A Disneylândia do vinho


World of Wine. Imagem divulgada pelo Município de Vila Nova de Gaia a 9 de Junho de 2017. Clique na imagem para ampliar.

A opinião de Maria Abrunhosa Pereira (Arquitecta; Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) e Álvaro Domingues (Geógrafo; Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) sobre a Disneylândia do Vinho que vai nascer em pleno Centro Histórico de Gaia e cuja primeira pedra foi colocada ainda antes de iniciado o processo de licenciamento:

 

Jornal PÚBLICO
16 de Junho de 2017 (Texto integral):

“World of Wine: a vista do Porto para Gaia com mais um chiringuito
O Mundo do Vinho pretende afirmar-se como a nova Disneylândia de Vila Nova de Gaia.

Começou por ser planeada para ser a Cité du Vin, à semelhança da homónima de Bordéus, mas a ambição de algo maior, e certamente o sonante acrónimo WoW, combinaram-se para lhe dar o nome de World of Wine – Mundo do Vinho.
O Mundo do Vinho é um enorme complexo que vai emergir no miolo da encosta do centro histórico de Gaia, e será constituído por vários museus, espaços para exposições temporárias, restaurantes, lojas de artesanato, uma escola de vinhos e uma zona de estacionamento. Constitui um investimento a rondar os 100 milhões de euros do grupo Fladgate Partnership formado pela Taylor’s, Croft, Fonseca e Krohn, sendo parte deste montante proveniente de apoios comunitários, nomeadamente do programa Jessica (raio de nome).

demolição parcial dos volumes existentes

Este enorme complexo não será uma construção de raiz; advirá principalmente da conversão de armazéns de vinho do Porto, prevendo-se a demolição parcial dos volumes existentes. Situado no coração da encosta do centro histórico, o Mundo do Vinho, ou o WoW, está colado ao hotel Yeatman, também da Fladgate Partnership. Serão dois mastodontes a pastar na encosta.

Dominique Saunier, geógrafo francês, realizou há cerca de três décadas um estudo sobre o Entreposto de Vila Nova de Gaia. Na altura contabilizou cerca de 550.000 m2 de área de armazenamento, com capacidade para cerca de dois milhões de hectolitros de vinho. Constatou também que cerca de 60% do território da área demarcada como Entreposto era ocupado por caves de vinho do Porto. Desta área, a maior parte do espaço era destinado ao armazenamento de vinho. Em tempos, Camilo Castelo Branco chamou-lhe a maior taberna do mundo.

Serão dois mastodontes a pastar na encosta

A candidatura desta área a Património Mundial da UNESCO como extensão do Centro Histórico do Porto já foi equacionada pelos decisores políticos. Na intenção de candidatura, antecipada na Operação de Reabilitação Urbana de Gaia, realça-se que: “No contexto nacional, e internacional, o Entreposto de Gaia preserva um conjunto singular de armazéns de um porto de vinho com forte espessura histórica, tanto mais importante quanto, devido à pressão imobiliária, a alterações funcionais e económicas, à modernização arquitectónica ou a opções de deslocalização, a maior parte dos entrepostos históricos de vinho perderam as suas funções […] ou deixaram de marcar a paisagem urbana em que se inserem.” (Rocha; Amaral, 2016). Hoje, o aproveitamento turístico e a gradual transferência da área de armazenamento do vinho do Porto para o Douro estão a esvaziar o lugar do vinho que contribuiu para a sua identidade.

a nova Disneylândia de Vila Nova de Gaia

O Mundo do Vinho pretende afirmar-se como a nova Disneylândia de Vila Nova de Gaia: um enorme parque temático dentro do parque temático ligado ao vinho que se tem vindo a configurar nos últimos anos, para cativar mais turistas… um enorme parque temático fechado com as portas abertas para quem pode consumir e sem equipamentos com potencial para serem usados no quotidiano pela população local, que tem vindo a diminuir na freguesia de Santa Marinha, acompanhando a tendência, com menos expressão, é certo, das freguesias do Centro Histórico do Porto.

