Viver ou ser vivido?


Estar na fila da caixa de um supermercado e, enquanto se espera a vez, acender um cigarro e começar a fumá-lo, equivale, na percepção subjectiva dos outros, a tirar uma pistola do bolso.
O escândalo e a estupefacção reprovadora são quase imediatos, a censura instantânea e a ordem para colocar fim pronto à subversão são equivalentes às que suscitaria um assalto à mão armada se, no caso do assalto, não houvesse o risco físico evidente, circunstância que desencoraja os mais esclarecidos.
Fumar um cigarro na fila do supermercado, ou na repartição de finanças, ou até no consultório médico, era um gesto socialmente inócuo, ou mesmo prestigiante, até há poucos anos atrás. A transformação que se operou na representação social desse gesto, e na sua percepção subjectiva, foi radical e extremamente rápida. Talvez não haja muitos exemplos de uma tão profunda, ampla e célere modificação no modo como a generalidade das pessoas interpreta um comportamento específico.
Como se fez isto?
Que métodos e meios foram utilizados para introduzir, com tanto sucesso e rapidez, uma modificação tão profunda na avaliação subjectiva de um determinado comportamento, fazendo-o passar da aceitação generalizada para a censura e a repulsa instantâneas?

Comments

  1. paulo range says:

    pois, parece que as pessoas descobriram o mal que faz.

  2. Mistérios says:

    Terá sido o Sócrates ?
    Terá sido uma recomendação da Comissão para a Igualdade em Filas de Espera ?

  3. Paulo Marques says:

    Era socialmente aceite, mas era desconfortável para todos os outros. Também ninguém diz nada quando alguém se põe a discutir com a pessoa da caixa registadora sobre preços ou promoções ou outra coisa qualquer sobre a qual ela nada pode fazer, mas também é uma falta de respeito.

  4. Foi, realmente, um avanço civilizacional conseguido em muito pouco tempo. Seria muito bom perceber como se conseguiu para tentar fazer o mesmo, e.g., no trânsito, onde uma fracção não negligenciável das pessoas se comportam como verdadeiros selvagens.

  5. As pessoas tomaram consciência dos malefícios do tabaco para a saúde individual e pública. A exposição ao fumo dos fumadores também tem efeitos prejudiciais, sobretudo em espaços fechados.
    Sim, claro depois há a percepção e susceptibilidade ao odor de cada um.
    É uma percepção exagerada comparar o comportamento de um fumador ao de um “terrorista”.
    Nisto de percepções, cada um toma aquilo que os seus sentidos lhe ditam e a sua cabeça não filtra.

  6. Rui Naldinho says:

    Podemos sempre dizer que os fumadores são vítimas da falta de uma “Associação dos Fumadores Inveterados”, que os defenda na AR, tal como outras associações de defesa dos animais.
    Ver animais de estimação aos molhos em apartamentos, por exemplo, com a necessária falta de qualidade ambiental, para eles animais, para os seus donos, e até para os vizinhos, é muito comum, mas ninguém ousa questionar.
    Ver animais a defecar nos passeios e nos jardins públicos, o chichi ainda va que não vá, também, mas ninguém ousa questionar.
    Ver gente a atirar papéis para o chão, pauzinho do gelado, chiclete, ou a misturar lixo que deveria estar tratado de forma diferente, já é comum ouvirmos umas chamadas de atenção, aqui e acolá, em especial dos mais novos, e um olhar com desdém dos mais velhos, do estilo, “o Ventura a olhar pró cigano”.
    Só que fumador foi vítima das campanhas violentas anti tabagismo, e da mediatização produzida pela informação médica, ao nível das doenças coronárias, cancro, etc, com tudo o que isso acarreta no comportamento das pessoas, e da diabolização da sua própria irresponsabilidade, nos abusos como consumidor.

  7. Os exageros são uma desgraça.
    Nos EUA, por exemplo, não se pode fumar no Central Park nem em aeroportos nem em restaurantes, nem em algumas casas, nem nas varandas das casas.Mas há armazéns (huge) com toda a variedade de armamento e produtos afins.
    Fazer uma viagem de avião de horas e horas e múltiplos tranfers sem se poder dar umas fumaditas no cigarro, é dose!
    Felizmente, ainda há aeroportos com salas para fumadores. O aeroporto de Munique é disso um bom exemplo. Um verdadeiro luxo para quem precisa de desstressar.

