A fábrica de povo


A Escola não serve para preparar os que nela andam a aprender, mas para assegurar a continuidade do poder, geração atrás de geração. Como não existe poder sem que haja quem se lhe submeta, cabe precisamente à Escola disseminar o princípio da obediência e da submissão, plasmados em dogmas cada vez mais alienantes e cuja necessidade de justificação social se dilui na indiferença geral, com crescente eficácia entre a multidão de súbditos.

O que na verdade a Instrução trouxe foi um aumento exponencial do grau de dependência do indivíduo face ao mesmo poder que lhe ministrou essa instrução, extraindo do seu corpo – e do seu espírito – como numa amputação doce, a vocação natural e inata para se libertar de qualquer jugo e evoluir no mundo como senhor da sua própria vontade.

A escadaria social com que se ornamentou a ilusão do saber e a habilidade técnica e operativa em ofícios úteis à perpetuação de todo o sistema de conhecimento que cabe ao poder validar, despertou no indivíduo o desejo inferior de suplantar o seu próximo, garantindo a predação entre seres constituintes de um mesmo corpo espiritual e estabelecendo entre eles a divisão. É este mecanismo que permite ao poder assegurar que mais do que buscar a sua própria liberdade, o indivíduo tentará suster ou eliminar a do outro. Nisso mesmo consiste a competitividade e semelhantes neologismos de feição sociologicamente inocente mas essência diabólica, nos quais se funda a doutrina da ordem vigente. O brilhantismo deste processo é notável na sofisticação com que reconverteu a escravatura através da sua reabilitação simbólica e a fez parecer a mais primordial e autêntica das vocações humanas.

Comments

  1. JgMenos says:

    Antes da Escola que manso rebanho de individualistas – ‘ a vocação natural e inata para se libertar de qualquer jugo e evoluir no mundo como senhor da sua própria vontade’ – que nós eramos.

    Uma contradição nos seus termos.

  2. Caro bruno, acredito que não seja essa a intenção, mas que este post faz um bom “frete” à direita que abomina a escola pública, lá isso faz…

    • Bruno Santos says:

      Caro Rui, é possível que tenha razão, embora a intenção não seja essa.

    • Pelo que tenho lido o autor vai acabar por evoluir para o liberalismo como tantos outros que tenho conhecido, mandando ás malvas” a lógica marxista”. Neste assunto por exemplo já reconheceu que a educação nas mãos do Estado é um problema e não é pequeno. Daqui alguns anos deverá reconhecer que a melhor solução é o ensino privado , e a liberdade de escolha do ensino. Lá chegará e os indícios estão aqui no que tem escrito, mas penso que neste momento nem o próprio está apto a reconhecer a sua mudança.
      Engraçado o comentário de um “compagnon de rute” Rui, que acha a libertinagem de pensamento do camarada “muito estranha” consubstanciada no “não vês que estás a fazer um frete à direita ?”.

      Rui SIlva

      • Bruno Santos says:

        Um comentário muito interessante. Sugiro, ainda assim, que faça uma nova leitura do texto e, desta vez, leia “Escola” no sentido de super-estrutura de ensino e instrução de um Estado, ou seja, instrumento ortopédico que inclui escolas públicas, privadas e mistas, e todo o conjunto de instituições às quais cabe moldar e transmitir o Saber de acordo com os princípios que presidem à relação Soberano/Súbdito. É possível que chegue às mesmas conclusões. Ou não.

        • Eu penso que não.
          Veja que quando diz:
          “…, ou seja, instrumento ortopédico que inclui escolas públicas, privadas e mistas, e todo o conjunto de instituições às quais cabe moldar e transmitir o Saber de acordo com os princípios que presidem à relação Soberano/Súbdito…” mesmo já admitindo que algumas instituições possam ser privadas ou mistas, admite que a transmissão do saber tem uma função ortopédica.
          E aqui reside um grande erro. E é grande por duas razões:

          1) Transmitir saber não é / não devia ser “corrigir” o individuo, pois para tanto alguém terá que definir a “norma” sem a qual não saberemos “corrigir”. Ensinar é uma coisa e educar é outra. Mal de uma sociedade que põe nas mãos do sistema de ensino a educação dos seus filhos.

          2) A definição de norma do ponto anterior , e num sistema “nas mãos” de um todo já poderoso Estado , terá necessariamente de ser definido pelo próprio Estado. Mas o Estado não é o Olimpo. Os homens que vão exercendo essas funções não são deuses. São simples mortais com as suas virtudes e defeitos, que podem errar. E nestas condições o erro terá dimensões catastróficas.

          E o individuo não tem qualquer possibilidade de se defender, pois o sistema não tem escapatória.
          Evidentemente que para os mais abastados existe a escapatória do ensino privado, que pela simples existência do ensino público nos moldes existentes, o torna demasiado caro e fora do alcance das massas.