As caves de Vinho do Porto de Gaia têm interesse patrimonial de conjunto e, como tal, a intervenção que descaracteriza cada uma das peças terá um grande impacto no todo a que pertence

Tendo em conta as transformações urbanas dos últimos dez anos, podemos convictamente apontar a tendência generalizada de transformação do Entreposto de Gaia num enorme “Shopping da Memória do Vinho”. As caves de Vinho do Porto de Gaia têm interesse patrimonial de conjunto e, como tal, a intervenção que descaracteriza cada uma das peças terá um grande impacto no todo a que pertence. O que tem acontecido nos últimos anos: a intervenção em cada uma das peças como monumentos isolados, descontextualizados da malha urbana, tem desfigurado a imagem do Entreposto de Gaia, que corresponde quase integralmente ao seu centro histórico.

O turismo tem esta tendência canibal de devorar aquilo que o atraiu e de transformar o real em simulacro, evento e espectáculo. Não havia necessidade. O dinheiro não é a única medida do valor das coisas.

é a legitimidade das entidades públicas que está em causa

Já que tudo isto se permite, que não haja depois choradeiras patrimoniais, missas pela genuinidade perdida ou gritaria sobre o modo como se constrói, onde e o quê. Com estes exemplos, é a legitimidade das entidades públicas que está em causa, é a confusão na cabeça do comum cidadão que acha que se for poderoso aquele que quer fazer, fará onde quiser. Entretanto, quem quiser vender gelados ou castanhas na marginal deve precisar de 300 licenças e dois alvarás, claro.”

Artigo original.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Não domino com rigor o assunto, e como tal não posso tomar uma posição credivel com base em critérios urbanísticos.
    Mas há algo, do qual eu posso e devo falar.
    Portugal é um especialista em ir ao “pote” dos fundos europeus sem ponderar muito bem os prós e contras na forma de aplicação desses fundos, e nas opções que toma.
    O caso do TGV foi um bom(mau) exemplo. Mas haveria mais casos a apontar.
    Não basta cumprir os requisitos ambientais, técnicos e jurídicos que a CEE exige para financiar os projectos. Isso é a parte mais fácil e menos exigente de todas. Até porque pode sempre ser defensável, por uma equipa técnica bem remunerada.
    E irrita-me solenemente aquelas explicações dos “paus mandados” do regime, quando justificam a asneira, com a célebre tirada:
    – Até os nossos parceiros lá fora, incluindo a CEE, avalizaram!

    Como se nós fossemos uma espécie de ignorantes e irresponsáveis, a necessitar do Amen, ou do agreament dos outros, para não “esbarramos contra a parede”.
    Portanto, façamos as coisas com a cabecinha no lugar, sem lobies, para não hipotecarmos definitivamente o nosso futuro.
    Se a CMGaia tiver esse cuidado, tudo bem. Se não o fizer, lamentaremos a decisão, por décadas.
    E o pior é que a culpa morrerá solteira!

    • Caro Rui, isto é falso, o autor já está em tribunal e algumas “elites” correram a opinar sem testarem a informação. Eu sou vítima de stalking de um tipo que despedi e que se entretem a dizer mentiras que me renderão indemnizações. Convido a vir conhecer o projeto à Gaiurb e, se for verdade, desminta-me publicamente. Mas não coma tudo o que lhe dão nas redes. Cump.

      • Bruno Santos says:

        Senhor presidente da Câmara de Gaia,

        esqueça o argumento do “despedimento” e porte-se como um político responsável. Você não é vítima de “stalking”, é um decisor público sujeito ao escrutínio e à crítica. Quer goste, quer não goste.

        Envie-me o projecto e os seus argumentos que eu próprio os tornarei públicos aqui, no Aventar, já que você não o fez no sítio da Câmara de Gaia, como obrigaria a transparência e a honestidade políticas. Só lhe exijo que não use insultos, a mim ou à minha família, como fez anteriormente.

