Os Truques da Imprensa Portuguesa e o jornal Público


No olho do furacão que envolve a página dos Truques da Imprensa Portuguesa e o jornal Público está uma notícia da jornalista Margarida Gomes sobre o presidente da Câmara de Gaia.

Essa notícia dá conta de uma rede familiar e de agentes políticos, associados ao autarca de Gaia, instalados nos órgãos sociais de IPSS com fortes ligações à Câmara Municipal. A notícia refere também um aumento salarial de 390% (o número peca por defeito) de que beneficiou a mulher do presidente da Câmara, funcionária de uma dessas IPSS, e informa que o assunto está a ser investigado pelo DIAP, tendo também sido reportado ao Ministro Vieira da Silva, a quem foi solicitada uma auditoria.

Todas as informações veiculadas pela jornalista Margarida Gomes são verdadeiras e apoiadas em provas documentais, embora essas provas viessem apenas a ser reveladas dias mais tarde, numa outra notícia, publicada depois de a primeira ter sido desmentida com grande profusão. E é aqui, no desmentido, que está o olho do furacão.

Através de um conjunto de três artigos publicados na sua página, Os Truques da Imprensa Portuguesa procuraram desmentir a notícia do Público, para tal usando, anote-se, os mesmos argumentos que o presidente da Câmara de Gaia também usou para a desmentir.

Esses argumentos eram e são falsos, tal, aliás, como o jornal provou.

Depois disso, a página passou a um ataque pessoal à jornalista. Revelou detalhes da sua vida pessoal e familiar, procurando estabelecer uma relação entre esses detalhes e uma suposta intenção de vingança sobre o presidente da Câmara de Gaia. Chegou a usar diagramas e gráficos. Sugeriu que o que na verdade estava em causa era o início da campanha autárquica de Luís Filipe Menezes e o seu regresso à Câmara de Gaia, deixando no ar a ideia de que a jornalista estaria ao serviço dessa campanha. Este mesmo argumento, obviamente falso, foi usado pelo próprio presidente da Câmara de Gaia contra dissidentes. Chegou a ser tema único de uma comissão política do PS Gaia, destinada exclusivamente a fazer o linchamento público de um dissidente em particular. O argumento era o mesmo: está a soldo de Luís Filipe Menezes, que prepara o regresso à Câmara. Mas também este argumento era falso. Menezes, como é visível, tem mais que fazer.

Este ataque anónimo à vida pessoal e familiar de Margarida Gomes procurou descredibilizar profissionalmente a jornalista, o jornal e a notícia. Que era e se mantém verdadeira.

Os textos dos Truques da Imprensa Portuguesa que atacavam Margarida Gomes, procuravam desmentir a notícia do Público e reproduziam ipsis verbis os argumentos usados pelo presidente da Câmara de Gaia, foram partilhados por milhares de pessoas, entre as quais o próprio autarca, todo o seu executivo e praticamente todos os seus dependentes políticos. Incluíndo algumas figuras destacadas do Partido Socialista. Mas esses textos dos Truques não continham a verdade. Continham a mentira. Encomendada ou não, só os próprios podem dizer. Mas, mais do que a mentira, esses textos continham um ataque anónimo a uma jornalista com nome, carreira profissional, filhos e família. Que escreveu e publicou a verdade, no cumprimento dos seus deveres profissionais.

É possível que o texto violento do sub-director do Público, que revela a identidade de um dos autores da página dos Truques da Imprensa Portuguesa, identidade essa que, na verdade, tinha já sido descoberta, seja a resposta que o jornal aguardava.

Quem já tenha sido vítima de páginas anónimas do feicebuque, contendo insultos e expondo a vida pessoal e familiar, talvez compreenda a posição do jornal. Talvez compreenda também a solidariedade que o sub-director do Público demonstrou com a sua colega de trabalho.

