A voz do dono


Ser militante ou simpatizante de um partido político e apoiante de um governo em funções não pode significar trair o povo a que se pertence. A militância ou a simpatia terminam onde começa o valor maior da verdade e da justiça, ou quando são colocados em causa interesses superiores a qualquer ideologia ou filiação política, como é o caso da vida humana.

Se algum responsável público, seja de que partido for, violar, por acção ou omissão, negligente ou premeditada, os deveres públicos a que está vinculado, é direito e obrigação de todo o cidadão exigir que seja responsabilizado por isso e que preste contas à população que representa e tem que proteger. Seja esse responsável público da nossa tribo política ou não seja. Se for, a responsabilidade que nos cabe aumenta.

O que envenena o sistema partidário e, por essa via, a credibilidade da democracia representativa, é a violação deste princípio singelo. É essa violação que resulta em taxas de abstenção que retiram legitimidade democrática ao exercício do poder e afastam as pessoas, os cidadãos, de qualquer actividade política e partidária, subtraindo ao governo do país a força social necessária para cumprir o seu desígnio primeiro, que é o de, em representação de todos e com o empenho de todos, trabalhar no sentido da melhoria das condições de vida da comunidade, assegurando o seu futuro, a sua paz e a sua prosperidade.
Numa democracia, apesar de as responsabilidades governativas serem entregues aos que obtiveram mandatos parlamentares suficientes para constituir uma maioria, o papel político, cívico e democrático mais importante cabe à Oposição. O voto, em democracia, constitui sempre uma escolha dupla, que indica não apenas aqueles que se deseja no exercício do poder, mas também os que se escolhem para vigiar e limitar esse exercício.

Por vezes criticam-se ferozmente agentes políticos que produzem um discurso antagónico à voz dominante no seu próprio partido, como são os casos, por exemplo, de Francisco Assis ou Manuel dos Santos, sem cuidar da importância que essa oposição representa para a vitalidade democrática geral e para a salubridade da convivência política entre diferentes visões do mundo, o chamado pluralismo.
Verifica-se, contudo, que a generalidade dos dirigentes, militantes e simpatizantes dos partidos políticos não funda já a sua militância ou simpatia em valores ideológicos, éticos ou políticos, cimentados com sensibilidade humana, coerência e sentido de justiça. A sua militância é antes uma filiação tribal inconsciente e acrítica, mais característica das claques dos clubes de futebol e dos grupos de animais que se organizam e agem em função de instintos primários, como a sobrevivência ou a protecção mútua de um inimigo comum. A discordância é tratada como crime de traição e dissidência, sendo possível, por vezes, assistir a verdadeiros linchamentos públicos dos que ousam colocar a voz da razão acima das determinações irracionais do “padrinho”, do “querido líder” venerado como o grande protector da gamela e primaz distribuidor dos prémios de fidelidade.

A grande maioria dos militantes partidários é sempre orientada e submetida às determinações de um “chefe” tribal, cuja autoridade resulta mais do estatuto de divindade laica que encarna magicamente, capaz de exercer o poder de castigo ou recompensa sobre os elementos da turba, do que da sua qualidade intrínseca de líder cujo carisma assente na nobreza de carácter, na convicção sobre os princípios e os valores onde tem raiz a sua mensagem política e humana e, finalmente, na coragem de os colocar em prática. Este padrão repete-se desde a base até ao topo da hierarquia. É a esta degradação interior do corpo partidário que se dá o nome de “pasokização”. É também ela que tem favorecido o aparecimento de organizações políticas externas ao círculo ideológico da democracia, produzindo fenómenos sociais e institucionalizados de racismo, xenofobia e fascismo. Enquanto o guião do House of Cards for a cartilha dos agentes políticos que não tiveram tempo para ler Thomas Hobbes, Bento Espinosa ou Nicolau Maquiavel e, dentro dos partidos, assim como das organizações menos visíveis que lhe dão chão especulativo, se favorecer e premiar a mediocridade, a ignorância, o culto canino e ritual do “chefe”, a retórica boçal, o tráfico de influências, o favorecimento injustificado e a sanguinária competição pelos lugares, nada interromperá esta viagem alucinante da democracia rumo ao caos. Até porque já lá estamos.

Comments

  1. Se o Presidente da República é o presidente de todos os portugueses porque exprime publicamente pelo menos meia dúzia de vezes, rasgados elogios e homenagens prometidas aos bombeiros ? O dever do Estado era prestar uma grande homenagem em frente ao Mosteiro dos Jerónimos de todas estas vítimas e indemnizar as famílias. Afinal são todos portugueses, todos são vítimas e se uns são heróis do combate aos fogos, outros são heróis da regionalização, do planeamento regional e florestal, do desenvolvimento municipal e regional, ou melhor heróis que simbolizam a ausência de qualquer uma destas políticas.

  2. Cristina says:

    Fantástica análise, nao saberia dizer assim mas subscrevo na integra.

  3. JgMenos says:

    Aguardo com curiosidade os comentários da matilha esquerdalha.

    • joão lopes says:

      o post. é certeiro:o blog do cds,Observador,está a fazer campanha eleitoral(para as autarquicas) á dona cristas,aproveitando-se da morte da 64 pessoas.A voz do dono,portanto,que exige muitos…eucaliptos,ou seja ,dinheiro para os accionistas das celuloses.

    • José Peralta says:

      Ó “menos” !

      Queres um comentário DE ESQUERDA ?

      Aqui tens o meu : Concordo na generalidade com o post de Bruno Santos, e destaco esta passagem . – “A grande maioria dos militantes partidários é sempre orientada e submetida às determinações de um “chefe” tribal, cuja autoridade resulta mais do estatuto de divindade laica que encarna magicamente, capaz de exercer o poder de castigo ou recompensa sobre os elementos da turba, do que da sua qualidade intrínseca de líder cujo carisma assente na nobreza de carácter, na convicção sobre os princípios e os valores onde tem raiz a sua mensagem política e humana e, finalmente, na coragem de os colocar em prática”.

      Agora, é a minha vez de esperar pelo teu comentário “isento” sobre a matilha direitalha a que pertences !

      Vá, coragem, “menos” ! Não percas a oportunidade´de gritares o teu sonante ÃO-ÃO ou, pelo menos, um pífio béu-béu contra a côrte voz do dono e lambe botas de aldrabões e caciques como o aldrabão-mór coelho e a galinha assanhada cristas, para só falar da direitalha em “funções” partidárias ! E o que tem acontecido aos militantes que ousam “evacuar” fora do penico…

      Ou ainda não te cansaste de ser um lambiçoca untuoso e graxa, dessa gentalha ?

    • Afonso Noronha says:

      Aguardamos os comentários da matilha, porque da vara o JgMenos já está a representar.

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