        Quanto a tribunais, lembro-lhe: você é o único candidato a uma grande Câmara do país que está sob Termo de Identidade e Residência, arguido num processo-crime por difamação e injúrias.
        Sobre as indemnizações que diz que a minha opinião lhe vai “render”, só espero que goze bem o dinheiro, de que pelos vistos gosta tanto.

        Aguardo.

        • Eduardo says:

          Não lhe responderei, a não ser em tribunal. Só pergunto: enquanto adjunto, quantos projetos publicou ou quis publicar no site da câmara? O único TIR que conheço é o dos camiões. E gosto do dinheiro mínimo para não dever nada a ninguém. O comentário diz tudo: lança uma mentira e divulga; depois desafia a que lhe mostrem a verdade!!! Lol!!! Dispara primeiro e pergunta depois! The end.

  2. Elísio Pinto says:

    Uma vez partilharam comigo um ditado que relata bem o incómodo de “alguns”.
    “A galinha da minha vizinha é sempre melhor que a minha”
    Quando nos preocupamos em demasia com os do lado, a tendência é estagnar e nos diminuirmos. Talvez, porque perdemos o nosso tempo em recursos para suposições e conversas de explanada. o melhor, é olhar para dentro e fazer aquilo que são os interesses comuns do nosso território e fazer mais e melhor.
    Este projeto em questão será certamente o alavancar de uma história. Bem mais agradável que o túnel ao sair da ponte D. Luís.
    Acrescento que, ao projeto proposto não vejo megalomanias nem ruturas significativas da malha urbana que alguns reclamam, talvez por desconhecimento da proposta ou meramente propaganda.
    Com tanta hipocrisia estudada, pretendem unicamente descredibilizar o notável esforço que está a ser desenvolvido em Vila Nova de Gaia.

  3. A imagem publicada não está correcta.
    A notícia do Observador tem a imagem correcta, que pode ser consultada neste link:
    http://observador.pt/2017/06/13/wow-antigos-armazens-de-vinho-do-porto-dao-lugar-ao-world-of-wine/

  4. Adrian Bridge says:

    Exmo. Sr. Bruno Santos,

    Nos seus textos publicados no blog Aventar de:
    – 16/07/2017 – sob a designação de “A Disneylândia do vinho,
    – 12/07/2017 – Câmara do Porto discutiu projeto de Gaia para as Caves
    – 15/06/2017 – Caves de Vinho do Porto: Gaia quer destruir património que antes quis classificar na UNESCO
    – 13/06/2017 – 100 Milhões para destruir as Caves de Vinho do Porto”,
    são utilizados por V. Exas, para os ilustrar, uma imagem que tal como poderá ver na respetiva legenda – publicada no seu texto de 16/07/2017 -, é um “Estudo Prévio de Março de 2015”.
    A fim de poder informar devidamente os seus leitores solicita-se que os seus textos sejam ilustrados com a imagem correta e atual, que corresponde à versão mais aproximada do projeto aprovado pela CM Gaia, imagem que pode ser consultada no link abaixo, e que foi divulgada na mesma exposição em que foi recolhida a imagem que V. Exa. tem utilizado e que era apresentada como representando (erradamente) o projeto aprovado para o World of Wine.
    Aproveitamos para esclarecer que em Março de 2015, iniciámos um longo e meticuloso trabalho de preparação e discussão do projeto World of Wine com a CM Gaia, GAIURB e DRCN, com vista a criar uma atração com impacto mundial, mantendo contudo as características essenciais e únicas desta zona histórica, que ao longo dos séculos fomos construindo devido à nossa atividade.
    Ninguém como nós está mais interessado em preservar e dinamizar o património que construímos.

    Cumprimentos
    Adrian Bridge

    https://www.publico.pt/2017/06/08/local/noticia/velhos-armazens-do-vinho-do-porto-transformamse-no-mundo-do-vinho-1775094#&gid=1&pid=2

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