          Não concorda que para qualquer poder instituído, ter à sua mercê um sistema de ensino, constitui uma arma de “formatação” intelectual brutal ?
          Parece-me que concordara (posso estar enganado) , mas se sim não acha que o passo lógico para “desarmar” a “besta” é a existência de um sistema de ensino privado em pé de igualdade que possa ser escolhido livremente pelo cidadão. Ou de outra maneira, o que ganha Liberdade com o controlo férreo do sistema de ensino ?

          Mas voltando à minha previsão gostava de lhe dizer que mudar é muito natural. A grande força motriz da mudança é o pensamento lógico e livre. Dentro dos “blogers” que aqui vou lendo, noto que o seu caso revela sinais subtis mas indubitáveis de mudança de rumo ideológico. Se for esse o caso prepare-se para ver aqueles que considerava serem pessoas ” impecáveis” e até “amigas” pluralistas e democráticas a fazerem-lhe a vida negra.

          Rui SIlva

          • Bruno Santos says:

            Não está a considerar que, além do Estado, e ultrapassando este, existe o Poder. O Estado português está sujeito a poderes que nem você nem eu podemos sindicar. Dou-lhe um exemplo: sobre Educação, ouve-se falar de tudo, menos daquilo que se ensina, como ensina e por que se ensina. E é aí que está o Poder.

          • Caro Bruno Santos,

            O Poder é tanto maior quanto maior é o controlo que consegue exercer.

            Falando no ensino, qual o sistema que permite um maior controlo?
            Um poder centralizado e definido ao mais ínfimo pormenor por uma entidade ou um sistema distribuído que apenas depende das decisões individuais dos seus utentes, que têm na mão a decisão de seleccionar para onde vai o pagamento deste serviço ?

            Rui Silva

          • Bruno Santos says:

            Temos que ir a montante. Quem ensina os professores?

          • Então… Os professores são um produto acabado do sistema que só o replicam…

            RS

          • ZEbrito1956? says:

            Mal estará a educação quando uma escola e os seus professores dependerem “dos que pagam”.
            E já agora: não pode essa doutrina aplicar-se ás polícias, aos tribunais e aos exércitos?

          • Bom bom é a educação estar controlada pelo Poder, isso é que é bom!
            Você não é daqueles que anda sempre a dizer que os políticos são todos uns aldrabões etc, etc , imagino eu. Você é dos que entende que os nossos políticos são pessoas boas competentes e intelectualmente tão superiores que devem decidir o que é a educação e como a administrar. Você demite-se dessa função, será por admitir que não tem competência para tal ?
            Por exemplo você não se acha competente para determinar que tipo de ensino os seus filhos deverão ter? Confia mais nos nossos políticos que em você mesmo?
            Então para si este sistema está perfeito. Mas há outros que assim não pensam.
            Em relação ao Exército e Polícias, penso que são funções eminentemente do Estado, já com os tribunais, só teríamos a ganhar com tribunais privatizados, coexistindo e em pé de igualdade com tribunais públicos.

            Rui Silva

  3. Antonio Correia says:

    A liberdade não existe. Verdadeiramente esclarecedor. Obrigado.

  4. Não é marxismo, nem neomarxismo o que aqui temos, pois do texto está ausente qualquer sentido dialéctico. Procede a uma “análise” unilateral da realidade social que não leva em linha de conta a evolução histórica e que esquece as contradições que lavram essa evolução até ao presente. São estas contradições, que geram expectativas de emancipação, que podem e devem ser exploradas através de uma ou várias vias revolucionárias. Teologia pseudomarxista de quinta linha é o que oferece Bruno Santos. Seja-me permitido dar um conselho ao autor: se escreve para obter prazer consigo mesmo, deve experimentar outros modos de auto-gratificação que envolvem também o uso das mãos – acho que falo em nome de todos os que têm um pouco de espírito crítico.

    • Bruno Santos says:

      Caro leitor, obrigado pelo seu comentário notoriamente erudito e contundente. É verdade que já reflecti sobre a possibilidade de deixar de escrever, embora não tenha ainda equacionado a sugestão que me deixa com a generosidade que se lhe reconhece, relativa ao uso auto-erótico das mãos. Mas, uma vez que fala em representação de “todos os que têm um pouco de espírito crítico”, não poderei deixar de levar isso em conta na reflexão ainda mais funda que iniciarei sem demora. Dar-lhe-ei nota, obviamente, da conclusão a que chegar. Aceite, entretanto, o meu pedido de desculpas pelo transtorno que este pequeno texto lhe tenha causado, juntamente com a dedicação incondicional de todos os meus avatares.
      Cumprimentos à sua Senhora.
      Bruno Santos

  5. Obviamente, gostei do texto original. Digamos assim : por vezes, alguém põe o dedo na ferida…

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