Dito isto, os Truques da Imprensa Portuguesa têm tido um papel muito útil na descodificação da psico-política. Sem prejuízo de, eles próprios, a fazerem. Como é normal. Espera-se que prossigam esse meritório trabalho.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O mais preocupante em toda esta actividade, é o recurso à mesma máquina que a PIDE utilizava para denegrir as pessoas que eram contra a situação.
    Não conheço a verdade, mas conheço os truques, pelo que já nada me admira. Sou dos portugueses que continua a afirmar que esta dita democracia está cheia de cosmética para enganar meninos, governada por meia dúzia de privilegiados que vão fazendo o que querem sem prestar contas à justiça.
    Isso é visível em casos onde abunda a corrupção política, a seu tempo denunciados, ou no caso dos banqueiros, sem qualquer alteração no estatuto de arguidos há anos e anos.
    Uma coisa é certa: o grupo dos inimputáveis está circunscrito aos três pilares da nossa democracia: política, finança e futebol.

    • “Sou dos portugueses que continua a afirmar que esta dita democracia está cheia de cosmética…” Acho graça à solenidade com que o amigo diz isso, como se estivesse a dizer que é alguém especial. Dizer mal do país é o mais comum entre os portugueses! Que a democracia em Portugal tem limitações é algo que qualquer senhor barrigudo, numa taberna, já com a sua dose de vinho, diz com a mesma eloquência… Bem podia dizer: “Eu penso exatamente como todo o Zé Povinho”. Abraço!

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Há pessoas que têm que dizer alguma coisa… para aparecer.
        Primeiro, não falo do País. Falo dos que o governam.
        Depois emito uma opinião, algo que é permitido num país dito livre.
        De resto e para evitar “troca de repetidos”, o seu comentário tem tanto conteúdo, como o do companheiro desse tal senhor barrigudo que fala com a “minha eloquência”, mas com a característica de estar completamente bêbado.
        Fique bem.

  2. Permita caro Ernesto Martins Vaz Ribeiro, que adicione um critério bem concreto e do domínio público, aos três com que termina o seu comentário, falta a religião e Igreja Católica, dada a presença (desse “senhor”) sem falha em todas as procissões do Concelho lado a lado com os abades!…
    Figuras tristes!!!
    Será que Portugal já não é um Estado laico? Fica a pergunta em suspenso!

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Claro que permito cara Nina.
      Em todo o caso o “beija-mão” é uma instituição nacional seguida de perto pelo Sr. Presidente da República e pelo Sr. Primeiro ministro que confere tolerância de ponto pela visita do Papa.
      Dito de outra forma, o País salazarista e salazarento dos 3F’s cá está na sua verdadeira pujança.
      Não: Portugal nunca foi um estado laico… E nunca será, porque ter os padres ao lado dos políticos (separo isto da religião, pois nada tenho contra qualquer crença) dá votos, pois eles dão sempre um empurrãozinho nas “comunicações” dominicais …

      • Grata por me ter respondido, concordo, assim sendo é uma grande falta de respeito para com os cidadão de outras confissões, devendo ter em conta o estatuto de pé igualdade, numa democracia é assim creio eu, todos merecem a mesma atenção e têm os mesmos direitos, o mais complicado será dar a “cara” numa procissão de ateus, que comparo como em tempo de eleições, que são crença correspondem ao voto em branco!!!!!

        “Tocam os sinos na torre da igreja,
        há rosmaninho e alecrim pleo chão,
        na nossa “aldeia” que “Deus” a proteja
        vai passar a procissão!”

  3. Peixoto says:

    Foi preciso ir a Dezembro do ano passado para encontrar uma vez que os Truques tenham metido o pé na argola, se calhar o Bruno devia-se ter focado mais nisso.
    Já eu, não tenho nenhuma afiliação à página, mas sei reconhecer que têm feito um trabalho crítico importante que faz falta no jornalismo nacional.

    De resto, se cometeram um lapso, já me parece um balanço bastante positivo, tendo em conta a quantidade de casos que aconpanham e comentam.

    • Peixoto says:

      *acompanham

    • Paulo Marques says:

      Infelizmente, não é um lapso, revelar informação pessoal é mesmo crime.
      Continua a não ter comparação com os pasquins capitalistas, mas era bom que as pessoas aprendessem a não confiar em ninguém.

  4. Uma regra de ouro (a 1ª e unica importante) leio e escuto tudo, mas a decisão e valor só eu a dou. Gente que faz o que os ditos Dos T.Imprensa merece que os ignorem porque procedem como porcos.

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