    • Rui Naldinho says:

      A sua primeira frase, já vale um bom comentário. O qual subscrevo biblicamente.
      Hoje não sou fumador, mas já tive esse privilégio. Sim, é um privilégio. Porque só é fumador quem desfruta do cigarro, do cachimbo, do café creme, e não quem queima cigarros tipo incineradora. Infelizmente, o segundo tipo, prevalece.
      Ser fumador pode ser tudo o que há de bom (prazer), e o seu contrário.
      O problema são os exageros. E é aí que reside o busílis da questão.
      O tabaco faz mal, pronto. Isso nem se discute. “Mas, cadê os outros?”
      Mas será que fumar meia dúzia de cigarros por dia, com algumas regras, condiciona assim tanto as nossas vidas? Dúvido.
      Fumei dos quinze aos 40 anos. Fumei sempre pouco. Um maço dava-me em média para dois dias, e a minha mulher, uma fumadora ocasionalissima, ainda dava umas bicadas no maço. Bela esposa. Poupava nas extravagâncias dela e gastava as minhas.
      Nunca fumei em jejum. Logo, só depois de manducar qualquer coisita. Nunca fumava a conduzir, nem a caminhar. Não confundir com aquele passeio higiénico a seguir ao almoço ou ao jantar, à “velocidade do caracol”. O chamado passeio dos tristes. Esse era mesmo para queimar um cigarro.
      Deixei de fumar por que não queria ser eu a ensinar o meu filho a fumar, que entretanto, já com dois anitos, olhava para mim fixamente, quando me via na rua a fumar, uma vez que em casa não o fazia.
      Hoje eu não fumo. Ele com vinte e um anos, fuma. E fuma à minha frente.
      A única coisa que eu lhe digo, é que faça daquilo um prazer, e não uma forma de abafar os traumas e as mágoas.
      Espero que ele me ouça. O resto é com ele.

    • A proibição de fumar só faz sentido quando prejudica terceiros.
      Fora desta situação é uma invasão do privacidade/liberdade do individuo, como todas as outras proibições ou leis limitativas como sejam da quantidade de sal e açúcar etc.
      Este tipo de proibição quanto a mim tem o objectivo de criar a “imagem” de Estado protector e preocupado com o cidadão, abrindo caminho para outro tipo de proibições. Inculca assim nas nossas cabeças que a proibição tem um objectivo “bom”, mesmo que eu não o esteja a perceber, logo o melhor é aceitar pois o Estado, quando toma estas decisões é para nosso bem”.

      Rui Silva

      • Bruno Santos says:

        O texto não se refere propriamente à proibição, mas à repentina mudança da percepção sobre esse acto ou comportamento.

        • Certo mas eu comentei na na mesma “onda” da:

          Ana says:
          04/09/2017 às 16:11

          Rui SIlva

        • Mas indo então directo à sua interessante questão, já reparou que o mesmo se passou com o Rapé, mas neste caso sem proibição ?

          Rui Silva

          • Bruno Santos says:

            Em sentido inverso: atente-se na actual tendência para a aprovação social da Cannabis.

          • Sim, existe aqui uma óbvia contradição, a menos que quando falamos da aceitação da Cannabis e não aceitação do tabaco estejamos a falar de grupos sociais diferentes , não sei…
            Assim sem pensar muito no assunto parece-me que a aceitação da cannabis será por parte de um grupo mais “intelectual / urbano”. Já o fumo (nomeadamente de Charuto e Cachimbo) é bem aceite na chamada “alta sociedade tradicional”, sendo encarado mais como um habito social que um vicio de todos os dias.

            Rui Silva

      • Paulo Alho says:

        A questão de “só quando prejudica terceiros”, esquece que os problemas de saúde individuais causados ao próprio fumador têm um custo colectivo em termos de tratamento, já que ninguém se trata a si próprio.

        • Já paga através dos impostos exurbitantes sobre o tabaco que devem ser prá aí cerca de 80% , salvo erro.
          Depois e supondo que um fumador é “premiado” com cancro vamos lá a admitir pelos 45 -60 anos, pode até nesse caso gerar um saldo liquido positivo de contribuição para o Estado , pois não gera despesas de reforma + cuidados médicos até ,por exemplo 74-80 anos que viesse a viver.
          Há cerca de 4-5 anos foi divulgado um estudo penso que na Holanda onde se chegava a essa conclusão: O tratamento dum cidadão que culmina com morte antes da reforma ( a meio da carreira contributiva por exemplo) fica mais barato ao Estado, que um cidadão que vive até à idade media de vida ( 75-80 Anos), pois o custo das pensões e dos tratamentos médicos de diversas doenças crónicas como por exemplo diabetes e outras acabam por acarretar custos mais elevados. Tendo em conta que a SS está em ruptura reforça este argumento, uma vez que temos um grande numero de “sobreviventes” até idades avançadas.

          Rui Silva

  8. Confesso que nunca tinha pensado sobre o assunto!
    Excelente ponto.

  9. MJoão says:

    É um pena que quem atira as piriscas para o chão não seja punido dado que são muitíssimo poluentes.

  10. Boa questão. A campanha pelo uso do cinto de segurança ou cadeiras para as crianças também teve igualmente resultados muito positivos e mudanças radicais no comportamento e reprovação social. A resposta é que será mais complexa de como se conseguiu. Era tentar no telemóvel ao volante por exemplo que ainda é bastante comum.

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s