e a sensibilidade científica para entender as terríveis novidades que o clima reservou para a humanidade. Imaginemos a situação com um exemplo concreto: Apenas um navegador conseguiu passar o cabo das tormentas no sul da África e a intuição, a sensibilidade, o conhecimento foi decisivo. Quem vai ao “leme” tem de ser alguém com formação científica, alguém que tenha estudado desde muito cedo o clima, os seus fenómenos que saiba interpretar os sinais enviados pelo IPMA na parte que interessa à proteção e prevenção. Acho completamente ridículo dizer que os bombeiros e as polícias devem fazer formação nas Escolas. Bombeiro é e será sempre bombeiro, deve manter-se em boa forma, estar mentalizado e desenvolver atitudes de “guerreiro” na ação concreta no terreno. Deixem a formação para os professores, eles sabem e podem ensinar em disciplinas como Geografia ou no âmbito de projetos interdisciplinares ou mesmo no âmbito da Educação Cívica. Esta “invasão” ( infelizmente consentida pelo sistema educativo) é nefasta pois gera a ideia de que para ser bom piloto de navegação de uma organização complexa como a proteção Civil basta saber dirigir homens e ter sido comandante de bombeiros. O facto é que o clima tem as suas manhas e é preciso conhecê-las, é possível conhecê-las. Ao contrário do que o Sr. Secretário de Estado disse a propósito do incêndio de Pedrógão, a situação foi perfeitamente normal e não anormal como ele disse, como se a culpa fosse do clima imprevisível. De facto bastaria ter estudado de forma aprofundada Climatologia para entender que no Verão ( estação cada vez mais precoce ) as depressões de origem térmica podem provocar ( e têm provocado ao longo de séculos e até milénios) incêndios de origem natural. Para mim, é uma opinião, não ter este conhecimento enraizado de uma forma quase afetiva de quem considera “seu” o conhecimento é uma falha grave pois canaliza a atenção dos dirgentes para os operacionais que rejubilam e aproveitam para reinvindicar sempre melhores condições salariais e outras regalias, o que é um abuso tendo em conta a gravidade dos factos climáticos que estão a condicionar e ameaçar milhares de vidas como nunca no passado, em especial as das regiões do interior, pois concerteza este mesmos dirigentes não compram casas no interior, mas no litoral, junto do mar e não conseguem colocar-se no lugar de um idoso numa aldeia isolada rodeada de floresta com 45.º C de temperatura. E por isso as suas decisões serão sempre pouco racionais no sentido que não são esclarecidas na parte da lógica da fundamentação da acção, que neste caso é de ordem científica. É preciso estar do lado do Saber pois que” interessa correr se não vamos pelo caminho certo”? Mas não é só Climatologia, mas também Ecologia, Sociologia Rural e Urbana etc, ou seja há toda uma área de formação que deve ser obrigatória pois é preciso conhecer os modos de viver, de pensar das populações rurais mais afetadas. Não é o mesmo que fazer formações mais ou menos apressadas com vista a um objetivo e todos sabem como essas formações não passam de um puzlle imperfeito de saberes dispersos e desenquadrados. Alguém dizia que “temos de sofrer a Pátria” e não cruzar os braços enquanto aguarda a próxima catástrofe para agir depois. É um crime deixar morrer gente queimada por causa do clima.Equivale a omissão de auxílio. É dever de um responsável tornar-se visível, saltar para a comnicação social e ter um entusiasmo e um ar de juventude e não uma atitude agastada e medrosa. É essa atitude que faz a diferença. Para mim o perfil ideal para um cargo destes é alguém com formação numa área interdisciplinar por natureza, que faça questão em não ligar o ar condicionado e seja um verdadeiro amante da natureza e tenha uma casa ( ainda que secundária) na região do interior do país. É fácil pensar em termos urbanos, viver em meios urbanos sintéticos, artificiais, ter casa com vista para o mar e ainda por cima não ser sensível ou não ter o conhecimento devido, pois repito, não se pode amar o que se não conhece. Só depois é que podemos esperar algum resultado e o melhor resultado é não haver notícias de tragédias, não ser conhecido pelos piores motivos e passar os “Cabos das Tormentas” pois a sua missão é justamente evitar e salvar vidas humanas.

  6. A.Silva says:

    Também no combate aos fogos se tem que acabar com décadas de politica de governos do PS/PSD/CDS que arruinaram o país.

  7. anti pafioso. says:

    Depois de se apurar responsabilidades 0 srº Bruno vai chegar á seguinte conclusão ,se aculpa for de quem apostou e apoiou a plantação de eucaliptos para rapidamente tirar lucro ,ou vendeu a agricultura a Bruxelas a troco uns bons molhões ,o srº bruno mete o cu no rabo e imigra ,se a culpa não for essa já sei ,vai andar de bandeirinha na lapela . precisamos de gente com ideias e que as ponha em prática, quanto a eleições eu sei quem anda com a cabeça á roda ,pois tem de ir trabalhar ,se alguem lhe der trabalho .

  8. Atento/sempre says:

    Porque é que tem medo de dizer a VERDADE? Existem, ou não existem, cúmplices?!: Por exemplo; a entrada para CEE/UE e o Euro, e por fim os senhores da tróica, e os sucessivos governos de Portugal ( e o governo do PS do Costa, com o apoio das suas muletas)! O resto fica para mais tarde!
    Porquê? Porque, posso ser multado, ou preso, e não tenho dinheiro para pagar a um bom advogado..
    Pela liberdade de expressão!
    Por um jornalismo livre e democrático!

  9. António Joaquim says:

    Mais um a exigir cortes, fazer rolar cabeças. queimar bruxas para acalmar os deuses e os demónios. A culpa é da ideologias, capitalistas ou esquerdistas, porque tem de ser feito como a norma e se a norma falha é porque alguém se esqueceu de a implementar esquecendo que a norma faz com que as pessoas sigam outros paradigmas e mandem as normas ás malvas. Se o Bruno quer cabeças acho melhor começar pela sua….

Trackbacks

  1. […] O Verão termina, o Outono começa, as temperaturas baixam e, no rescaldo de mais uma terrível época de incêndios, prometem-se mundos e fundos. Mais equipamento para os bombeiros, mais meios aéreos, mais planeamento e maior capacidade de reacção. Todos os anos é assim. Independentemente do número de mortos, que este ano decidiu bater recordes, os anos passam, as rosas e as laranjas sucedem-se, tal como as promessas, e fica quase tudo na mesma. Tal como o encobrimento de responsabilidades ou a repugnante encenação política, tão nossas, que o Bruno aqui tão bem retratou. […]

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